A doença dos marinheiros que foi curada com laranjas

Quem joga League of Legends conhece o personagem Gankplank, o pirata tirano de Águas de Sentina. Uma de suas habilidades mais icônicas é chamada de “Remover Escorbuto”, que consiste em o personagem comer laranjas para se curar e remover efeitos negativos.

O que pouca gente sabe é que essa habilidade faz referência a uma doença que responsável por ceifar a vida de muitos marinheiros, exploradores e piratas nos séculos passados. E o mais curioso é que essa mesma enfermidade foi curada com uma medida muito simples. Inclusive, toda essa situação foi responsável por mostrar a importância das vitaminas e uma alimentação saudável para o corpo humano.

A vida no mar

Toda essa situação começou após o início da Era das Grandes Navegações, também conhecida como Era dos Descobrimentos. Este foi um período histórico que se estendeu aproximadamente do século XV ao XVII, marcando uma transformação profunda na forma como o mundo era conhecido e explorado. Motivadas pelo desejo de encontrar novas rotas comerciais para as Índias e escapar do monopólio das rotas terrestres controladas pelos árabes e italianos, as potências europeias iniciaram expedições marítimas em larga escala. Portugal e Espanha lideraram esse movimento, utilizando avanços náuticos como a caravela, o astrolábio e o aperfeiçoamento das cartas de navegação.

Portugal foi pioneiro nessas explorações, com figuras como Henrique, o Navegador, incentivando expedições pela costa da África. Em 1498, Vasco da Gama chegou à Índia contornando o Cabo da Boa Esperança, abrindo uma lucrativa rota marítima para o comércio de especiarias. Já a Espanha, sob os auspícios dos Reis Católicos, financiou Cristóvão Colombo, que em 1492 alcançou a América acreditando ter chegado às Índias. Essa rivalidade marítima levou ao Tratado de Tordesilhas, em 1494, que dividiu o mundo entre portugueses e espanhóis, com a bênção da Igreja Católica.

Os marinheiros enfrentavam jornadas de trabalho extenuantes, realizando manobras de velas, manutenção do casco e tarefas de limpeza quase sem interrupção durante dias inteiros. As embarcações eram extremamente apertadas e mal ventiladas, com entrepostos (porões) úmidos onde dormiam em redes superpostas, sujeitos a ratos e doenças. A disciplina a bordo era rígida, e infrações como insubordinação ou negligência eram punidas com açoites ou confinamento no porão, criando um ambiente de medo constante. Além dos riscos naturais, como tempestades e naufrágios, os marinheiros conviviam com pragas de insetos que contaminavam alimentos e causavam infecções. As condições de higiene eram precárias, sem chuveiros ou banheiros, e o convés servia de único local para as necessidades fisiológicas.

A dieta diária dos marinheiros consistia principalmente em carne salgada, como porco ou bovino, pão seco (biscoito naval) e uma ração de cerveja ou vinho, totalizando cerca de 3 mil calorias. O pão naval, conhecido como hardtack, era tão duro e por vezes infestado de gorgulhos que os marinheiros precisavam amolecê‑lo na bebida para conseguir mastigar. Raramente eram consumidos peixes secos e ervilhas, ração suplementar que ajudava a variar um pouco a monotonia alimentar. Em longas viagens, era comum que grande parte dos mantimentos apodrecesse ou mofasse, forçando os marinheiros a suportar cheiros fortes e o sabor desagradável.

Além de seu legado material, a Era das Grandes Navegações alterou profundamente a visão europeia sobre o mundo e o próprio ser humano. A noção de um planeta interconectado começou a tomar forma, e as descobertas científicas e cartográficas moldaram os rumos da modernidade. No entanto, os custos humanos e ambientais dessa expansão ainda são tema de reflexão e crítica, especialmente no que diz respeito ao colonialismo e às desigualdades que se perpetuam até hoje.

A dieta dos marinheiros e as doenças

Lembra do que dissemos a respeito da dieta dos marinheiros? Pois é, ela está totalmente relacionada com o escorbuto. O nome provém do latim medieval scorbutus, termo usado em tratados médicos do século XVI. Essa forma latina foi absorvida pelo francês como scorbut, dando origem também ao inglês “scurvy” e ao espanhol escorbuto. A sua raiz remonta ao germânico, mais precisamente ao proto‑germânico skurf‑ (“casca”, “escama”), que se manifesta em termos como o alemão medieval Scharbock e o inglês “scurf”. Há ainda influência do holandês scheurbuik (“barriga rachada”), que realça a relação entre ferimentos cutâneos e escorbuto nos relatos navais antigos. Em português, a forma escorbuto foi adotada via espanhol a partir do século XVI e consolidou‑se nos documentos náuticos e médicos ibéricos.

Essa é uma doença resultante da deficiência de vitamina C, essencial para a síntese de colágeno e para o funcionamento do sistema imunológico, que se manifestava em marinheiros que permaneciam meses sem consumir frutas e legumes frescos em longas viagens oceânicas. Essa carência se desenvolvia após cerca de dois a três meses em alto-mar, pois os alimentos estocados acabavam perdendo o pouco de vitamina C que tinham durante o armazenamento prolongado. Entre os séculos XV e XVII, estima‑se que o escorbuto tenha causado a morte de mais de 2 milhões de marinheiros, às vezes dizimando metade das tripulações em expedições de exploração e comércio marítimo.

