“Juntos”, o amor transforma a carne

É inegável que estamos vivendo uma tendência do body horror. Filmes de terror focados na violência gráfica e alteração corporal ganharam mais espaço apoio sucessos de “A Substância”. Talvez por conta disso que um longa como “Juntos” chega aos cinemas. Com uma trama que usa do terror para contar uma história sobre relacionamento, seu estranhismo nos propõe uma experiência nova para o grande público, para o bem ou para o mal.

Na trama, acompanhamos um casal, Tim e Millie, que se mudam para uma casa no interior e, ao fazerem uma trilha, caem em uma caverna pertencente a um culto antigo. Após beberem a água do local, coisas bizarras começam a acontecer. Como todo body horror minimamente decente, “Juntos” se utiliza da violência não apenas para o terror, mas também para explorar seu tema central. Sabendo o que acontece, até por conta dos materiais de divulgação, é fácil saber que o tema aqui é dependência emocional.

Tendo esse tópico como pano de fundo, o roteiro tem seus altos e baixos. Em certos momentos ele não é apenas expositivo mas também repetitivo, ao querer estabelecer desde o inicio a dinâmica do relacionamento aqui, ele afirma e reafirma várias vezes a posição de cada membro do casal.

Tim é o acomodado, preso no sonho de adolescência de ser um astro do rock, tem sua carreira profissional estagnada e as linhas de diálogo afirmam o fato de ele não ter carteira de motorista para mostrar que, sem Millie, ele não vai a lugar nenhum. Já Millie é a madura da relação. Eles se mudam por conta do emprego novo dela, ela acaba por tomar as decisões e por ser essa figura da pessoa mais centrada ela é a mais cética. Além dessa dinâmica ser falada muitas vezes no inicio do longa, como se já não estivesse clara o suficiente, é Tim que sente os primeiros sintomas de se ligar a Millie. Inclusive tendo crises de ansiedade quando esta longe dela, agindo como se fosse um perseguidor maluco.

Apesar dessa parte ser expositiva, inclusive tudo que envolve o a gente causador da dor é muito simplório, ao ponto de parecer bobo. Por outro lado, a noção de dependência é muito bem trabalhada e entendida por parte do roteiro. Eu, sinceramente, fui pego de surpresa. Pois esperava que os personagens estivessem em outro momento do seu relacionamento. Quando se pensa em dependência, ou casais grudentos, se espera uma relação no seu melhor momento, onde a necessidade de estar junto vem da força do sentimento. O que acontece é o contrário.

Aos poucos, entre discussões e pequenas ações, nos é revelado que a dependência vem, justamente, do pior momento da relação. Aquela fase onde nada está bom, existe coisas erradas, mas, por um conforto, por necessidade ou por carência, não consegue sair de tal relação. Esses momentos são o ponto alto do longa. quando o carisma dos atores Dave Franco e Alisson Brie são o destaque. Conhecidos por comédias como, “Vizinhos” e “Community” e casados na vida real, a química entre os dois e a veia cômica ajudam a superar os momentos de pouca inspiração do roteiro.

A eficiência da dupla, inclusive nas cenas de dor e contorcionismo, se alinham com a direção de Michael Shanks. Shanks estava determinado a mostrar tudo que sabe fazer com o terror nesse filme. Não se contentando apenas com o body horror, Shanks cria cenas que flertam com terror sobrenatural e o suspense, além dos momentos mais cômicos, mostrando equilíbrio do tom. Além disso, parte da agonia vem dos pequenos detalhes, ossos partindo, pele esticando, audição e visão se perdendo. Sajnks com essas cenas faz de “Juntos” uma experiência sensorial agonizante e marcante.

Então, o longa faz muitas coisas, domina tons, temas e o suspense, mas ironicamente seu foco deixa a desejar. O body horror, por mais que presente, parece estar tímido. Temos aqui toda a violência e transformação corporal, mas seu processo é, apesar de doloroso, limpo e pouco inspirado. Temos aqui um monstro tal qual o final de “A Substância”, mas não acompanhamos seu processo de transformação, apenas sua bizarra aparência.

Até parece que a produtora Neon, deu uma pisada no freio não  acreditando na tolerância do grande público ao body horror. Algo que não vai ser o principal foco da discussão do longa, tendo em visita o final água com açúcar que temos aqui. Por vezes o roteiro também exagero na simplicidade. Sendo expositivo e direto demais, acaba sendo meio bobo em certas partes, assim como é ao explorar a importância do sexo na relação.

É dito que já faz tempo que os dois não transam, quando acontece é prazeroso, passa, e vira doloroso. É uma conclusão mas muito simplória e sem mais nada a dizer. Nem parece ser o mesmo filme que tem uma visão crítica, criativa e inovadora sobre o que é um relacionamento com traumas. Apesar de muitas discussões e alguns deslizes. “Juntos” ainda acerta em cheio em ser uma experiência sensorial, nem tão gráfica, mas que levanta discussões sobre dependência e apoio emocional.

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