Antes de começarmos a discutir essa pauta, eu gostaria de propor a seguinte reflexão: você saberia dizer de cor e salteado o nome dos autores de todos os animes e mangás que acompanha? Arrisco dizer que uma minoria conseguiria. Até alguns anos atrás, era relativamente comum saber quais eram os autores por detrás de grandes obras da indústria japonesa. Contudo, esse aspecto sempre ficou em segundo plano, mesmo quando os autores são conhecidos.
Parte disso é pelo perfil da maioria dos mangakas: todos possuem prazos apertados para produzir novos capítulos, o que impossibilita que a maioria seja muito ativo socialmente. Combinado com isso, essa mesma maioria tende a ser mais reclusa e introvertida, não gostando tanto de aparecer em público. Até mesmo autores aclamados, como Akira Toriyama, Kentaro Miura e Eiichiro Oda ficam anos sem dar as caras – tendo fotos bastante desatualizadas deles circulando na internet, quando ainda são bastante jovens. Uma safra mais recente de mangakas adota uma postura ainda mais extrema: assinam suas obras com pseudônimos e “dialogam” com seus leitores através de personagens de avatares criados nas últimas páginas de seus mangás.
Em resumo, é possível ver que os autores japoneses, na esmagadora maioria das vezes, prioriza muito mais a obra do que seus próprios nomes. É quase como se eles fizessem algo maior que eles próprios.
Contudo, existe um mangaka que foge desse padrão a ponto de virar quase o oposto do que vê por aí. Quer dizer: sua obra é muito maior do que ele próprio, sem sombra de dúvidas. Só que seu nome ecoa muito mais longe que seus próprios mangás, a ponto de quase existir uma aura “mística” entorno dele. Além disso, ele mesmo costuma ser um pouco mais sociável e presente na vida dos fãs do que a maioria dos seus colegas – apesar de também ser muito introvertido. E também surpreende o fato de, pessoalmente, ser uma pessoa querida e atenciosa, gerando um contraste irônico com sua obra.
Este mangaka é, nada mais, nada menos, do que Junji Ito e esse é o seu curioso caso dentro da indústria.
Naturalmente que Junji Ito possui obras muito emblemáticas em sua carreira, como “Uzumaki”, “Tomie”, “Gyo” e “Hellstar Remina”, além de incontáveis contos. Porém, ao contrário de outros autores, normalmente é impossível desassociar ele com seu trabalho. Quer dizer: é perfeitamente normal assistir ou ler “Naruto” e “esquecer” que aquela história foi criada por Masashi Kishimoto, mas é impossível ler “O Enigma da Falha de Amigara” e não pensar que é uma obra de Junji Ito. Aliás, isso é tão fora da curva dentro da indústria que até mesmo a adaptação em mangá de seus trabalhos levam seu nome: “Junji Ito Collection”. Não sei como “Uzumaki” não foi intitulada como “Uzumaki – uma obra de Junji Ito”.
Existem diversos motivos que fazem com que Junji Ito tenha se tornado um artista tão icônico quanto seu trabalho. E vamos esmiuçar alguns destes pontos a partir de agora.
Um dos mais óbvios é o aspecto bizarro e macabro de suas histórias, que na maioria das vezes pegam um conceito simples e básico do cotidiano e o expande em uma vertente assustadora. Aliás, esta é uma característica que Stephen King também adotou ao longo de sua carreira, o que me faz pensar se nosso mangaka não seria um fã, mas enfim. O ponto é que qualquer coisa banal, como meras espinhas ou espirais, podem se tornar uma coisa repulsiva dentro da obra de Junji Ito. E como temos muitos exemplos de histórias curtas, com episódios específicos dessas bizarrices, fica mais fácil lembrar das características de quem o fez do que de cada uma em particular.
Outro ponto muito emblemático, que complementa o primeiro motivo, é o estilo de traço grosseiro, mas estranhamente bem detalhado de suas histórias. Todo seu talento artístico é destilado ao máximo quando precisa ilustrar o “clímax” de cada obra. Além disso, seu talento para representar com precisão as expressões faciais de medo, pavor e apatia são louváveis.
Contudo, não são apenas os pontos fortes que são uma constante nos trabalhos de Junji Ito, uma vez que seus vícios narrativos também são repetidos à exaustão. Um dos pontos mais controversos em suas obras é o fato de todos seus personagens serem genéricos e sem profundidade. Existe o argumento de que isso acontece porque sua intenção é fazer com que o leitor se sinta na pele dos protagonistas. Contudo, todos são tão rasos que quase estragam algumas de suas melhores histórias, sendo essa sua maior falha narrativa. Os mais bem trabalhados são aqueles que possuem alguma bizarrice, mas ainda assim até certo ponto. Então dificilmente se encontrará algum personagem marcante em sua obra, tirando um ou outro esquisitão.
Quando colocado tudo isso em perspectiva, é possível comparar Junji Ito não apenas como um mangaka convencional, mas sim como escritores mais clássicos da literatura, como Edgar Allan Poe, H.P. Lovecraft e até mesmo outros que não são necessariamente de terror, como Dostoiévski, Tolstói e Hemingway. Quando se pensa nestes autores, seus nomes vêm com tanto peso quanto seus trabalhos, ao contrário de outros que o trabalho vem antes de seus nomes.
É claro que, assim como estes escritores, Junji Ito também costuma ser mais comentado por aí do que lido. Porém, seu caso na indústria é muito curioso quando colocado em comparação com quase todos os outros mangakas que quase “somem” em comparação com suas obras. E mais curioso como ele conseguiu fazer isso dentro de um gênero como o terror.
