Um rabbit hole literário chamado “Imagens Estranhas”

Quem está na internet há alguns anos com certeza já se deparou com vários mistérios que apenas o digital consegue proporcionar. Esses mesmos segredos podem vir de várias formas. Às vezes pode ser um site ou blog peculiar, uma conta nas redes sociais que publica conteúdo estranho ou uma série de acontecimentos interligados sem muita explicação. Não raro, também, nos deparamos com alguma coisa em nossa timeline que pode soar inocente ou banal, mas que, por detrás, esconde um segredo terrível. Aliás, alguns chamariam isso de “rabbit hole”, o que não estaria errado de forma alguma.

Aliado a tudo isso, é importante lembrar sempre que a internet é feita por seres humanos. Até mesmo o tão falado “algoritmo”, que adotou um aspecto quase místico no debate público, como se fosse uma espécie de entidade superior, também foi programado por uma equipe de profissionais com objetivos claros em mente. E, dentro de tudo que engloba o “ser” humano, temos desde as mais belas virtudes até o mais terrível dos pecados, além das tragédias e comédias.

Dito tudo isso, o que pensar de uma história que mescla tudo isso? Pois é isso que “Imagens Estranhas”, do escritor japonês Uketsu, se propõe. Tudo se inicia com um blog pessoal enigmático que data dos anos 2000. O que parecia ser algo banal e comum, de um homem narrando sua vida familiar, escondia uma história trágica, marcada por diversos crimes que datam de décadas. E descobrir o que há por detrás dessa narrativa não é apenas uma experiência imaginativa, mas também visual. Assim como o título entrega, esta é uma obra que usa de forma magistral as ilustrações e desenhos para ajudar a compor um mistério. Aliás, vale dizer que essa combinação, apesar de ser tão velha quanto a própria literatura, raramente costuma funcionar como uma experiência multimídia real. Mas o misterioso autor conseguiu essa façanha.

Outrora disse, em um comentário, que não conseguia analisar qualquer obra de que tivesse gostado demais por correr o risco de parecer “muito parcial”. Porém, existem outras peças de mídia (sejam livros, filmes, animes ou qualquer outra) que nós gostaríamos de compartilhar aquele sentimento que nos foi proporcionado. Em muitos momentos, eu quase esqueci que não estava lendo apenas por prazer, mas também por trabalho. E isso já demonstra que não estamos falando de pouca coisa. Tenho completa consciência do risco que estou correndo ao analisar “Imagens Estranhas”, pois esse é um dos melhores livros de mistério que já li. Além do mais, é difícil fazer qualquer crítica a este livro sem estragar a experiência de quem vai ler. E o que dá um “sabor a mais” a isso tudo é o aspecto quase mitológico que o autor, Uketsu, coloca em sua própria imagem, como um bom marketeiro que demonstra ser.

Contexto

Imagens Estranhas, do misterioso escritor japonês Uketsu, é um suspense macabro lançado no Japão em outubro de 2022 (título original: Hen na e) e publicado no Brasil em 2025 pela editora Suma. A trama se desenrola em torno de uma série de desenhos perturbadores, feitos por uma gestante, por uma criança retratando sua casa e até por uma vítima assassinada em seus últimos momentos, que atuam como pistas para desvendar um mistério sombrio. Ao longo de quatro partes interligadas, Uketsu convida o leitor a montar esse quebra-cabeça visual e narrativo que se entrelaça em uma teia de mistérios, onde o trivial assume matizes sombrios.

Uketsu é um fenômeno literário mascarado. Ele combina as funções de web writer e YouTuber, com milhões de seguidores no Japão. Sempre aparece publicamente trajando uma máscara branca e roupas pretas, com voz distorcida digitalmente, reforçando sua aura de enigma. Sua obra mescla imagem e texto de forma inovadora, fazendo o leitor se sentir um investigador diante de “imagens estranhas” que escondem respostas e pistas que se conectam em um todo sombrio. Contudo, apesar de funcionar como uma forma de marketing literário bastante eficaz, a nova safra de ficcionistas japoneses tem preferido o anonimato, assinando suas obras com pseudônimos, tal como Uketsu. Portanto, por mais que seja um caso bem específico, a prática não chega a ser surpreendente quando analisado em um contexto mais amplo. De qualquer forma, ser um “famoso anônimo” e ainda conseguir usar isso para vender é algo digno de nota. Mas, como demonstrado em “Imagens Estranhas”, Uketsu não é apenas bom em marketing.

Desenhos infantis podem ser sinistros

Este é um livro, como já dito, que não se apoia apenas no texto para que funcione, mas também nas imagens e ilustrações. E não são apenas as imagens necessárias para a história, como os desenhos feitos por alguns dos personagens centrais, mas também algumas imagens de apoio para que o leitor possa ver, literalmente, o que está sendo descrito. Isso tem uma dupla vantagem: economiza muitas páginas de descrições que poderiam ser gastas e também evita qualquer tipo de mal-entendido sobre o que se quer transmitir. E vale dizer que isso, em uma história de mistério, costuma ser bastante comum.

Por outro lado, alguns leitores e escritores mais conservadores podem acabar ficando incomodados com essa abordagem, chamando-a de “trapaceira” ou demonstrando algum tipo de deficiência na capacidade descritiva do autor. Entendo tais pontos de vista, mas, no caso de “Imagens Estranhas”, é bom dar um desconto. Primeiro, porque este é um livro que tem como proposta justamente o auxílio de imagens e não funcionaria sem elas. E, segundo, porque o resultado final é tão bom e inédito que dá para ignorar esses elementos.

Vale dizer também que tais imagens não são, necessariamente, “assustadoras” em si. Em muitos momentos, tratam-se de meros desenhos infantis, aparentemente sem qualquer significado maior, ou então pequenas peças de arte igualmente inofensivas.

