O gambá e a enxada

Manoel gostava de beber, mas sua esposa não tolerava que ele bebesse nem um único gole de cerveja. Quem dirá então cachaça, a sua bebida predileta – pura e curtida, acompanhada de pedaços de torresmo com limão.

Eugênia era violenta e intolerante, mantendo todos na família sob rédeas curtas e agindo com brutalidade quando desaprovava algo. Manoel já havia sido agredido com cadeiradas, tesouradas e mordidas pelos mais variados motivos, desde faltas mais graves, até ser pego dando umas bicadas ou comprando presentes escondidos para Dimas, seu primeiro neto – ao menos, o primeiro de sangue. O velho barrigudo, careca e doente nunca revidou as agressões, mesmo quando os três filhos torciam pelo dia que ele se revoltaria e daria ao menos um tapa nela.  

Porém, ele gostava de beber. E não só pelo efeito entorpecente da bebida, mas ele realmente apreciava o gosto forte e intenso da cachaça pura em sua boca. E ao contrário de outros homens, que soltam a língua, Manoel simplesmente ficava quieto e risonho, achando graça de tudo – até das pauladas de Eugênia.

E devido a isso, ele sempre dava um jeito de consumir o precioso líquido quando a oportunidade surgia. Quando a mulher e os filhos iam para a praia ou chácara, ele inventava que tinha trabalho para fazer e por isso precisaria ficar na cidade. Na maioria das vezes era verdade, pois era um dos melhores pedreiros de toda a região, mas também era a sua oportunidade de sentar na mesa da cozinha e beber umas boas três ou quatro doses.

Mesmo não sendo um santo, e tendo cometido muitos erros na vida, talvez aquele fosse o seu maior pecado, mas também seu maior prazer. E só poderia desfrutá-lo na companhia de si mesmo e de Deus.

E dos gambás.

Esta era outra desculpa que Manoel dava para sempre ter uma garrafa de cachaça em casa: era uma forma eficiente de acabar com os gambás que, não raro, invadiam tanto o terreno da cidade quanto o da chácara.

Eugênia odiava bebida, mas odiava ainda mais os gambás, portanto tolerava a prática do marido após ver que era eficiente. Isto é: bastava colocar uma tigela com a cachaça em um ponto do pátio, esperar que o animal bebesse até adormecer e, por fim, mata-lo. Manoel achava melhor apenas dar um golpe de enxada na cabeça do bicho, mas sua esposa várias vezes havia ateado fogo neles. Ela só parou com isso após quase ter causado um incêndio que teria ceifado a vida do pai de Dimas quando ele ainda era um adolescente.

Naturalmente, por conta disso tudo, Manoel sempre surrupiava uns bons goles da cachaça sempre que precisava se livrar de alguns gambás. Em duas ocasiões, ele chegou a se sentar do lado de um que estava adormecido e tomou uma dose antes de dar cabo do bicho.

Em ambas as vezes, ele estava reflexivo e pensando em sua própria vida. Por mais que tivesse pouco mais de 60 anos, seu corpo estava maltratado a ponto de ser biologicamente muito mais velho – exames comprovaram isso. Ele sentia o peso da idade e do trabalho duro de uma vida inteira, sendo que mesmo com uma considerável aposentadoria, parecia que seu descanso merecido nunca viria de fato. Seu olhar desviou para o gambá adormecido que, mesmo estando prestes a ter a cabeça arrancada, provavelmente tinha uma vida melhor do que a sua. Talvez até pelo fato de ser mais curta.

Isso tudo começou a mudar na cabeça do velho pedreiro quando Dimas nasceu. No neto, ele descobriu que a vida ainda poderia valer a pena mesmo com tudo aquilo. O carisma da criança era tamanho que conquistava os adultos de forma tão cativante que até parecia ser mais velho do que fato era – todos se surpreenderam, anos depois, quando ele se tornou alguém amargo e sombrio, mas “pelo menos era trabalhador”. Manoel não viveu para ver seu primeiro neto perder todo o brilho.

Em certa ocasião, no início dos anos 2000, a família inteira estava reunida na chácara isolada e bem cuidada. Não era aniversário de ninguém, nem mesmo festas de fim de ano. Eles simplesmente quiseram fazer um churrasco e passar o final de semana lá porque sim.

Enquanto os homens se ocupavam de preparar a carne, e as mulheres a fazer o restante da comida, Manoel guiava Dimas por entre as diferentes árvores do local. A maioria delas eram laranjeiras e bergamoteiras, mas também haviam alguns limoeiros e plantações de abóboras, cenouras, aipim, cana-de-açúcar e algumas outras que nunca chegaram a vingar. O menino se admirava com o conhecimento do avô e tentava absorver tudo.

Em dado momento, Manoel parou ao verificar um pouco de terra remexida em uma das plantações de aipim. “Gambás”, ele pensou já sabendo o que fazer. Dimas notou a hesitação e mudança no semblante do avô, mas não perguntou nada por ter ficado com um pouco de medo.

O dia passou normalmente, com alguns pequenos atritos entre os irmãos já adultos e entre o casal de velhos, mas nada chegou a sair do controle. Provavelmente a presença de Dimas segurava a língua de todos por algum motivo.

