Sem mais ideias, estúdio americano faz remake de filme recém lançado

Se eu não sou fã de remakes, imagine então dos desnecessários. Muitas obras, mesmo com 20 ou 30 anos de idade, continuam atuais e não precisam de uma versão moderna para preservar sua essência. Dito isso, em nenhuma circunstância se justifica um remake com apenas dois anos de diferença. É o caso do dinamarquês “Speak No Evil”, lançado em 2022 e que ganhou uma versão americana em 2024. Por puro desprezo a essa prática de refilmar bons filmes por causa da preguiça do público estadunidense de ler legendas, negligenciei propositadamente o longa até finalmente criar coragem para assisti-lo.

Apesar de não ser a completa bomba que eu esperava, a versão de 2024 ainda é uma adaptação mais genérica e padronizada do original, o que vale um comentário sobre esse cenário. A história é a mesma, já abordada no texto sobre o filme original: um casal passa um tempo na casa de outra família que conheceram durante as férias na Itália. Com o tempo, coisas estranhas começam a acontecer e os protagonistas se veem presos em uma relação de dominância e passividade.

Um ponto que o diretor do remake, James Watkins, entendeu e soube usar — pelo menos até certo ponto — é o uso do constrangimento para criar suspense e tensão. A maior arma de “Speak No Evil” é justamente gerar terror por meio desses momentos de permissividade, onde o silêncio tem consequências graves.

No filme original, isso é explorado de maneira muito mais sutil. Um bom exemplo é a cena do almoço, em que Karin, personagem do casal vilão, dá ordens para Agnes, filha do casal protagonista. A sequência ocorre em segundo plano, em meio a outro diálogo, sendo percebida apenas depois, quando Louise, a mãe da menina, interfere. Essa cena também está presente no remake, mas acontece em primeiro plano, sendo muito mais direta.

Aliás, essa falta de sutileza é uma característica recorrente no remake. O filme é mais expositivo, abrindo mão da construção gradual da dominância dos vilões. Ao escancarar suas intenções desde cedo, o longa de 2024 se torna menos tenso e apreensivo.

Essas e outras decisões são, claro, puramente mercadológicas. Como o original é um filme independente, não houve preocupação em agradar o grande público com uma história que se desenvolve em camadas, e não apenas na superfície dos diálogos. Esse tipo de adaptação afeta o longa de diversas formas. Uma delas é a troca de nacionalidades dos personagens. No original, temos protagonistas dinamarqueses e vilões holandeses, o que cria uma barreira linguística e adiciona uma camada ao mistério, além de fazer um comentário sobre a cultura de gentileza dos holandeses.

No remake, os protagonistas são americanos e os vilões, ingleses. Sem a barreira da língua, a única diferença entre os dois casais é o fato de os protagonistas serem da cidade e os vilões do campo — o que, em vez de subverter expectativas, reforça o estereótipo dos “caipiras esquisitos”. Outra mudança considerável — e novamente mercadológica — é o foco maior no vilão Paddy, interpretado por James McAvoy. Já consagrado por papéis como o de “Fragmentado”, McAvoy se torna o destaque do longa, inclusive estampando o cartaz da versão americana.

Não tiro o mérito de ele ser um bom ator, e sua presença física aumenta o grau de ameaça do personagem. No entanto, ao decidir focar mais nele, o filme poderia ter explorado outras possibilidades — como torná-lo o protagonista e, assim, mudar o ponto de vista da trama, talvez criando um plot twist sobre sua verdadeira identidade como vilão. Ainda assim, essa ideia provavelmente não funcionaria. Um padrão do mercado norte-americano — e que revela uma deficiência narrativa — é que o protagonista precisa ser o herói da história. Qualquer coisa diferente disso seria considerada confusa demais, o que nos leva à polêmica mudança do final.

Para abordar o desfecho das duas versões, é necessário entrar em território de spoilers.

O longa de 2022 é mais sutil e menos expositivo; os mistérios que cercam os vilões são mostrados, não explicados. Descobrimos seus planos e modus operandi por meio de pistas visuais e comportamentais. O final pessimista do filme original não serve apenas para causar raiva ou tristeza, mas para mostrar o que acontece quando os vilões vencem — sem nunca revelar abertamente suas intenções. É um choque eficaz ver os protagonistas não sobreviverem.

Já o remake segue por outro caminho. Desde o início, temos pistas claras das intenções dos vilões. Como o filme é menos sutil, antes mesmo do terceiro ato já sabemos que o casal é uma ameaça. Com toda essa exposição, não faria sentido esconder o desfecho, e entramos em mais uma convenção narrativa dos filmes americanos: o terceiro ato precisa ser fisicamente grandioso e heroico.

Assim, temos um conflito físico que não existe no original, onde o terror é essencialmente psicológico. O remake até se beneficia da presença de McAvoy, mas tanto ele quanto a personagem de Aisling Franciosi acabam caindo no terreno dos vilões caricatos, com direito a diálogos que os fazem parecer mais o Coringa e a Arlequina do que figuras ameaçadoras que manipulam com palavras.

No fim, nada justifica um remake de uma obra lançada apenas dois anos antes. Especialmente uma versão que se arrisca menos, é menos inteligente e menos sutil, feita com a desculpa de precisar ter apelo comercial. Essa é a razão pela qual resisti tanto a assistir ao remake. Não se trata de rejeitar o apelo comercial — eu gosto de muitos blockbusters —, mas de criticar o sufocamento das ideias originais. A arte e a criatividade se perdem quando se prioriza um público que não aprendeu a ler legendas.

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