Explorando gêneros: a genialidade do body horror

Diferente do que se possa imaginar, o terror é um gênero composto por diversos elementos. Esses elementos formam o que chamamos de subgêneros. Talvez você goste de vários, ou apenas de um tipo de terror. Mas hoje, vamos explorar suas diferenças, entender como funcionam e conhecer seus principais aspectos. Hoje, exploraremos um gênero tão antigo quanto o cinema, que foi se aprimorando com o tempo ao ganhar novas camadas. Os filmes de body horror vão além de apenas a violência gráfica e podem ser muito mais profundos do que parecem.

A ideia central do gênero é usar violência gráfica em alteração corporal e perda do controle do corpo como fonte do terror. Isso, casado com o ótimo trabalho técnico de maquiagem e som que acompanhou o gênero o torna grotesco e incômodo de assistir, fazendo da aflição sua maior arma. Apesar de ser consolidado no cinema nos anos 1970 e 1980, suas raízes são bem mais antigas. Em 1818 Mary Shelley lançou “Frankenstein”, a obra literária já flertava com o conceito de medo em uma ciência que alterava o corpo humano. Além disso, Edgar Allan Poe, H.P. Lovecraft e Kafka, já abordavam temas como decadência, mutação e metamorfose física e existencial, sendo potenciais influências do body horror.

Já no cinema, tudo começa a partir de 1931, com várias versões de “O médico e o monstro”. E após, em 1951 com a primeira versão de “O enigma de outro mundo”. Como o body horror é um gênero visualmente impactante, é fácil ficar somente na superfície, ou achar violento demais ou artificial demais, então vamos partir logo para os elementos que fazem dele um gênero tão interessante.

Claro, a violência faz parte e o método de transformação corporal é o que dá nome ao gênero, mas ele não se sustenta apenas nisso. Além da repulsa, o body horror tem um medo existencial ligado à carne, à identidade, ao que nos torna humanos e a ideia do corpo trair a mente.

Tendo isso em mente, um nome importante para o gênero, ainda nos anos 1970 é David Cronenberg. Seus filmes partiam da ideia de falar sobre doenças, parasitismo, desejo sexual e repulsa corporal. Um marco em toda sua cinebiografia foi “A mosca” de 1986.

Na trama do longa, um cientista se funde acidentalmente com uma mosca ao testar um teletransportador. Conforme seu corpo vai mudando, o protagonista passa por mudanças de personalidade, até perceber que, apesar de grotesco, seu estado atual seria um passo evolutivo. Além da maestria técnica, maquiagem e efeitos práticos, a trama trás temas sobre mortalidade, doenças, medo da velhice e perda da identidade.

Outros nomes que vale a pena citar é o de John Carpenter com sua versão de “O enigma de outro mundo” de 1982. Aqui usando uma invasão alienígena para falar da perda de identidade, paranoia e desumanização.

E também do japonês Shinya Tsukamoto, diretor de “Tetsuo: iron man”. Aqui, Tsukamoto usa da trama de um homem se transformando aos poucos em uma criatura metálica para falar sobre, industrialização, alienação, e medo do avanço tecnológico. Algo que poderia ser trabalhado hoje em dia, implementando a dependência da tecnologia.

Com o passar dos anos, o body horror pode até ter ficado menos popular, mas nunca foi suavizado. Sendo assim a violência gráfica se manteve, mas os temas trabalhados se atualizaram. Hoje em dia, o body horror contemporâneo é muito mais intimista e trabalha o psicológico acima de tudo enquanto fala sobre estética, disforia de gêneros e doença mental.

Um exemplo disso é o longa francês de 2021 “Titane” de Julia Ducournau. Aqui, após um acidente, uma mulher vive com uma placa de metal na cabeça e começa a se sentir atraída por carros. Docournau aproveita a premissa bizarra e a usa para falar de gêneros, automutilação e até mesmo, paternidade.

Além disso, em 2024 tivemos “A Substância” de Coralie Fargeat,  onde é falado sobre padrões de beleza e sobre a indústria cinematográfica. Apenas um ano depois foi lançado “The Ugly Stepsister”, também criticando os padrões de beleza e até onde a pessoa vai para se encaixar no que é considerado aceitável. Ainda em 2025, temos o longa “Juntos”, que promete falar sobre dependência emocional ao mostrar um casal que os poucos estão se fundindo.

Tudo isso me leva a crer que o body horror está mais vivo do que nunca, mas diferente. Em 2024, “A Substância” conseguiu expressivas indicações ao Oscar, incluindo de melhor filme, além de ter ganho o prêmio em Cannes por seu roteiro. “The ugly stepsister” foi reconhecido ainda em 2025 em festivais de cinema pela Europa e pela Ásia antes de sua estreia.

Podemos ter um indicativo que o body horror esta se sofisticando. Com tantas camadas exploradas e críticas afiadas, o gênero pode ganhar o status de cult por parte do lado mais elitista da indústria, e após o grande feito de “A Substância” no Oscar, é possível vermos cada vez mais filmes assim buscando validadores em festivais pelo mundo. Com tudo estabelecido a nossa linha do tempo do body horror fica assim: “A mosca”, “O enigma de outro mundo” e “Tetsuo”. Origem do gênero, paranoia, doenças e perda da identidade.

Após um hiato nos anos 1990, pode pular para os mais modernos com, “Titane”, “A Substância” e “The ugly stepsister” explorando o psicológico, a aceitação e a degradação externa representando o desgaste mental. Por muitas décadas tendências vem e vão, mas algo sempre certo é que, encarar a realidade é para quem tem estômago forte. Não se contente com a superfície: mergulhe no body horror.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *