Um mangá mais assustador que muitos de terror

Existem histórias de terror que nos dão sono ou vontade de rir, abusando de clichês baratos e truques saturados. Também existem romances “água com açúcar” que só comovem os públicos mais rasos. Outras histórias de drama também podem acabar resvalando em um poço de sentimentalismo que acaba deixando tudo ridículo.

Mas também existem histórias que transitam por entre todos esses gêneros ao ponto de ser difícil de definir qual é o mais certo. Naturalmente que os editores acabam classificando de forma mais aproximada e fácil para sua localização em alguma estante ou catálogo. Essa foi a situação de “Aku no Hana”, ou “As Flores do Mal” em português. Ele não é de terror, mas é mais assustador que muitas histórias feitas para dar medo. Não é romance, mas nos pegamos torcendo pela felicidade de casais. Talvez o mais próximo seja de uma história de “drama”, apesar de sugerir cautela com essa classificação – mesmo que seja a mais utilizada.

Se tivesse que resumir, pessoalmente diria que “Aku no Hana” é um mangá sobre amadurecimento e auto perdão. O próprio autor, em suas notas entre os capítulos, afirma que essa história seria sobre “o fim da adolescência”. Em sua perspectiva, muitas pessoas nunca saem da adolescência mesmo que sejam pessoas de meia idade – confesso que já vi isso demais. Assim, a visão do autor corrobora com isso: o mangá fala justamente sobre amadurecimento e perdoar a si mesmo pelas asneiras de juventude. Contudo, não daria para fazer isso sem antes mostrar com clareza todas essas asneiras.

Contexto

“Aku no Hana” (As Flores do Mal) é um mangá escrito e ilustrado por Shūzō Oshimi, publicado entre 2009 e 2014 na revista “Bessatsu Shōnen Magazine” da editora Kodansha. A história acompanha Takao Kasuga, um estudante introspectivo apaixonado pela obra “Les Fleurs du Mal”, de Charles Baudelaire. Após um impulso, ele rouba o uniforme de educação física de sua colega Nanako Saeki e é flagrado por Sawa Nakamura, uma aluna isolada e enigmática. Nakamura chantageia Kasuga, forçando-o a um “contrato” que o leva a confrontar seus desejos reprimidos e a hipocrisia da sociedade ao seu redor. No Brasil, o mangá foi licenciado pela editora NewPOP.

Shūzō Oshimi, nascido em 1981 na província de Gunma, Japão, é conhecido por criar obras que mergulham nas complexidades da psique humana. Além de “Aku no Hana”, suas obras incluem “Happiness”, “Inside Mari” e “Blood on the Tracks”. Oshimi frequentemente incorpora elementos autobiográficos em suas histórias, ambientando-as em locais familiares e explorando experiências pessoais. Seu estilo é caracterizado por personagens peculiares e situações desconfortáveis que desafiam as convenções sociais. Influenciado por poetas como Sakutaro Hagiwara e artistas surrealistas, Oshimi utiliza a narrativa visual para transmitir emoções intensas e conflitos internos.

Imprevisível, visceral e poético

Foi no verão de 2019 que li “Aku no Hana” pela primeira vez. Fiquei sabendo dele em um vídeo que falava sobre “os piores animes já feitos”. Porém, algo me chamava atenção naquela história, pois o enredo era bastante interessante. Só que, infelizmente, a técnica falha de rotoscopia para fazer o anime o deixou com essa má fama de ser ruim. Desse modo, fui atrás do mangá para ler e deixei aquele anime de lado. Desde então, já li o mangá umas quatro ou cinco vezes. E toda vez parece ser a primeira.

Não vou esconder aqui que, de longe, “Aku no Hana” é o meu mangá preferido. Ele é sutil, mas visceral, imprevisível e caótico, mas ao mesmo tempo belo e poético. Além disso, é uma obra que fala sobre algo que não é tratado de forma tão adequada por outras narrativas: amadurecimento. Este talvez seja um dos processos mais difíceis da vida de uma pessoa e, de certa forma, é ininterrupto. Até mesmo uma pessoa idosa, prestes a morrer, pode aprender e se dar conta de muitas coisas que antes não se dava conta. Nunca é fácil, nunca tem um ponto final. E quem para de crescer por acreditar que já sabe o suficiente, no fim, acaba se tornando imaturo e arrogante – veja quantas pessoas mais velhas acham que sabem de tudo só por terem vivido mais.