Contudo, o prólogo da história, que é uma palestra de uma psicóloga mostrando o desenho de uma menina que havia matado a própria mãe durante uma apresentação, já nos dá um indicativo de onde iremos caminhar. Um fato curioso também é que esse início conversa com o fim de uma forma bem interessante: o ceticismo com relação à interpretação de tais desenhos. Quer dizer, se uma psicóloga poderia tirar determinadas conclusões com base em um desenho, outra poderia deduzir coisas diferentes. No final, essa mesma profissional se pega olhando a mesma imagem, décadas depois, e percebe o quanto havia errado sobre o caráter de sua paciente mirim. É como se Uketsu estivesse nos dizendo algo como: “as aparências enganam”. Em todos os sentidos.

O fato é que, neste livro, vamos encontrar uma verdadeira experiência multimídia. Quer dizer: os desenhos e ilustrações não bastam para contar a história, assim como o texto, por si só, dificultaria a execução da mesma. Dessa forma, dependemos das duas formas de mídia para podermos aproveitar a história como um todo. E devemos ser sinceros ao dizer que não é apenas este o diferencial de “Imagens Estranhas”.

Um rabbit hole narrativo

Antes de mais nada, um aviso: este não é um livro que possui um protagonista. Caso o leitor acredite que o primeiro personagem apresentado será o que conduzirá a história, lamento dizer que o buraco é mais fundo. Na verdade, só teremos notícias desse mesmo personagem novamente nas últimas páginas do livro e em circunstâncias bem inusitadas.

O livro é dividido em quatro partes (cinco se contarmos o prólogo) e cada parte contará um “pedaço isolado” da história. Não raro, o leitor pode se pegar pensando algo como: “mas aonde esse livro quer chegar?” E é essa forma fragmentada de narrar que torna “Imagens Estranhas” tão diferente, apesar de não ser algo exatamente “novo”. Muitos autores escondem as ideias clichês de suas narrativas através de uma forma inusitada de contar tudo, mas, ainda assim, têm uma trama já repetida à exaustão. Mas aqui, Uketsu não apenas tem uma forma diferente de narrar, como também traz uma trama ligeiramente mais incomum do que estamos acostumados. Quer dizer: se precisasse resumir, eu diria que este é um livro sobre traumas familiares não superados, narcisismo e tragédias. Porém, a complexidade dos personagens é o que o torna tão único.

Outro ponto importante a se destacar aqui é que toda a história, e a forma como ela é contada, nos remete muito a um “mistério de internet”. Em muitos momentos, não parece que estamos lendo um livro, mas sim juntando as peças de um mosaico digital – ou, como dito no início, um “rabbit hole”. E quem já acompanhou alguns dos casos mais intrigantes da web vai sentir certo “quentinho no peito” ao acompanhar “Imagens Estranhas”.

Mas é importante ressaltar mais uma coisa aqui: apesar de ser uma obra incomum em todos os sentidos, ainda assim “Imagens Estranhas” tem alguns pequenos clichês das histórias de detetive. O maior deles é que os personagens que estão investigando a história são, de certa forma, um pouco “lerdos” para pensar em algumas coisas e, no fim das contas, sempre precisam da “ajuda” de outro personagem, quase como se fosse alguém “soprando a cola”. Ou então, quase que em um passe de mágica, acontece alguma coisa na narrativa que os faz ter o conveniente insight que os ajuda a voltar ao caminho certo. Outro fator bastante conhecido é o tradicional “apontar para uma direção, correr para outra”. Quando passados dois terços da leitura, tudo nos leva a pensar que a grande culpada é determinada personagem, mas logo em seguida é revelado que a assassina é outra, que estava bem debaixo do nariz de todo mundo. Olhando em retrospecto, fica evidente quem era, mas, durante o decorrer da leitura, isso não é tão claro. Além disso, a forma como alguns dos mistérios são revelados é, no mínimo, “brusca” demais, como se o autor não estivesse mais aguentando segurar um segredo.

No fim, devido à forma como a narrativa é construída, não conseguimos sentir qualquer tipo de “ódio” genuíno pela causadora de toda a tragédia familiar, pois ela mesma era (até certo ponto) vítima das circunstâncias. Além disso, ela demonstra algum arrependimento e autoanálise ao reconhecer que, apesar de ter cometido assassinatos para proteger seu filho e a si mesma, no fim sempre teve um “ímpeto violento” e sua última morte foi por mero egoísmo. Mesmo que seja traiçoeira, também parece vulnerável e tão vítima quanto as suas próprias, o que a torna uma personagem trágica.

Mas, além de personagens falhos, também encontramos grandes exemplos de virtude e honra. Desde um jovem aspirante a jornalista com uma dívida para com seu antigo professor, um encarregado determinado a trazer justiça para seu subordinado assassinado (e que depois decide viver para criar uma criança desamparada) e até mesmo um pai e marido amoroso e dedicado à família. Até mesmo uma das vítimas, que, apesar de ter suas falhas de caráter, não era uma pessoa ruim. O fim agridoce da história também nos demonstra exatamente isso: mesmo com as tragédias, é possível encontrar momentos de alegria que nos fazem seguir adiante. Além disso, nossa vida nunca é “só nossa” e devemos viver também por aqueles que amamos. “Imagens Estranhas” não tem apenas uma história de terror e mistério.

Talvez o grande terror deste livro não esteja em sua história, mas sim em sua premissa para fora do universo da obra. Isto é: quantas coisas que se veem na internet, que achamos inocentes ou banais, escondem algo sinistro ou trágico por detrás? Uketsu brinca muito com essa ideia e deixa essa mensagem transparecer nas entrelinhas.

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