“The Ugly Stepsister”: conto de fadas sangrento e agonizante

Em 2024, um filme do gênero body horror ganhou notoriedade. “A Substância” foi aclamado não só pelos amantes de terror e horror, mas também por festivais e premiações da área como o Oscar. Já era de se esperar que esse sucesso revitalizasse o gênero, que há muito ficou esquecido. É nesse contexto que em 2025, através do streamings britânico Shudder, estreou “The Ugly Stepsister”.

No longa acompanhamos Elvira, uma jovem que sonha em se casar com um príncipe e vê nisso uma oportunidade financeira após a morte de seu padrasto. Incentivada por sua mãe, a protagonista é submetida a procedimentos estéticos brutais para aumentar suas chances. Na primeira vez que ouvi falar sobre o filme fui apresentado a ele como sendo uma adaptação subversiva do conta da Cinderela. Ao começar a rodagem, é perceptível que não é literalmente bem isso, apesar das semelhanças.

Existe sim um ar de conto de fadas, porém feito de um jeito mais real. Tudo é feito com interesses maiores e não por amor, como o desespero de Elvira e de sua mãe, Rebekka, ao descobrirem que a família do falecido padrasto de Elvira, não tinha dinheiro.

A direção é da estreante, Emilie Blichfeldt, e aqui ela mostra que entende do gênero. O foco aqui é bem claro, a agonia na violência, antes de ser gráfico “The Ugly Stepsister” é incômodo. A violência começa antes do ato, com os instrumentos afiados e rústicos, produtos de uma época menos tecnológica, e com a dor do processo.

Além disso, Elvira é tratada como produto de estudo e por vezes como cobaia. Passando por uma rinoplastia, na qual o nariz é quebrado e recolocado de uma forma estratégica, a cena tem um som seguido por gritos agonizantes que é impossível ignorar. E até mesmo uma colocação de cílios, se torna uma cirurgia incômoda. Transportar esses processos modernos para uma época em que, se existiam, eram feito de uma forma mais arcaica, é uma forma de mostrar como isso pode ser tóxico e estressante para o corpo e para a mente. Como se a diretoria quisesse transportar um processo interno para o externo.

Falando tecnicamente, aqui temos mais sangue e tripas conforme a trama avança. No início é mais suspense e agonia, mas enquanto Elvira vai deixando sua sanidade de lado, também esquece das consequências e vai se submetendo cada vez mais aos processos, incluindo os feitos por ela mesmo.

Ao saber a qualidade da maquiagem e das próteses do longa, Blichfeldt foca bem no mal-estar, com a câmera passando por entre feridas e até mesmo vermes e comidas podres ganham um ar violento, essa sujeira contrasta com a estética mágica de um conto de fadas. Esse ar sujo, ganha seu ápice na última cena, com a presença quase alienígena de um verme intestinal.

Sobre o roteiro, esperava algo mais afiado. Claro que critica ao padrão de beleza, valorização e exploração do corpo, já vimos em “A Substância”, e “The Ugly Stepsister” está mais para um primo pé no chão. Apesar de entender que a intenção seja mais choque do que a crítica, o roteiro do longa se mostra muito pobre em alguns momentos. Nada é de verdade condenável, o papel dos homens nisso tudo nunca é explicitamente punitivo ou claro. Elvira é sim uma jovem sonhadora, mas sua única motivação ser agradar o príncipe é um pouco desanimadora.

Quem faz as vezes de Cinderela é Agnes. Uma transação que, admito, me pegou desprevenido. A personagem aos poucos vai se tornando a personagem do conta de maneira sutil, ao ponto que Elvira vai se importando mais com a beleza. Ao fazer um contraste com a meia-irmã, Agnes é bonita e pouco se importa a opinião alheia, muito menos com o príncipe. Ela visa viver livremente e ao ter relações com quem ama, um tratador de cavalos e não um nobre, é punida por isso e aí que começa seu processo para se tornar Cinderela.

O final do conta de fadas todo mundo conhece. Mas o rumo da trama ganha novos contornos ao percebermos que a motivação da Agnes para ir ao baile, é pura vingança e ela querer se casar com o príncipe é apenas para mudar de vida, como se usasse o status social do nobre, não por amor.

Aliás, amor é a primeira coisa que morre nessa história. Seja o amor próprio, amor pelo outro, ou amor romance. As personagens ganham formas mais bestiário a medida que as coisas apertam, e o desfecho é tão grotesco quanto a última cena gore do filme. Apesar de nunca ir tão longe quanto poderia ir na sua crítica, “The Ugly Stepsister” vai longe na sua acidez e no gore. Tendo então um sentido diferente ao “felizes para sempre” sendo possível apenas, pelo desprendimento social.

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