No final das contas, tudo aquilo era por ele.

Quando a noite chegou, e todos começaram a se recolher nos quartos da casa na chácara, Manoel pegou uma garrafa de cachaça no armário da cozinha e algumas tigelas rasas. Eugênia viu aquilo e, de forma inquisitiva, perguntou ao velho:

– O gambá mijou nos aipins?

– Vou colocar cachaça para ele e já volto.

– Eu sei bem como é cara desse gambá… – retrucou a velha com uma pausa entre cada palavra, de cara carrancuda.

Manoel suspirou e saiu pela porta.

O velho primeiro colocou uma tigela em um ponto específico entre as árvores e a plantação de aipim. Depois, as próximas foram postas em outros locais que a experiência havia indicado que seria bom para atrair os bichos, como na entrada do galpão de ferramentas, ao lado da cerca e abaixo de algumas bergamoteiras. Toda a tarefa durou cerca de vinte minutos, uma vez que o pátio era grande e a navegação na noite era difícil.

Manoel se deu conta que não havia pego um copo, apesar de que seria difícil fazer isso na presença da esposa. E ele não era gambá, então não beberia direto da tigela. Então, sua única alternativa seria engolir a cachaça direto do bico da garrafa. E assim o fez. Seu corpo estremeceu ao receber o líquido e, por alguns instantes, sua mente ficou em branco.

Mesmo sendo um velho semianalfabeto, Manoel não era burro e sua criatividade era digna de nota. Unindo o pouco conhecimento teórico que tinha, e a sua capacidade de criar, ele pensou na assepsia do álcool. Os médicos usavam álcool para esterilizar os instrumentos que curam o corpo, enquanto todos os outros homens também usavam do álcool para esterilizar a mente. A diferença é que não existiam contraindicações em limpar em demasia qualquer objeto que irá cortar a carne ou furar a pele. Já a mente, se ficasse “limpa demais”, poderia ficar tão escorregadia que nada mais iria se aderir a ela, tornando a pessoa em idiota.

Talvez o cérebro do alcoólatra, ao invés de cheio de dobras, fosse uma bola de carne lisa.

Era o mesmo álcool, com um fim semelhante em ambos os casos, mas um dos usos era mais perigoso do que o outro. E mesmo assim, ele tomou mais alguns goles

Manoel fechou a garrafa e se pôs a marchar de volta para a casa. No momento que estava ao lado do galpão, um barulho chamou sua atenção. Veio de entre as árvores. Por um momento, ele pensou até que se tratava de um gambá que já havia desfrutado da cachaça. Mas não era isso. Ele ouviu de novo e o som era arrastado, pesado e seco, como se fosse alguma coisa muito maior e pesada.

“Alguém pulou a cerca”, o velho pensou enquanto pegava a primeira enxada que viu do lado de fora do galpão e caminhava em direção ao som das passadas. Ele poderia ser um homem idoso e doente, com o corpo maltratado pela vida de trabalho braçal, mas aquela não seria a primeira vez que ele daria uma enxadada em um vagabundo.

E poderia fazer isso o quanto fosse necessário.

Manoel chegou no local onde havia ouvido as passadas, mas não encontrou nenhum rastro ou sinal de que alguém havia passado por ali. Ele estava exatamente no meio do pátio, sendo que o vagabundo poderia ter ido tanto para os fundos quanto para a frente, em direção da casa. O velho cerrou os olhos por um momento e se concentrou nos sons até que conseguiu identificar um arrastar mais distante para os fundos da chácara. Assim ele seguiu com a passada mais rápida que podia dar.

Conforme se aproximava, lentamente, um odor pungente invadia o nariz avantajado do velho. Ele já havia sentido muitos cheiros ruins ao longo de sua vida, além de já ter matado muitos gambás, portanto não costumava se incomodar. Mas aquele não era normal. Lembrava um pouco o gambá, mas também misturava podridão com enxofre. Com certeza a origem do fedor estava nos fundos do pátio, entre as árvores, mas havia ficado tão forte que parecia vir de todos os lugares.

A mente de Manoel começou a procurar explicações. Só poderia ser algo que aconteceu mais para o final da tarde e começo da noite, pois havia passado por ali com o neto mais cedo e não sentiu nenhum cheiro ruim. Pensou que algum bicho poderia ter morrido, mas o odor era diferente de tudo que havia sentido. Era quase inexplicável. Além disso, não faria sentido, pois teria se passado muito pouco tempo até a putrefação.

Se orientando apenas pela luz da lua cheia e das estrelas, Manoel olhou ao redor várias vezes até que algo chamou sua atenção na esquina da cerca do pátio. Seus olhos só ousaram ver de relance, mas seus pés se aproximaram quase que por vontade própria. Ele notou que a pilastra que sustentava a grade parecia maior e mais grossa do que de costume. Conforme chegou mais perto, forçou o corpo a parar e um terror paralisante percorreu a espinha do velho.

