Meses atrás escrevi uma crônica falando sobre o fato de que a obra de Bukowski tem muito menos baixaria do que qualquer e-book dos mais vendidos da Amazon. O tempo passou e essa realidade não se alterou de maneira alguma. No entanto, após aquela publicação, algumas pessoas me mandaram mensagens falando a respeito dos “dark romance”. E pelo fato de ser um fã do subgênero de “dark fantasy”, esse termo chamou minha atenção e fui atrás para conhecer – genuinamente não sabia aonde estava me metendo.
Para contextualizar um pouco, dark romance é um subgênero da ficção romântica que reúne narrativas intensas e controversas, com personagens moralmente ambíguos, dinâmicas de poder desiguais, ambientes tóxicos, trauma e temas tabus como stalking, sequestro e consentimento duvidoso, mas ainda assim geralmente culmina em um desfecho (pelo menos parcial) considerado feliz ou reparador. Desde 2021, essa estética tem explodido no TikTok através da comunidade BookTok, com hashtags como #darkromancebooktok e #darkromancereads, cujos vídeos acumulam bilhões de visualizações e catapultam títulos às listas de mais vendidos. Essa força viral fez com que editoras adaptassem suas campanhas de marketing para o gênero e lançou autores de Dark Romance ao primeiro plano. Apesar disso, o movimento também gerou debates sobre a normalização de relações abusivas. Por fim, domina hoje o imaginário do romance literário atual com impacto editorial real e discussões sobre consentimento, trauma, erotismo e poder.
Vale dizer uma coisa aqui: eu não consegui terminar de ler nenhum dos livros do gênero que comecei. Primeiro que simplesmente não faz o meu gosto. E se fosse só isso, eu sequer estaria perdendo meu tempo escrevendo isso aqui. Mas o que está em jogo aqui, me parece, é uma nova fase dos frequentes “delírios literários” que já vimos diversas vezes ao longo da história. Todos foram prejudiciais em alguma medida, mas agora talvez estejamos presenciando um pernicioso novo capítulo.
Antes de começarmos, é importante ressaltar uma coisa aqui: por mais que tenha um discurso de que se deve “ler de tudo” ou que “toda leitura é válida”, a grande verdade é o oposto disso. Entre ter que ler apenas livros ruins ou ler livro nenhum, é mais válida a segunda opção. A maior parte da história da humanidade não se teve livros e, bem ou mal, chegamos até aqui. Mas por mais que grandes livros possam transformar vidas e mudar o rumo de povos e nações, isso também pode acontecer para o mal. Basta ver o exemplo do século XX, com ideologias que deram origem à regimes totalitários, como nazismo e comunismo, surgindo justamente de uma tóxica tradição literária e erudita. Então, para que uma leitura seja válida, ela precisa ser boa e construtiva. A “desconstrutiva” ou “degradante” só tem um mínimo de sentido quando traz algum tipo de advertência ou quando se pode ser colocada em comparação com outras obras de maior valor. Guarde bem essa parte, pois ela vai ser importante daqui a pouco.
Dito isso, é importante notar o quanto uma leitura mexe com o psicológico de uma pessoa, tanto para o bem quanto para o mal. Sua percepção de mundo acaba sendo alterada aos poucos com essa experiência, principalmente se ela for constante. É evidente que a mera leitura não basta, pois as experiências reais e uma reflexão própria precisam entrar nessa equação. Nisso que muitas pessoas acabam pecando, principalmente quando apenas entram no mundo dos livros e se acham “superiores” por isso – acontece bastante. Esse fenômeno já foi registrado na história e também foi retratado na própria literatura.
Um dos exemplos concretos mais marcantes foi no famoso “Efeito Werther” que acometeu vários jovens com desilusões amorosas que replicaram o trágico suicídio do personagem de Goethe. Esse caso foi tão sério que acabou criando um tabu na imprensa ao falar a respeito de nortes auto infligidas. Hoje em dia temos procedimentos diferentes ao noticiar esse tipo de tragédia, mas ainda assim é algo delicado e que foi descoberto por causa dessa relação entre literatura e realidade. Quer dizer: não são todos os jovens que tiveram uma desilusão amorosa e que leram “Os Sofrimentos do Jovem Werther” que irão tirar a própria vida, mas talvez seja a “faísca” faltante para a explodir esse barril de pólvora pelo fato de alguns jovens não terem muita maturidade.
