Nós, do Cova Aberta, já falamos um tanto a respeito de psicopatas e assassinos em série. Contudo, até agora não destacamos melhor como são definidos esses tipos de crimes que, apesar de horríveis, escondem camadas de complexidade que o grande público muitas vezes desconhece.
Segundo o Instituto Nacional de Justiça dos Estados Unidos (uma das maiores autoridades mundiais no assunto), um assassinato em série tem a seguinte definição: “Uma série de dois ou mais assassinatos cometidos em eventos separados, geralmente, mas nem sempre, por um criminoso atuando sozinho. Os crimes podem acontecer durante um período que varia de horas a anos. Muitas vezes o motivo é psicológico, e o comportamento do criminoso e as provas materiais observadas nas cenas dos crimes refletem nuances sádicas e sexuais.”
Conforme Harold Schechter, autor de “Serial Killers: Anatomia do Mal” (2018), apesar de parecer que esse tipo de crime é algo mais contemporâneo, na verdade ele sempre existiu na história da humanidade — apenas era chamado de outras formas, como “monstro sanguinário”. Além disso, a curiosidade mórbida das pessoas por esse tipo de fenômeno também não é novidade.
De forma geral, um assassinato em série quase sempre é um crime de natureza sexual, mesmo que não haja qualquer tipo de ato relacionado diretamente ao sexo. Isso pode soar um tanto estranho e contraintuitivo a princípio, mas o consenso entre os psicólogos forenses é esse. Um assassino em série seria, dentro da teoria psicanalítica, alguém que usa a morte de suas vítimas como uma forma de tornar externos os desejos mais deturpados relacionados a atos libidinosos.
Existem algumas evidências que apoiam esse pensamento, como o fato de que o assassino prefere vítimas que possuem um conjunto de características que satisfaçam seus gostos sexuais. É até mesmo por isso que muitos perfiladores criminais costumam observar um padrão nas vítimas para tentar definir as características gerais do criminoso — dependendo da experiência do profissional, pode ser feito um perfil certeiro que afunila bastante o número de suspeitos.
Exemplo: se as vítimas são todas mulheres brancas, entre 17 e 24 anos, que foram abordadas em seus locais de trabalho (todos que lidam com o público), é bem possível que o culpado seja um homem branco de mais de 25 anos que tenha frequentado esses locais em mais de uma ocasião, o que leva a presumir que ele more ou trabalhe nas redondezas. Isso ocorre porque, geralmente, as pessoas tendem a se sentir mais atraídas sexualmente por pessoas da própria etnia e, no caso dos homens, por mulheres mais jovens. Evidentemente, existem exceções, como no caso de Jeffrey Dahmer, que assassinava homossexuais negros, mas esse tipo de caso costuma ser exceção.
Apesar disso, é válido ressaltar que existem divergências nas motivações, principalmente quando se trata de assassinas em série. A começar pelo método empregado pelas mulheres, que envolve quase sempre envenenamento. Em segundo lugar, pelo fato de que se observa que mulheres tendem a matar por questões financeiras ou então para tirar do caminho algum “empecilho”, como um filho indesejado ou um parente doente.
Inclusive, segundo Tori Telfer em “Lady Killers” (2019), existe uma hipótese que associa a própria evolução humana de caçadores-coletores com traços observados entre homens e mulheres serial killers. Em outras palavras, os homens seriam mais “caçadores”, enquanto as mulheres seriam mais “coletoras” e, por causa disso, tanto as motivações quanto os métodos empregados costumam variar devido a essa nossa herança evolutiva.
Portanto, no final das contas, o maior balizador para se entender o que é um serial killer é justamente a definição do Instituto Nacional de Justiça dos Estados Unidos: mais de dois assassinatos cometidos pela mesma pessoa em um intervalo de tempo que reflitam nuances sádicas e/ou sexuais.
