Como escritor, preciso admitir que minha mente trabalha muito mais do que minha pena. E não é por má vontade: têm momentos que escrever ou editar algum texto é impossível por diversos motivos – outras prioridades, cansaço e desânimo com a vida são os mais comuns. E por conta disso sei muito bem que existem algumas histórias nunca vão sair desse misterioso mundo de onde toda a ficção vem. E talvez isso seja bom.
Apesar disso, tem uma em particular que eu preciso dar uma breve contada. Nem que seja por aqui, em um texto mais rápido de escrever que muitas vezes vejo como um desabafo ou consolo por não conseguir me dedicar mais a literatura.
Vale destacar que meu estilo é bastante simbólico e até mesmo alegórico em alguns pontos. Talvez isso ocorra pelo fato de ter um pé no lirismo pelo meu gosto pela música. Portanto, apesar de preferir acreditar que toda a ficção vem de algum outro lugar que podemos acessar apenas em breves momentos, muitas vezes aleatórios (alguns poetas do passado chamavam isso de “musa inspiradora”; eu prefiro acreditar nisso porque é mais fácil do que tentar explicar a criatividade), ela sempre se vale da vida real, do que podemos experimentar nessa longa estrada. E foi assim que imaginei essa história.
Seria um livro curto que abordaria, de forma indigesta, a vida de uma jovem mulher, na casa dos seus 25 anos, que é amada simplesmente por ser existir. Ela tem vários homens na palma da mão, podendo escolher e descartar qualquer um quando quiser. Seu único “trabalho” é mostrar nas redes sociais a própria vida de luxo (mas não tanto, pois os seguidores precisam ter alguma identificação) e eventualmente ser remunerada por fazer algumas publicidades de produtos de beleza (que nem sempre se traduz em vendas reais para patrocinadores, uma vez que maior parte de seu público é masculino) e festas da cidade. Nem mesmo ela entende de onde vem tanta mordomia, já que não veio de uma família rica e talvez tenha apenas acertado os seis números da loteria genética.
Ela não é uma artista e tem consciência de que talvez não seja uma boa ideia tentar virar uma atriz ou cantora (no máximo modelo), uma vez que esses trabalhos seriam tão medíocres que revelariam que todos a amam sem que ela tivesse muita coisa a oferecer além d’ela mesma. E como ela sabe disso? Pois ela já tentou fazer isso e se espantou com o resultado asqueroso.
E o que ela poderia fazer a esse respeito então, visto que começou a tomar consciência de que sua beleza não é eterna? Todos continuariam a amando apenas por ser ela quando estivesse velha?
Esses pensamentos a consomem até que começa mergulhar em desespero e sua agonia a faz encontrar o livro “O Retrato de Dorian Gray”. Ela o lê em menos de dois dias, mesmo que nunca tenha lido qualquer outro livro antes na vida, e se sente encantada. Por consequência, ela também descobre semelhanças entre sua vida e a do escritor Oscar Wilde, uma vez que ele também era uma celebridade da época antes mesmo de ser um autor. Assim, ela decide ser uma escritora como seu “muso inspirador”.
Ela esboça seus primeiros rascunhos e publica em suas redes sociais. Ela pensa que teria algum retorno e alguns poucos que se preocuparam em ler percebem alguma predisposição (para não usar a palavra “talento”) para a escrita, mas a profundidade de seu conteúdo, como diria Joseph Conrad, “caberia em meia casca de noz”. E de forma irônica, seus textos mostraram para o seu público, indiretamente, esse fato: ela era uma pessoa vazia e seu “conteúdo” nada mais era do que ela mesma – como estava pensando que aconteceria caso virasse atriz ou cantora, mas não imaginou isso com a literatura, um tipo de arte que sempre pensou ser “superior e mística”, mesmo que nunca tivesse lido nada antes. Como consequência, as suas fotos passam a minguar, suas redes perdem alcance até que chega ao ponto de que sequer lembram de quem ela era.
O desfecho desse livro eu não conheço e talvez descobrisse caso resolvesse escrevê-lo. Mas não vou fazer isso. Acho que vou deixar para que alguma outra pessoa faça isso por mim. E assim como aquela velha relação de expectativa versus realidade, a ideia é sempre muito melhor do que o resultado final, concreto e palpável. Talvez seja por isso que eu opte por ser covarde e guardar muitas dessas histórias só para mim e permita que elas escapem por breves momentos, como neste.