Já na literatura, essa relação foi retratada em momentos muito emblemáticos, como em “Dom Quixote”, quando Miguel de Cervantes faz quase uma paródia aos romances de cavalaria e aos seus leitores. Isso mostra que, já naquela época, era possível ver o quanto literatura rasa e leitores imaturos são uma combinação perigosa. Algum tempo depois, Flaubert faria uma análise semelhante em “Madame Bovary”. Apesar de que aqui sua crítica vai mais à classe burguesa da época, não dá para ignorar o fato de que a protagonista do livro não tirou suas ideias “românticas” do mais absoluto nada. E o resto é história.
Dessa forma, se existe esse aspecto ambíguo da literatura na vida das pessoas (especialmente as imaturas), o que poderíamos imaginar do contexto atual da “viralização” dos “dark romance” em aplicativos tão rasos quanto TikTok? O fato é que esse tipo de literatura não traz nenhum tipo de advertência a uma relação abusiva e até mesmo perigosa. Pelo contrário: na maioria das vezes, recompensa isso. Essas histórias alimentam uma fantasia feminina ingênua de que é possível “domesticar uma besta”. Em outras palavras, transformar um homem perigoso e mau em alguém bom. E por mais que todos estejam sujeitos a uma espécie de “redenção”, na prática, isso é muito difícil de acontecer e pode gerar riscos desnecessários para a própria mulher.
Outro ponto importante de se analisar é o fato de tais obras brincarem muito bem com as armadilhas da semiótica, que infelizmente nós, seres humanos, acabamos sofrendo sempre. Para entender isso, é só lembrar que se um pedreiro ou mecânico soltar uma cantada para uma mulher, é assédio, mas se for um empresário rico (ou mafioso, traficante ou assassino) e bonitão é simplesmente atitude. Nós tendemos a aceitar atitudes questionáveis de pessoas belas e poderosas porque nosso cérebro não consegue desassociar essas coisas na maioria das vezes. E isso não se limita apenas a mulheres: já vi muitos homens aceitando atitudes deploráveis de mulheres bonitas só por que… elas eram bonitas.
“Ah, mas isso é ficção, não é realidade.” E eu concordo com isso. Não digo aqui que as leitoras de “dark romance” vão imediatamente procurar um relacionamento abusivo com um criminoso de forma deliberada, mas elas podem acabar se tornando mais vulneráveis a esse tipo de situação tóxica. E isso acontece por diversos motivos, como o próprio fato de a literatura ser uma espécie de mídia mais profunda e intimista, que mexe mais com a psique da pessoa. Se esse tipo de conteúdo for sendo reforçado e reforçado diversas vezes, vai chegar um ponto que será “normal” ver atitudes questionáveis de parceiros como algo romântico ou até mesmo sensual e erótico – principalmente, mais uma vez, se for uma leitora ingênua e imatura, o que parece ser a maioria.
E o que reforça esse risco é justamente o fato de esse tipo de literatura ser divulgada em plataformas como o TikTok, que costuma reforçar uma espécie de “conteúdo imbecilizante e viral”. Já seria ruim esses brainrot normalmente, então imagine quando está plantando uma semente que eventualmente desabrochará em algo ainda mais questionável?
Chega a ser irônico que nos últimos anos tenha se disseminado um discurso progressista e feminista de defesa das mulheres, mas em paralelo a isso, tenha se surgido esse tipo de literatura que explora esse lado mais tóxico do desejo feminino. Lembro bem de uma vez que estava comentando sobre isso com um amigo: quando homens fantasiam com uma mulher, é sempre com a colega, com a vizinha ou caixa do supermercado, mas mulheres fantasiam sempre com o empresário, herdeiro, jogador de futebol, etc.
É difícil atender às expectativas femininas e o discurso de que “merecem o melhor” não cita a parte do “melhor dentro das possibilidades”. E agora, com a consolidação do dark romance, fica ainda mais difícil atender essas expectativas, principalmente pelo fato de que a maioria não é rico e existe um Código Penal que precisamos seguir à risca.