E justamente por falar de um tema tão importante, mas de uma forma tão poética e, ao mesmo tempo, pesada, que “Aku no Hana” se destaca. Pessoalmente, sempre me senti aborrecido pelo fato de nunca ter tido a oportunidade de ter a obra física, pois era inédita no Brasil. Contudo, entre 2024 e 2025, os volumes foram sendo lançados mensalmente e decidi comprar todos de uma só vez. Custou pouco mais de R$ 200, mas senti que paguei barato, pois a importância desse mangá para mim era tanta que não me importava de pagar. Tendo todos os volumes em mãos, esperei até meu final de semana de folga para ler todos os 11 volumes de uma só vez. Pensei em não escrever análise alguma, pois como sou apaixonado pela obra, achei que fosse ser menos preciso do que gostaria – até hoje não fiz crítica de livros que gosto muito, como “A Revolta de Atlas” e “A Jornada ao Oeste” por esse motivo. No entanto, resolvi me desafiar e fazer isso. Espero só que tal texto não vire uma carta de amor.

Arte sóbria e bela

Uma das primeiras coisas que chama atenção em “Aku no Hana” é sua bela ilustração, que é sóbria em todos os momentos e sem o uso de recursos cartunescos característicos de outros mangás e animes, como expressões faciais exageradas ou gestos extravagantes. Assim, apesar de belo, cada quadro pode soar “realista demais” pelo fato de não utilizar de tais recursos mais clássicos e isso colabora para a atmosfera mais densa da história. É como se ele comunicasse constantemente, com seus traços, algo tipo “isso aqui é sério, não temos espaço para piadinhas”.

Outro aspecto interessante do mangá é que o autor utiliza, de forma interessante, o fluxo de consciência, mas se valendo dos quadros e não apenas do texto. Essa técnica é relativamente recente na história da literatura, sendo que ela busca emular os pensamentos de uma pessoa tal da forma como eles ocorrem – de forma “atropelada”, caótica, dispersa, mas ainda assim coesa e com sentido, uma vez que nossa mente funciona assim. Liev Tolstói é considerado um dos precursores no uso dessa técnica, muito utilizada em parágrafos de “Anna Kariênina”, mas James Joyce foi o grande expoente dessa técnica com “Ulysses” (1920), sendo um livro inteiro escrito de tal forma. Portanto, é possível ver que Oshimi se valeu de tal artifício para compor passagens, mas como apoio dos quadros, o que deixa a obra mais densa psicologicamente ao nos transportar para o interior das angústias do protagonista – principalmente na juventude. Exemplo é quando ele começa a pensar no que fez após roubar as roupas de ginástica de sua colega, mas começa a reparar em toda a “opressão e abandono” da cidade, cercada por montanhas e com ferrugem em todos os locais públicos.

Além disso, outro recurso muito frequente utilizado pelo autor, principalmente mais para o final da obra, são os trechos “surreais e simbólicos” de diálogos internos que o protagonista tem, buscando representar de forma mais conceitual certos aspectos da história, como “fantasmas” e a “flor do mal”. Oshimi também usa e abusa de diversos trechos “mudos”, nos quais são mostradas páginas e páginas com praticamente nenhum diálogo, indicando principalmente a passagem de tempo quando se faz necessário. Assim, além de ser um grande contador de histórias, ele também tem noção das possibilidades que seus recursos narrativos possuem para enriquecer sua obra. Em outras palavras, dá para notar o quanto é um artista sensível e de mão cheia.