Os primeiros sintomas do escorbuto incluíam fadiga intensa, fraqueza muscular e dores articulares, sinais frequentemente confundidos com exaustão comum de bordo. À medida que a doença progredia, surgiam hematomas e manchas de sangue sob a pele devido à fragilidade capilar, e as gengivas ficavam inchadas, sensíveis e sangravam, o que podia levar à perda dos dentes. Em estágios avançados, os marinheiros apresentavam inchaço generalizado (edema), anemia e feridas abertas que não cicatrizavam, aumentando o risco de infecções secundárias e morte. O impacto do escorbuto nas embarcações era devastador: navios ficavam lentos ou imobilizados, forçando paradas frequentes em portos para reabastecimento e comprometendo missões de descoberta e comércio.

James Lind

A descoberta da verdadeira causa do escorbuto teve como marco inicial o experimento clínico conduzido pelo cirurgião escocês James Lind a bordo do HMS Salisbury em 1747, considerado o primeiro ensaio clínico controlado da história médica. Em sua pesquisa, Lind dividiu doze marinheiros escorbúticos em seis grupos, administrando a cada par diferentes suplementos, e observou que os que receberam limões e laranjas apresentaram recuperação notável em poucos dias. A experiência demonstrou, pela primeira vez, que mudanças na dieta eram fundamentais para o tratamento, afastando teorias anteriores que culpavam fatores como “más águas” ou “malefícios tropicais”.

Embora registros anteriores, como os das expedições de Vasco da Gama em 1497, já apontassem para efeitos benéficos de frutas cítricas, foi Lind quem sistematizou a evidência e vinculou diretamente a alimentação à cura do escorbuto. Além disso, as ideias do cirurgião não tiveram uma aceitação ampla por parte dos marinheiros e capitães logo de imediato. Contudo, um capitão resolveu testar a teoria de Lind e seu nome era James Cook.

James Cook

Quando James Cook iniciou sua primeira grande viagem em 1768, mais de duas décadas já haviam se passado desde os experimentos de Lind. Embora o almirantado tenha encaminhado a Cook uma lista de substâncias antiescorbúticas para testar – incluindo cerveja, wort (mosto), chucrute e o “rob” de Lind (uma espécie de xarope concentrado de frutas cítricas) – a lista não chegou a incluir limões frescos em quantidade suficiente para reproduzir exatamente o ensaio do cirurgião.

No decorrer de suas expedições, Cook constatou que o chucrute era eficaz na prevenção do escorbuto e acabou impondo seu uso regular quando o suprimento de cítricos acabava. Inclusive, ele ordenava que seus marinheiros consumissem uma quantidade grande do alimento em todas as paradas em portos. Assim, graças a uma combinação de rígida disciplina higiénica a bordo, rotinas de limpeza e suprimentos de alimentos frescos, James Cook conseguiu terminar toda a sua carreira naval sem perder nenhum homem para o escorbuto, provando que a teoria de Lind estava correta. Em 1795, a Marinha Real Britânica instituiu, em 1795, o fornecimento obrigatório de três quartos de onça (aprox. 21 ml) de suco de limão por dia a cada marinheiro, medida que praticamente eliminou o escorbuto dos navios da frota para sempre.

O entendimento bioquímico da doença só ocorreu no início do século XX. Em 1927, o bioquímico húngaro Albert von Szent‑Györgyi isolou o “ácido hexurônico” e suspeitou que fosse o agente antiescorbútico presente em frutas cítricas. Em 1932, o pesquisador Charles Glen King demonstrou experimentalmente que o ácido hexurônico era o responsável pela cura do escorbuto, batizando-o de ácido ascórbico, hoje conhecido como vitamina C. Desde então, a suplementação de vitamina C em forma de comprimidos, polpas e fortificação de alimentos assegura a prevenção e o tratamento eficazes do escorbuto em todo o mundo.

Embora muitas vezes considerado um mal do passado, o escorbuto ainda persiste nos dias atuais, sobretudo em populações vulneráveis como grupos de baixa renda, refugiados, idosos e pessoas com dietas extremamente restritas. Nos Estados Unidos, a deficiência de vitamina C atinge entre 5,9 % e 7,1 % da população, e os casos pediátricos de escorbuto quase triplicaram entre 2016 e 2020. Fatores como dificuldades econômicas, alta dependência de alimentos ultraprocessados, condições médicas (por exemplo, pós-cirurgia bariátrica) e uso de inibidores de bomba de prótons podem comprometer a ingestão ou absorção do nutriente. Apesar dos sintomas iniciais, como fadiga, sangramento gengival e hematomas, serem inespecíficos e atrasarem o diagnóstico, a suplementação oral diária de 100–300 mg de vitamina C geralmente leva à melhora rápida e completa em poucas semanas.

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