“Dora”: uma joia escondida nas HQs brasileiras

Existe uma verdade à qual poucas pessoas prestam atenção: no Brasil, temos quadrinistas cujo talento costuma impressionar. Porém, por algum motivo, o grosso da população costuma pensar que “gibi é coisa de criança”. Só que isso, que era para ser uma espécie de menosprezo para quem faz e lê HQs, acaba sendo um elogio. Se eu fosse um quadrinista, ficaria lisonjeado de ser comparado ao mestre Mauricio de Sousa. Enfim, o fato é que esse preconceito para com as histórias em quadrinhos acaba ofuscando muito o quanto temos artistas excelentes nessa seara.

Nessa safra de quadrinistas de grande qualidade, uma que merece destaque aqui é Bianca Pinheiro. Apesar de a própria admitir que não é uma grande consumidora de histórias de terror, ela acabou produzindo uma das mais interessantes que as terras tupiniquins já viram. E, antes que alguém diga: sim, “Dora” (2016) é uma narrativa um tanto clichê para quem já leu ou assistiu a obras de terror. Porém, esse é um clichê gostoso de acompanhar e que, apesar de simples, também revela camadas de complexidade que nem sempre se encontram em uma história do tipo. Fico me questionando: se a autora não é tão fã do gênero e já fez uma HQ dessas, imagine se gostasse.

Contexto

“Dora”, escrita e ilustrada por Bianca Pinheiro, foi originalmente publicada de forma independente em 2014, por meio de financiamento coletivo, e relançada em 2016 pela Editora Mino. A trama acompanha uma mãe sendo interrogada por um detetive sobre sua filha, Dora, acusada de 15 mortes, enquanto a narrativa se desdobra em flashbacks que revelam os incidentes misteriosos ao redor da menina ao longo de sua infância.

Dora, que nasceu diferente (não chorava nem falava), viveu isolada e causou estranheza por onde passou. Com traços sóbrios em preto e branco e um clima denso de suspense psicológico, Bianca utiliza imagens minimalistas e silenciosas para amplificar o desconforto e a ambiguidade moral da história, deixando o leitor sempre na tênue linha entre inocência e culpa.

Nenhuma resposta, muitas perguntas

A história tem um ritmo bom ao misturar passado e presente, durante o depoimento da mãe, e os fatos que aconteceram na vida dela e de Dora. Um detalhe curioso é que, talvez por decisão artística ou por mau planejamento dos quadros, o passado e o presente se misturam na mesma página, sendo que, na metade dela, ocorre a transição entre as bordas brancas e pretas. Não atrapalha a experiência, e a leitura é bem fluida, mas é um detalhe a se observar.

E, caso o leitor ache que vai terminar de ler “Dora” e encontrar alguma resposta, lamento dizer que isso não acontece. A história não entrega nenhum tipo de resposta com relação a Dora, mas algumas pequenas especulações podem ser feitas. O estilo de traço da autora é curioso, sendo bastante estilizado em algo mais cartum, mas, ao mesmo tempo, com destaque para as expressões faciais – até mesmo de Dora, quando resolve fazer algumas. Até a forma como a protagonista é desenhada mostra um aspecto quase alienígena, com uma cabeça oval, olhos semicerrados e sobrancelhas curtas. Dessa forma, daria para interpretar tanto que Dora é uma espécie de bruxa ou demônio, quanto um alienígena. Pessoalmente, eu gosto de pensar nessa última alternativa, mas nenhuma resposta é dada. Além disso, existem algumas especulações que podem ser feitas com relação ao pai da menina, sendo que a mãe é bem evasiva quando a conversa com o detetive chega nesse assunto.

E, por falar na mãe, em nenhum momento é citado o emprego dela, mas ela nunca demonstrou ter qualquer problema com dinheiro. Aparentemente, ela podia matricular a filha em escola com piscina e teve condições de comprar uma cabana isolada aparentemente sem muitas dificuldades. Além disso, o próprio fato de terem morado em um condomínio de “boa gente” indica que elas tinham boas condições financeiras. Só que não dá para ter total certeza nem mesmo se a história se passa no Brasil, então existem lacunas que podem ser interpretadas da forma que melhor se encaixar.

Mas, falando novamente da mãe de Dora, é importante destacar que, apesar de realista, o aspecto obstinado dela de defender a filha até o fim é irritante. Só que esse incômodo vem não por conta da defesa em si, mas sim pelo fato de a mulher negar os fatos mesmo quando eles estão escancarados à sua frente. Além disso, a história é narrada por alguém parcial, tentando omitir a dura verdade. Contudo, mesmo assim, temos acesso a algumas “fagulhas” dos fatos verídicos através dos flashbacks, então sabemos que Dora tem poderes e é uma pessoa não só estranha, mas também maligna em certa medida – infelizmente, não dá para passar pano para algumas das atitudes da menina. Isso tudo faz com que a mãe seja uma personagem intragável em suas atitudes, apesar de termos dúvidas se ela acredita realmente na inocência da filha ou se é apenas uma negação da realidade.