Quase uma toca de coelho

Analisando os aspectos mais particulares de “Aku no Hana”, podemos perceber que essa é uma obra que usa e abusa das causas e consequências de uma forma bastante angustiante e trágica. Quer dizer: qualquer história com a premissa “boba” de um aluno roubando as roupas de ginástica da colega poderia escorregar em uma comédia genérica. Mas aqui ela começa com uma história de culpa de um jovem que começa a se sentir a pior de todas as pessoas do mundo – mesmo que ele não seja. Parando para pensar, essa atitude dele, que foi feita mais por impulso do que por uma “perversão”, se torna ainda mais bizarra quando pensamos nas consequências graves dela. Quer dizer: o roubo em si pode ser algo ridículo, mas o que veio depois por causa disso passou para absurdo, grave e até mesmo sinistro.

Olhando de fora, talvez o mais adequado seria Kasuga dar um jeito de devolver ou até mesmo confessar o que fez, o que traria uma dor e humilhação, mas possivelmente seria menor e mais palatável do que tudo que veio a acontecer em seguida. Ter sido flagrado por Nakamura, uma garota bizarra e esquisita, e a ideia de estar “nas mãos” dela e passar por uma humilhação pública, no final das contas acabou o levando para o mesmo caminho da vergonha – mas de forma mais grave, como já dito.

Em poucos capítulos, percebemos que o autor não está de brincadeira. Literalmente “tudo” pode acontecer nessa história, pois Nakamura é imprevisível, sádica e tóxica, mas principalmente uma pessoa “entediada” e confusa consigo mesma, sendo que um dos motivos disso é sua visão purista sobre a sexualidade – falaremos sobre isso mais adiante. Dessa forma, ao firmar “um contrato” com Kasuga, ela está tentando buscar uma forma de fugir do tédio e do vazio da própria existência. Infelizmente adolescentes fazem muitas besteiras em busca da diversão, do autodescobrimento ou por pura rebeldia, e Nakamura representa tudo isso ao mesmo tempo. Neste sentido, isso levanta o questionamento do quanto o niilismo, principalmente entre os mais jovens, pode ser ainda mais prejudicial do que ter algum tipo de religião, pois em muitos momentos é essa a impressão que fica. Isto é: a garota é uma niilista, desamparada pela família em todos os sentidos, que encontrou forma de levar a vida de uma forma tóxica. É claro que podemos pensar também que Nakamura enfrentava problemas psicológicos, como depressão, mas o autor pareceu querer transparecer tudo mais no âmbito do temperamento.

Neste sentido, a segunda parte da história, que é importante para que se entenda as consequências do primeiro arco, também é uma toca de coelho. É quase impossível prever o que irá acontecer cada vez que viramos as páginas e, de fato, nada nos dá pistas de como tudo irá se encerrar. Porém, de forma recompensadora, as coisas se fecham de uma forma relativamente “boa” para todos os personagens e é satisfatório ver como todos (ou quase todos) conseguem crescer e amadurecer, mesmo com diversos traumas passados.

Crescer é difícil

Não teríamos como falar sobre o processo de maturidade (ou o fim da adolescência) sem antes falar sobre a imaturidade. E para isso estamos em contato com as atitudes vergonhosas dos personagens quando muito novos.

Arrogância é algo que permeia a personalidade tanto de Kasuga quanto Nakamura. O protagonista se julga como uma pessoa “superior” pelo simples fato de ter o hábito da leitura (atitude lamentável de muitos leitores), mesmo que ele sequer entenda aquilo que leu. Assim, sua obsessão com Baudelaire e “As Flores do Mal” começa, uma vez que ele sequer consegue compreender perfeitamente o que a poesia quer dizer, mas que mesmo assim acaba o levando par todos os lugares quase como se fosse uma bíblia. Ele, inclusive, tem um retrato do poeta em sua estante quase como se fosse para adorá-lo de alguma forma, pedindo “forças” a ele em momentos difíceis quase como se ele fosse um deus – mesmo que sua atitude seja quase irracional. Outro ponto da imaturidade de Kasuga é justamente o fato de ser controlado e ser exposto a várias humilhações impostas por Nakamura, como vestir o uniforme de Saeko enquanto vai a um encontro com ela e até mesmo tirando suas roupas na frente dela. Mas, apesar disso tudo, ele não consegue entender os próprios sentimentos e as “complexidades vazias” da mente confusa de Nakamura a ponto de desenvolver uma paixão por ela – a ponto de até mesmo aceitar cometer suicídio junto dela. Pode soar como uma falta de amor próprio, mas tudo isso é reflexo de sua própria arrogância e fraqueza mental em não admitir que estava em uma situação abusiva. É vergonhoso de ler, mas todo mundo possui algum podre digno de pena de juventude.

Nakamura também é arrogante, ao ponto de chamar todos de “vermes” ou “comedores de merda”. Porém, o fato é que aqui sua arrogância adota um teor muito mais caótico, confuso e niilista, como se ela não quisesse sequer tentar ser alguém “um pouco mais normal”, pois isso iria tirar sua “identidade”. Curiosamente, ela sempre procurava sair da cidade e encontrar o “outro lado”, mesmo que ela sequer saiba exatamente o que é isso. O fato é que talvez ela quisesse fugir não só das montanhas que cercavam o local, mas sim de si mesma – o que é impossível. Chega a ser curioso, pois, sua última aparição na obra não é nessa claustrofobia, mas sim olhando o mar e a liberdade que ele representa, mostrando apenas que ela estava “mais contida”.

Por fim, outra personagem importante para a trama mostra para todos que, depois de tudo que passou, não teve qualquer pingo de amadurecimento. Nanako Saeki era a representação da “menina perfeita”, pois era bonita, inteligente e talentosa. Como ela mesma admitia, ela sempre fora o que os outros queriam que ela fosse. Assim, quando resolveu sair com Kasuga, e ele se abriu com ela sobre temas envolvendo literatura, ela começou a perceber que a vida era bem mais do que seguir uma “planilha”. Porém, ela foi jogada em uma situação na qual foi exposta a uma humilhação (o roubo de suas roupas de ginástica) e logo em seguida aos ciúmes de ter que dividir o rapaz com outra. Em outras palavras, ela nunca tinha realmente “vivido” de verdade e, ao ter contato com algo fora do que planejaram para ela, sua vida começou a desandar. Inclusive, ela foi a única personagem de toda a história a cometer o crime mais grave (o incêndio criminoso no esconderijo de Nakamura e Kasuga), além de ter uma atitude que poderia ser quase considerada um estupro contra o protagonista. E mesmo com tudo isso, quando vemos a conversa dela com Kasuga anos após os incidentes, vemos que ela ainda o culpava por tudo e não pareceu ter qualquer tipo de autocrítica. Isso é muito realista, pois, muitas pessoas demoram mais para fazer isso – ou nunca o fazem.

O processo de amadurecimento é introspectivo, silencioso e depende de muita reflexão. E isso é doloroso e complexo, não sendo uma experiência fácil de se digerir. Kasuga, mesmo que tenha vivido “como um zumbi” durante três anos após os acontecimentos da primeira parte, se vê diante de situações que o levam a encarar tudo tentar superar. Nakamura ficou apenas “contida” e conformada neste meio tempo. Por fim, Saeki pareceu se recusar a olhar para dentro de si mesma e se apegou ao passado ao ponto de até achar um namorado muito parecido com o protagonista.

Sexo e a ideia de pureza

Sexualidade é um tema muito recorrente na adolescência, mas em “Aku no Hana”, o autor resolveu o tratar de uma forma diferente. O tema do sexo é mencionado de forma explícita muito raramente, mas a tensão quase erótica permanece nas páginas. É quase como se o assunto estivesse presente de forma constante, mesmo sem aparecer efetivamente.

No início, de forma histérica, Nakamura afirma isso, dizendo que no fundo tudo se resumia a sexo (uma ideia até meio freudiana) na mente das pessoas. Porém, aqui vale dizer que a forma como ela lida com essa ideia de sexo é deturpada e complexa, pois ela se considera uma “pervertida”, mas parece ter certo pudor com assuntos sexuais. É quase como se ela, de alguma forma, quisesse manter uma ideia de “pureza” em alguma medida, mas fez isso abraçando a ideia de que ela própria era suja. Tudo isso é subtendido, uma vez que nada disso é explícito, mas a conclusão que chegamos é que Nakamura é uma espécie de puritana niilista que não consegue entender a si mesma, nem sequer teve uma boa orientação a respeito.

A única vez que Kasuga menciona abertamente o sexo é no final, ao contar para Tokiwa, sua namorada, sobre o que aconteceu em sua juventude. Ele fala que gostaria de procurar Nakamura “não para transar” com ela, mas para poder por um ponto final naquele assunto e que pudesse levar uma vida com Tokiwa. Curiosamente, o único personagem que não falou sobre isso na obra inteira é também o único mostrado fazendo sexo no fim – isto se ele chegou às vias de fato com Saeki anos antes. Porém, no início, Kasuga também possuía a ideia de pureza tanto quanto Nakamura e de forma até mais explícita. Ele mesmo julgava que sua relação com Saeki era “pura”, pois ela era bela e perfeita demais para fazer algo tão subversivo – o que, ironicamente, é mostrado o contrário capítulos depois. É evidente que, tirando o impulso inicial de roubar as roupas da colega, ele teve atitudes mais ousadas depois, como roubar as calcinhas de todas as outras colegas. Porém, ele fez isso muito mais como uma forma de divertir Nakamura do que por satisfação própria.

Por fim, como já dito, Saeki era considerada a “menina perfeita” e foi a única que se demonstrou, ativamente, sendo uma pervertida. Ela inclusive atraiu Kasuga para o esconderijo e teve a ousadia de ficar nua na frente dele, se insinuando. Os quadros seguintes são propositalmente confusos para deixar dúvidas se eles consumaram o fato ou não, mesmo que ele afirme que amava Nakamura. Outra margem para dúvida é que, no capítulo seguinte, é possível ver sangue escorrendo de suas pernas, o que poderia indicar uma perda de virgindade de alguma forma. Enfim, é debatível, mas tudo foi feito de forma provocativa para deixar essa dúvida, mesmo que tal ato tenha sido de forma forçada caso tenha acontecido de fato.

Quando a maturidade chega

Três anos se passam após a primeira parte da história. Kasuga está morando em uma cidade maior, estudando no ensino médio e parece levar uma vida normal. Mas logo de cara vemos que têm diversos problemas acontecendo. Ele está com um cabelo semelhante ao que Nakamura usava e leva seus dias da forma mais automática possível, mal reparando nos outros. O casamento de seus pais não vai bem após os acontecimentos, sendo que seu pai passou a beber muito e ser negligente até com a própria higiene – além de ter brigas nas quais faz a esposa chorar, sendo que antes havia dito que o filho nunca deveria fazer a mãe derramar qualquer lágrima.

Neste momento, somos apresentados a Aya Tokiwa, uma nova personagem que acaba se tornando o fio-condutor para a “salvação” de Kasuga. Ele sabia da existência dela em outros momentos, uma vez que eram da mesma escola e até chegaram a sair juntos em um grupo de amigos. No entanto, ele só iria despertar algum interesse por ela ao vê-la em um sebo com o livro “As Flores do Mal” na mão. O protagonista chega até a esquecer que, um dia, foi um leitor assíduo e admite que gostava de ler apenas para “se provar” de alguma forma. Quando Tokiwa começa a emprestar livros para ele, de alguma forma é como se pela primeira vez na vida ele realmente passasse a entender o que estava lendo.

Tokiwa não é uma personagem com tantas complexidades quanto Nakamura e Saeki. Ela é uma aluna comum, popular e bonita, mas possui um gosto por leitura que mantém oculto por acreditar que os outros não iriam achar algo aceitável, sendo que ela tinha a vontade de se tornar escritora. Porém, é visível como ela também é capaz de tomar atitudes questionáveis, como o fato de convidar um homem para entrar em seu quarto sendo que seu próprio namorado não tinha sido convidado em um ano de namoro. Ela explica que tinha feito isso porque tinha livros e achava que ele acharia ruim de alguma forma. Nada nos leva a pensar que isso não é verdade, mas ainda assim é notório quanto até mesmo uma personagem mais próxima de “ideal” é capaz de atitudes controversas.