Outros tipos assassinatos múltiplos
Apesar de os serial killers serem um dos tipos mais notórios dentro da cultura popular, eles não são os únicos criminosos a cometerem múltiplos assassinatos. Ainda segundo a própria classificação norte-americana, existem também os “assassinatos em massa” e os “assassinatos relâmpago”. Ambos são parecidos, mas existem diferenças consideráveis.
Os assassinatos em massa são cometidos por indivíduos que invadem um local, como um restaurante, um shopping, um parque, uma escola ou um escritório, e assassinam as pessoas que estão presentes de forma desordenada. Quase sempre esse tipo de ataque acontece usando armas de fogo, mas outros métodos também podem ser utilizados, como explosivos, fogo e até mesmo lâminas. De certa forma, esse tipo de crime também é muito utilizado por terroristas, mas, normalmente, os assassinos em massa não estão buscando algum objetivo político, ideológico ou religioso; portanto, é sugerida uma separação para ambos os casos — mesmo que o método seja o mesmo.
Enquanto assassinos em série são considerados “predadores”, os assassinos em massa são comparados a uma “bomba-relógio”. Assim, é possível traçar algumas distinções entre os dois, pois alguém que comete um massacre em um local pode não ter qualquer transtorno de personalidade antissocial — ao contrário dos serial killers, que sempre têm algum nível desse distúrbio. Geralmente, esse tipo de crime é cometido por alguém cuja vida saiu dos trilhos e decidiu tomar um “ato suicida”, levando junto o que considera o motivo de seu infortúnio.
Um dos casos mais notórios de assassinato em massa é o de James Huberty, que, em 1984, invadiu um restaurante do McDonald’s com múltiplas armas de fogo e disparou contra clientes e funcionários, matando 21 pessoas e ferindo outras 19 antes de ser abatido por um atirador de elite da SWAT. De acordo com a esposa de Huberty, a vida deles estava cada vez mais difícil nos últimos anos antes do crime, pois ele não conseguia mais manter um emprego após o fechamento da fábrica onde trabalhara por anos. Além disso, ele frequentemente falava a respeito de suicídio, mas sempre dizia que, se fizesse isso, “levaria muitos junto consigo”.
Agora, os assassinatos relâmpago (nome que pode soar um pouco estranho, mas que, em inglês, se chama “killing spree”) são quase um intermediário entre os assassinos em série e os assassinos em massa. Trata-se de um indivíduo que se desloca de um ponto até outro e, nesse trajeto, comete diversos ataques indiscriminados contra pessoas — aleatórias ou não. Seria como se uma pessoa saísse de sua casa em direção a um destino qualquer e passasse a atirar em pessoas que encontrasse até chegar ao local. Esse ataque também é efetuado com o uso de armas de fogo, mas aqui já é possível observar um uso maior de lâminas.
A principal característica, neste caso, como já se pode observar, é a movimentação do criminoso. Contudo, é possível notar que tanto assassinos relâmpago quanto assassinos em massa são “bombas-relógio” humanas. Todos eles tiveram vidas infelizes e diversos dissabores, a ponto de querer pôr fim à própria vida de forma devastadora e levando muitas pessoas junto.
Exemplo de assassinato relâmpago foi cometido pelo ex-soldado norte-americano Howard Barton Unruh em 1949. Nessa época, após a Segunda Guerra Mundial, ele era um desajustado social que se sentia perdido, não tinha emprego, amigos e vivia em uma pequena quitinete com sua mãe idosa. Ele sentia falta do tempo em que “era alguém” durante o conflito. Além disso, também era gay em uma época em que isso era algo condenado. Até que, no dia 6 de setembro, saiu por sua vizinhança, em East Camden, em Nova Jersey, e atirou em pessoas em estabelecimentos e na rua — deixando um total de 13 mortos, incluindo um menino de seis anos. Howard Unruh acabou sendo preso minutos depois e considerado insano pela Justiça. Ele ficou internado em um hospital psiquiátrico até 2009, quando faleceu aos 88 anos.
