Chegando atrasado na tendência de “filmes legado”, o novo “Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado” revive a franquia com medo do esquecimento e a dúvida entre o saudosismo e a inovação. A história é a que muitos já conhecem. Um grupo de amigos se envolve em um acidente na cidade de Southport, que causa a morte de um desconhecido. Um ano depois, o grupo retorna à cidade e passa a ser ameaçado e perseguido por um assassino que sabe sobre o acidente.
É difícil pensar no longa original de 1997 e não compará-lo com “Pânico”. Ambos lançados na mesma época e escritos por Kevin Williamson, porém apenas um virou uma franquia consolidada no terror. Apesar de ter seus tropeços, “Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado” ousou na época ao trazer um grupo de protagonistas que não eram inocentes. Todos tomaram decisões questionáveis e carregam essa culpa.
Agora, em 2025, o novo longa traz de volta essa essência, com pequenas diferenças. Dessa vez, não temos o tradicional grupo de jovens: os personagens já são adultos, mas não menos inconsequentes. Também o roteiro carrega um forte peso psicológico, expondo ainda mais traumas e como isso afeta cada pessoa.
De longe, a maior surpresa, e o grande ponto positivo desse filme, é a entrega do elenco. A nova protagonista, Ava, vivida por Chase Sui Wonders, parece desvirtuar tudo que se sabe sobre uma final girl. A personagem, ao invés de ser a típica virgem da história, encontra no sexo violento um tipo de punição pelo que aconteceu no passado.

Além dela, vale ressaltar Madelyn Cline como Danica, a típica menina rica que aqui é usada como alívio cômico, e Tyriq Withers interpretando Teddy, o atleta do grupo, que se afundou em bebida e não conseguiu sustentar o casamento com Danica. O resto do grupo é formado por Stevie e Milo, porém não é possível comentar muito sobre eles. Milo até demonstra uma dificuldade social após o acidente, e Stevie parece estar vivendo de aparências, mas nada é tão bem desenvolvido.
Uma das regras de filmes legado é trazer um novo elenco junto com o antigo, para contar uma nova história e ainda assim servir de continuação. Sendo assim, aqui temos Jennifer Love Hewitt e Freddy Prinze Jr reprisando seus papéis do filme original. E ainda uma surpreendente participação de Sarah Michelle Gellar, pois sua personagem morreu no longa de 1997.
O elenco original aqui é usado de maneira menos óbvia. Ao invés de servirem como livro-guia, expondo todos os pontos do roteiro, eles estão ali como um lembrete do tema central do longa: o passado não pode ser esquecido. Quase que quebrando a quarta parede, o personagem de Prinze Jr dá um discurso sobre esquecimento, falando da própria franquia, enterrada por continuações inferiores. Enquanto isso, a personagem de Hewitt parece alguém já de saco cheio, disposta a dar um ponto final em tudo o mais cedo possível.
Porém, isso não quer dizer que o longa consiga se desvirtuar das convenções de roteiro. Logo no início, temos uma personagem que tem um podcast sobre crimes reais, e os protagonistas literalmente escutam toda a premissa do longa original, fazendo dessa uma das cenas mais preguiçosas e expositivas que eu já vi.
A figura do assassino, armado com capa de chuva de pescador e um gancho na mão, também cai em alguns clichês. Ele soa aqui como uma presença onipresente, rendendo jumpscares criativos, mas menos coerentes. Além disso, ora ele parece invencível, mas quando convém se torna fraco como um humano comum. Além disso, me incomoda muito o longa resistir a uma modernização de sua fórmula, ao mesmo tempo que uma possível mudança temporal é citada ao longo do filme. A cidade sofreu consequências após o primeiro filme, afetando o mercado imobiliário e de turismo, então a polícia e a prefeitura atuaram para esconder o passado e revitalizar o local.
Essa questão de consequências em larga escala poderia ser a novidade que o filme traria para o slasher, mas ainda assim não é o que ocorre. A trama ainda está presa ao passado, com bilhetes misteriosos e mensagens escritas com sangue. Além disso, a presença da tecnologia é inexistente.
Em contrapartida, ao chegarmos no terceiro ato e na revelação final, ela se mostra ousada, sendo uma reviravolta que até mesmo a franquia “Pânico” flerta desde o quarto filme, mas até hoje não teve coragem de efetivar. Apesar de não ter nada de inovador aqui, especialmente no que diz respeito ao slasher, “Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado” se sustenta pela confirmação de como fazer um clássico slasher, com mortes inventivas e uma revelação marcante.
Muito incomoda a inconsistência. Não saber se quer ser moderno ou saudosista demonstra uma divisão clara de roteiro. Pelo menos, a direção de Jennifer Kaytin Robinson é inventiva ao tratar as cenas de morte como sequências de ação. “Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado”, de 2025, chegou atrasado e perdeu o timing. Tanto ninguém mais liga muito para remakes e reboots quanto tudo que é tipo de coisa já foi feita com isso. Não teria espaço para o medo de renovação — e foi isso que fizeram.
No mais, seja pelo tom mais leve ou pelas cenas menos violentas, o longa se sustenta como uma aventura de slasher clássica e passageira. Tirando a revelação final, acredito que pouco se faz aqui, e talvez acabe perdendo a luta pelo esquecimento.