A presença de Tokiwa na obra nos mostra, de uma forma agridoce, que raramente nosso primeiro amor é o amor da nossa vida, e que essa “pessoa certa” pode vir em contextos não tão “corretos”. Ela já era compromissada quando Kasuga se declara para ela (em uma cena bastante tensa e até vergonhosa), mas ela reconhece que Kasuga era alguém mais adequado para ela do que Koji, o seu namorado. Apesar de tudo, a situação nos faz ter pena também de Koji, pois ele é um personagem tão humano quanto qualquer outro apresentado na obra, não é má pessoa e foi exposto a uma humilhação pública de ser trocado pela garota que gostava. Mais uma vez, aqui, podemos ver que Tokiwa e Kasuga são capazes de atitudes egoístas e maldosas, mas dessa vez o protagonista está sendo sincero e causando uma “dor rápida” e não deixar para algo escalonar para algo muito maior e difícil de contornar. A maturidade é assim mesmo: eventualmente se fará coisas “ruins”, mas isso deve ser feito com responsabilidade e da “melhor” forma possível.

Ainda nesta segunda parte, pouco antes de Kasuga e Tokiwa começarem a namorar, Saeki reaparece de forma inconveniente. Kasuga a reconheceu na rua através de seu cheiro, que era o mesmo do uniforme escolar que havia roupado. Saeki continua linda, mas visivelmente não amadureceu. Curiosamente, ela está namorando um rapaz muito parecido com Kasuga e o autor fez questão de deixar isso muito claro ao colocar os rostos de ambos lado a lado em dois quadros distintos Para acabar com as dúvidas, Tokiwa logo em seguida comenta o quanto eles eram parecidos, mas aqui acredito que foi uma autoexposição desnecessária. Eles trocam telefone e conversam em um restaurante dias depois. Nesta conversa, é revelado que Saeki chegou a passar um mês em um reformatório por ter incendiado o esconderijo de Kasuga e Nakamura. E é nessa parte que podemos ver que Saeki é uma pessoa amargurada e de caráter até mesmo sombrio, ao relatar que viu toda a cena que Kasuga e Nakamura causaram em sua fracassada tentativa de suicídio. E o irônico é Saeki apontar que Tokiwa é muito parecida com Nakamura, sendo que ela mesma arrumou um namorado idêntico ao Kasuga. E aí vem a famosa frase dela afirmando que ele irá transformar Tokiwa em alguém “infeliz” também.

O encontro, apesar de ter sido cruel, também foi importante para deixar Kasuga pensativo e refletir se Saeki não estava certa em acusa-lo de usar Tokiwa como substituta de Nakamura. Assim, a conversa serviu quase a “virada de chave” para que ele começasse a finalmente amadurecer.

Em um momento marcante de diálogo de Kasuga com sua própria “sombra”, ele começa a perceber que sempre precisou estar obcecado por algo para poder viver, começando com seus livros, depois Nakamura e, mais recentemente, o livro que Tokiwa estava escrevendo. A “sombra” também o acusa de ser alguém que traz infelicidade para os outros sempre, além de apontar que Nakamura viu algo nele e por isso ela o empurrou do palco para que não morresse queimado com ela. E aqui temos outro exemplo de fluxo de consciência mostrado em quadros, de forma magistral. “Eu não consigo viver para sempre no mundo dos fantasmas” é a frase que simboliza o processo do início do amadurecimento do protagonista e, logo em seguida, é mostrada a “flor símbolo” da obra, com um olho, sendo esmagada em sua mão. Esse seu processo, de alguma forma, é benéfico não só para ele, mas também para todos ao seu redor, uma vez que seus pais voltam a ter uma relação mais estável após isso.