Uma coisa dúbia com relação a Dora e sua mãe é se a menina se importa com a mulher de alguma forma ou se a preza por necessidade. Essa dúvida surge quando, em dado momento, a mãe de Dora tem uma briga com uma vizinha que a quer longe da vizinhança devido ao “monstro” que ela escondia na casa. Pouco depois, a mulher aparece morta, com sangue saindo pelos olhos, nariz e boca. No mesmo instante, quando o marido dela vai tirar satisfação com Dora e sua mãe, o homem sofre um ataque cardíaco. Dessa forma, fica a dúvida: ou a menina “se vingou” pela sua mãe, ou ela a protege apenas porque precisa dela e é a única pessoa que a defenderia independentemente de tudo.

Uma jovem super dotada

Caso essa fosse uma história do universo Marvel, Dora facilmente seria uma mutante de nível alfa ou ômega.

Desde a mais tenra infância, a protagonista é mostrada possuindo alguns poderes bem interessantes, dentre eles: telecinese, produzir e manipular fogo e algum nível de controle mental. Na escola, ela demonstrou ter uma inteligência acima do normal, conseguindo responder todas as questões de uma prova faltando menos de cinco minutos para o tempo acabar. Não dá para ter certeza se ela possui algum intelecto de nível genial ou se também tem algum tipo de capacidade de ler mentes.

Mas, ao mesmo tempo que tem várias habilidades, ela também demonstra algumas “fraquezas”, como aversão a equipamentos mais tecnológicos, como veículos e lâmpadas elétricas, além de apresentar certa agonia no final da história, que não é explicada. Também fica implícito que ela se esgota ao usar seus poderes em demasia.

Ao menos 15 mortes

Como dito no contexto, logo nas primeiras páginas, sabemos que Dora está sendo acusada de causar ao menos 15 mortes. A primeira delas, teoricamente, teria acontecido em sua festinha de 1 ano, quando teria provocado um incêndio na casa em que um menino acabou morrendo. Não é mostrada a cena em si, mas é dito que as chamas das velas do bolo “simplesmente aumentaram” ao ponto de incendiar a casa.

Vale também o destaque para o fato de que Dora tem sempre uma expressão gélida e mórbida no rosto. A primeira vez que a vemos esboçar alguma reação foi na infância, quando devolveu o triciclo de outra criança, mas a mãe dessa mesma menina acabou tirando-a de perto da protagonista. Nesse momento, Dora olha para baixo como se estivesse aborrecida ou incomodada, pela primeira vez, com seu comportamento estranho.

Aos 13 anos, a menina comete um massacre em sua escola. Apesar de ser uma aluna com notas perfeitas, pelo fato de adolescentes serem sempre adolescentes, ela vira alvo de bullying. Porém, foi apenas uma vez, pois ela faz com que duas alunas cometam suicídio logo após pregarem uma peça nela. Outros três alunos a perseguem, mas Dora mata um deles, que tem a cabeça explodida, e os outros dois afogados na piscina.

Perto do fim, a mãe de Dora decide que elas deveriam se mudar para uma cabana em um local bastante isolado, em meio a uma mata. Porém, a menina começa a “sair de controle”, desmaiando no meio da rua e tendo crises de urticária, que a faziam se coçar a ponto de arrancar sangue dos braços. Nas últimas páginas, do mais absoluto nada, uma equipe altamente armada cerca a cabana das duas, e a mãe entra em desespero. Porém, Dora começa a gritar e todos acabam morrendo queimados, com um incêndio que começou e terminou do nada. Assim, vemos ela fazer alguma expressão mais uma vez que, dessa vez, é de exaustão.

Após a morte dos agentes, Dora desaparece, e a mãe resolve se entregar, sendo esse o momento em que a história acontece. Isso também demonstra o quanto a mãe está sendo parcial em seu relato, uma vez que uma equipe da polícia não montaria uma operação contra a menina se as coisas fossem tão simples como ela diz que são.

As últimas páginas são uma grande pergunta da mãe para o detetive, questionando o que ele desejaria se estivesse no lugar de Dora. Quer dizer: a mãe pergunta se, hipoteticamente, Dora fosse inocente de tudo de que a acusam, mas a morte a acompanha desde sempre, não há como provar sua inocência, todos a acusam de ser um monstro e até sua mãe deixou de acreditar nela, o que o detetive sentiria. Ele responde que desejaria a morte.

É um pouco frustrante que não haja qualquer continuação ou um maior desenvolvimento para algumas questões, uma vez que havia margem para a expansão desse universo. Por outro lado, entendo a decisão de encerrar dessa forma, já que a chance de sair do controle e virar uma história enfadonha seria muito grande.

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