É muito engraçado como a expectativa pode afetar nossa experiência. A primeira vez que eu vi o trailer de “A hora do mal” nada me chamou a atenção, de fato parecia um longa genérico de assombração, daqueles que apelam para o contraste da inocência das crianças. Porém um roteiro afiado e uma narrativa criativa, fizeram da obra no mínimo interessante.
Na trama, 17 das 18 crianças da turma da quinta série da professora Justine, desapareceram. Todas saíram de suas casas na mesma hora e desapareceram nas sombras da madrugada. Começa então uma investigação para saber o que houve enquanto a opinião pública passa a desconfiar da professora.
A primeira grande surpresa do longa se refere justamente a essa sinopse. Tudo que é dito nela acontece nos primeiros cinco minutos do longa, com uma narração em off onde nos é apresentado o suspense e até mesmo o lado leve do longa, sendo até mesmo cômico. Esse início expositivo nos mostra a maior qualidade de “A hora do mal”, não é tanto o que é feito, mas sim como é feito.

Ao tirar essas informações inicias do caminho, o filme já começa no olho do furacão. Ao vermos pais e mídia caírem em cima de Justine, também vemos aos poucos o avanço do desenrolar do mistério, tudo isso somado com atuações primorosas.
Justine é interpretada por Julia Garner, que nos entrega uma atuação onde nada precisa ser dito, pois apenas com o olhar sabemos a situação da personagem. Além disso, Justine não é apenas uma vítima inocente, a personagem possui um passado obscuro, tem temperamento difícil e é teimosa, uma personagem com muitas facetas exige uma maestria maior de Garner. E tais personalidades servem para a trama, a teimosia de Justine por muitas vezes é o que movimenta a trama.
Além de Garner, temos Josh Brolin, vivendo um dos pais em busca de respostas. Benedict Wong, vivendo o diretor da escola, que busca seu papel nisso tudo. Alden Ehrenreich, interpretando um policial temperamental e despreparado, e Austin Abrams, como um viciado que entra na trama por acaso. Cada um desses personagens, trás uma crítica ao sistema e, subjetivamente, fases do luto. Fato que cada um contribui de formas diferentes para o entendimento do mistério, e a forma como o roteiro faz isso é outra surpresa do longa.
No início, o roteiro parece tentar nos enganar. Ele trás pequenos jump scaries e sequências de sonhos bizarras, mas logo após o primeiro ato já sabemos suas verdadeiras intenções. O longa na verdade é, um thriller psicológico, com forte foco na investigação e com inspiração em filmes noir, filmes antigos de detetives. Na narrativa, acompanhamos cada personagem no mesmo período de tempo, tendo assim diferentes pontos de vistas sobre o mistério. Sendo assim, algo que parecia demoníaco, um filme de assombração ou até mesmo alienígena, se torna uma quebra-cabeças macabro e violento na medida certa.

O diretor, Zach Cregger, sabe trabalhar muito bem tecnicamente, fazendo jogo de sombras e ângulos que brincam com a noção de perspectiva. Um grande destaque são as cenas de plano aberto com foco nas costas do personagem enquanto o ator está de frente na cena, fazendo a gente procurar elementos de perseguição ou coisas que podem estar ocorrendo no fundo.
E paralelo a isso, em meio ao suspense e uma ou outra cena violenta, Cregger ainda consegue nos trazer tons de humor. A parte leve do longa é um agradável contraste, que muitas vezes pode agregar, ou atrapalhar, o clima sombrio e denso de muitas cenas. Tanta desconstrução da expectativa pode transformar o longa numa salada de emoções. Por um lado é maravilhoso que não seja um filme genérico de assombração, mas por outro lado pode parecer que ele tenta fazer muitas coisas e entrega algo mediano.
Tirando certas partes do meio, o segmento do policial Paul parece arrastado e deslocado, que podem suar cansativas e não agradar muitas pessoas, eu acredito que o resultado é recompensador. O desfecho final cai para o lúdico total, numa catarse de tudo que o longa tem de melhor, com reviravoltas, sombrias e angustiantes. Gostando ou não, o desenrolar é original e mais corajoso do que parece.