O reencontro

Nos últimos capítulos, logo após tudo estar se resolvendo, Kasuga é obrigado a voltar para sua antiga cidade, pois seu avô está morrendo. Seus pais são contrários a isso a princípio, mas de forma surpreendente, o rapaz responde da forma mais sensata que poderia: “mesmo que a ferida se cure, a cicatriz permanece e não posso mais fugir disso”. Assim, a família faz a viagem, mas o protagonista não é bem recebido pelos seus parentes que o julgam como uma vergonha. Um deles, inclusive, afirma que “se ele estivesse arrependido, deveria pagar pelo resto da vida”. Porém, Kasuga reage a tudo isso muito bem não se deixa abalar, mostrando o crescimento dele em detrimento de outros que “nunca saem da adolescência”.

Nessa viagem, Kasuga encontra com Kinoshita, uma personagem que apareceu na primeira parte da história e era amiga de Saeki. Aqui podemos ver que não existem personagens “sobrando” na obra, pois a própria Kinoshita tem um papel importante no desenrolar dos acontecimentos passados, mas ela parece se arrepender pelo fato de ter “sido abandonada” naquela cidade cercada por montanhas. Nesse encontro, ela informa onde Nakamura estaria morando e dá instruções anotadas em um guardanapo.

Quando volta para casa, ele conta tudo para Tokiwa (todo seu passado e sua ideia de ir atrás de Nakamura). A princípio, ela não reage bem, chegando até mesmo a rasgar o livro que havia escrito e fugindo de casa para longe de Kasuga, que a segue e afirma que não iria deixa-la ir. Assim, ela pede um beijo ao namorado, mostrando que eles não haviam se beijado até aquele momento e, por fim, decide que iria junto dele para encontrar com Nakamura.

O casal faz uma viagem para encontra-la, mas ela está diferente, com o cabelo comprido e com uma cor escura. Além disso, ela está trabalhando no restaurante da mãe, levando uma vida pacata. Porém, Nakamura parece estar “anestesiada”, demonstrando que ainda permanece um mistério sobre sua pessoa. Contudo, ela também parece ter se tornado alguém mais contemplativa, até apreciando o “ciclo sem fim do pôr e nascer do sol”. O encontro, no fim das contas, é agridoce. Kasuga chega a agredir Nakamura (algo que nunca se pensaria que ele faria), mas ela revida e, no fim, parece que tudo aquilo serviu para selar o passado de uma vez por todas, pois eles acabam a história rolando e brincando na água do mar. Por fim, Nakamura pede para que Kasuga nunca mais volte e, ao que tudo dá a entender, ele realmente não retorna.

Após isso, temos mais uma pequena passagem de tempo e Kasuga aparece com o cabelo cortado, como no início da obra, e está seguindo sua vida como universitário ao lado de Tokiwa. Curiosamente, aqui temos uma confirmação de que o cabelo possui o simbolismo profundo em “Aku no Hana”, sendo que na mesma cena que vemos o protagonista com um novo corte, vemos seu professor universitário falar sobre o poema “Cabeleira”, de Baudelaire, e que este foi escrito para uma mulher. Em outras palavras, alguma alteração no cabelo apresentados no mangá têm como representação algum tipo de “tributo” a alguém.

O mistério de Nakamura permanece

O último capítulo não traz qualquer resposta a respeito das complexidades de Nakamura. Ele quase não tem falas e mostra a perspectiva da garota, mas sobre o primeiro capítulo da obra. Podemos ver que, em sua percepção, todo mundo não passava de um borrão negro disforme e incômodo. Dessa forma, seu comportamento é quase tão indiferente quanto se poderia ser com algo assim. Porém, o único que deixa de ter esse formato abstrato é Kasuga, logo após ela flagrar ele roubando as roupas de Saeki. Ela chega a escrever em seu diário que “existia outro pervertido como ela” com alguma emoção.  

Este fechamento da história é bastante interpretativo e gera especulações. Porém, quanto mais se pensa, menos certezas se têm a respeito do caráter de Nakamura e se, de fato, algum dia ela terá algo próximo de felicidade. O mais provável é que o autor tenha colocado esse capítulo dessa forma para que a história não termine totalmente “feliz”, mas sem estragar o belo caminho que havia construído até aquele momento.

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