Com a mão esquerda mesmo, ele fez o Sinal da Cruz e, sentindo que o coração poderia parar a qualquer momento, o velho começou a recuar ao perceber que era aquilo estava fedendo. Só que o que assustava não era isso, mas sim a quantidade anormal de chifres que aquela coisa ostentava – mas poderiam ser também dentes. O bicho, se é que poderia ser chamado disso, estava de pé em duas patas, mas sua postura normal era quadrupede. Poderia ser tanto simiesca quanto ruminante, ou algo além disso tudo.

Manoel correu na maior velocidade que pôde para casa. O pátio, que era grande, parecia milhares de vezes maior. Por sorte, não tropeçou em nenhuma raiz de árvore ou pedra.

Contudo, seu maior inimigo era seu próprio corpo. Seu fôlego faltou antes mesmo de chegar na metade do terreno e já havia se ido por completo ao atingir o galpão. Respirava pela boca e com enorme dificuldade. Seu fraco coração estava a ponto de parar a qualquer momento. A boca formigava e sequer sentia a ponta dos dedos. E mesmo com tudo isso, ele seguiu em frente e não desistiu.

Sua esposa estava longe de seus pensamentos. Nem mesmo seus filhos vieram às suas lembranças. Era Dimas, seu neto, que havia invadido sua mente. Manoel pensou que ninguém ali havia perdido a compostura para não chatear o menino que se divertia com o fim de semana. Não poderia ser ele, seu avô, que iria ter um treco ou ser comido por aquela coisa que iriam estragar o programa da criança.

Não havia a opção de falhar e, com esse pensamento em mente, ele conseguiu atingir a varanda da casa e abrir a porta com uma violência pouco condizente com sua força e energia.

Eugênia e dois de seus filhos estavam na sala no momento, enquanto assistiam a um programa de sábado à noite. Todos se levantaram das poltronas ao ver o velho ofegante, encharcado de suor e com uma enxada em mãos. Um dos homens colocou o pai para se sentar no sofá, mas Manoel ordenava para que trancassem todas as portas e janelas e pegassem seu revólver na pasta.

– Mas o que aconteceu, homem de Deus? – Eugênia perguntou com um nervosismo que não era comum.

– Um diabo pulou a cerca e está mijando no fundo do pátio – Manoel respondeu enquanto lutava contra a falta de ar.

– Alguém invadiu? Chama a polícia – disse um dos filhos.

– Não adianta, eles vão demorar muito para chegar. Tranca tudo e fica com o revólver pronto – ordenou Manoel com a voz fraca e com a respiração entrecortada.  

Todos os adultos da casa que estavam acordados checaram as portas e não conseguiram dormir até que a madrugada chegasse. Tentaram interrogar o velho mais algumas vezes, mas ele estava tão mal que decidiram não perguntar mais nada e deixa-lo descansar – não demorou muito para que ele pegasse no sono depois daquilo, mas ficaram vigilantes para caso ele passasse mal e precisasse ser socorrido.

Simplesmente interpretaram que algum bandido havia invadido o pátio e que o pai havia ordenado que todos ficassem prontos para caso ele tentasse entrar na casa.

Na manhã seguinte, com praticamente todos ainda acordados, com exceção de Manoel e Dimas, os adultos decidiram abrir as portas da casa e checar o pátio.

Eles encontraram uma garrafa de cachaça quase vazia na porta do galpão e mais algumas tigelas vazias ao longo do pátio. Ao retornarem, o velho já estava acordado, mas ainda deitado no sofá. Os filhos contaram o que viram.

– Não sentiram o cheiro ruim lá nos fundos?

– Cheiro ruim? – Perguntaram.

– Tinha um cheiro muito ruim onde aquele diabo estava mijando, bem na dobra da cerca.

– Não tinha cheiro ruim nenhum, pai – respondeu um dos filhos.

– O diabo deve ter tomado a cachaça e ido embora – Manoel disse mais para si mesmo do que para os presentes.

Após alguns instantes de silêncio, Eugênia soltou um rugido quase animalesco e atacou o rosto do marido com arranhões e tapas com ambas as mãos. Ela rosnava e urrava enquanto batia, até que a filha mais velha segurou as mãos dela e se pôs entre o casal. Manoel chegou a ter um corte leve na testa e olhava para a esposa com uma expressão interrogativa.

– O diabo aqui é tu que encheu a cara dizendo que ia dar para o gambá. Fez a gente ficar acordado a noite inteira, mas estava bêbado. Era tu que merecia levar de enxada na cara. Eu devia ter te dado um tiro enquanto tu dormia há muito tempo.

Manoel já passara por aquilo várias vezes antes e já nem ligava. Porém, ao olhar para o fundo da sala, percebeu que Dimas havia visto tudo e escondia a boca com as mãos enquanto os olhos se enchiam de lágrimas.

Pela primeira vez, desde que havia se casado aos 17 anos, Manoel pensou em acertar a enxada na cabeça de Eugênia. E a ferramenta estava ao alcance de sua velha mão, então seria muito fácil partir o crânio da esposa. Mas julgou que o neto já havia visto o suficiente.

Era hora de todos irem para casa.

Leia “Anos Inférteis”, disponível na Amazon.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *