A crueldade infantil em “Eu Sou o Rei do Castelo”

Histórias de terror envolvendo crianças são um clichê. E, pelo fato de serem um clichê, isso significa que elas dão certo em alguma medida. Não é porque as crianças são “inocentes” que elas deixem de ser capazes de atos malignos e cruéis. Livros como “Menina Má”, de William March, e “O Senhor das Moscas”, de William Golding, nos trazem essa verdade indigesta, apesar de não terem sido os únicos nem os primeiros a explorar isso na literatura.

Outro título, também incluído na literatura mais recente e que aborda o tema da crueldade infantil, é “Eu Sou o Rei do Castelo”, da escritora inglesa Susan Hill. Porém, a obra dela não costuma ser uma das primeiras lembradas quando o assunto é este. Ao longo da leitura do livro, é comum perguntar-se o porquê disso, mas as últimas páginas respondem a isso muito bem. Ao contrário dos outros dois títulos citados, que possuem premissa, desenvolvimento e conclusão coerentes e satisfatórias, a autora peca demais neste último pilar, o que enfraquece consideravelmente sua obra. Além disso, o desenvolvimento também carece de algum polimento, parecendo muito com uma obra escrita “em arcos isolados”.

Só que, para bem da verdade, a premissa e a apresentação do livro são minimamente interessantes, e até mesmo fascinantes, para convencer o leitor a ir até o fim. O clima de tensão e angústia, sem saber aonde a história vai chegar, também é feito de uma forma bastante competente. Porém, vale dizer que, no final, o único sentimento possível de se ter com essa obra é irritação.

Contexto

Publicado em 1970, “I’m the King of the Castle” (no Brasil, “Eu Sou o Rei do Castelo”) é um romance psicológico sombrio ambientado em uma grande casa vitoriana chamada Warings. Nele, o garoto Edmund Hooper passa a hostilizar brutalmente o novo colega Charles Kingshaw, filho da governanta que acabou de chegar. O ambiente é marcado por manipulações cruéis, silêncio dos adultos e uma tensão crescente. A história explora como a crueldade infantil e a negligência dos adultos podem gerar consequências devastadoras.

Susan Elizabeth Hill, Dama Sir (nascida em 1942 na Inglaterra), é uma escritora consagrada, premiada com o Somerset Maugham Award por “I’m the King of the Castle” e com o Whitbread Novel Award por “The Bird of Night” — além de ter sido finalista do Booker Prize em 1972. Sua obra é vasta e inclui romances como “The Woman in Black”, “The Mist in the Mirror”, e séries policiais como Simon Serrailler. Com um estilo marcadamente gótico, Hill consolida seu legado por suas narrativas envolventes e atmosfera inquietante.

Uma leitura densa

Caso precisasse definir o livro em uma palavra, seria “irritante”. Naturalmente, essa palavra só vem após a leitura da última página, pois, ao longo do livro, seria “angustiante”. Este é um livro que fala muito nas entrelinhas, apesar de haver alguns momentos de autoexposição desnecessária.

Em alguma medida, “Eu Sou o Rei do Castelo” traz uma proposta que lembra a ambientação de “O Senhor das Moscas”: crianças são colocadas em conflito em um ambiente isolado e semicontrolado. De um lado, temos um menino órfão de mãe e vindo de uma família rica e, de outro, um menino pobre, filho de uma mãe solteira e com dificuldades. O livro não tem muita enrolação em sua proposta, uma vez que logo nas primeiras páginas temos um primeiro contato conflituoso e tenso entre os meninos. O anfitrião não faz a menor questão de ser cordial com seu novo “amiguinho” e já cria um conflito logo de cara, como uma típica criança mimada.

Kingshaw tem mais atitude e é mais violento fisicamente, sendo o único a partir para agressões, enquanto Hooper é mais ardiloso, estrategista, manipulador e cínico. Em nenhum momento a autora quis dar uma aura de “maturidade” a eles, sendo que, em vários momentos, a infantilidade dos meninos vem à tona. Contudo, o curioso aqui é que, pelo fato de a autora chamar duas crianças de 11 anos pelos sobrenomes, faz com que soem mais velhos e até “menos inocentes” em suas atitudes – principalmente no caso de Hooper, que é quase uma miniatura de sociopata e que possivelmente faria coisas assombrosas quando mais velho.

Um fato curioso é que o pai de Hooper, logo no início, admite que talvez precisasse de mais pulso firme com o filho, não o deixando sair por cima nem ser desrespeitado pelo menino, ainda culpando a falecida esposa por ter partido “sem deixar um manual de como lidar com ele”. Porém, apesar de ter uma vaga noção do caráter difícil do filho, sua negligência é não só evidente como desesperadora. Em dado momento, mais perto do fim do livro, nos é mostrada uma nova autorreflexão do homem, pensando em si mesmo como alguém muito sexual e que estava se interessando cada vez mais pela nova governanta, a ponto de tratar o filho dela como seu próprio.

E por falar na mulher, talvez ela seja a segunda personagem mais irritante de todo o livro – perdendo apenas para Hooper. Ela é negligente com a situação do filho, recusando-se a enxergar a realidade horrível que ele está passando nas mãos do outro menino. Em vários momentos, chega até mesmo a culpá-lo por coisas que Hooper fez, uma vez que caiu na manipulação do filho do patrão. Em dado momento, Kingshaw chega a pensar que sua mãe deveria ter morrido no lugar de seu pai e afirma para si mesmo que a odeia. Contudo, mesmo tendo apenas 11 anos e já tendo vivido muitos infortúnios, como morar de favor na casa dos outros e enfrentar dificuldades financeiras, ele relembra situações nas quais sua mãe não era vista com bons olhos, como o fato de “se arrumar demais”. Aqui, pode-se tirar uma interpretação do machismo ou conservadorismo da época, mas, ao observarmos suas atitudes (ou a falta delas) para com a situação do próprio filho, vemos que não se trata de um mero zeitgeist: ela realmente tem um caráter lamentável. Por sinal, fica bastante óbvio o quanto ela vê o patrão como um possível marido e usa todas as suas armas para que isso aconteça – por mais que a história não mostre isso de forma explícita, nem os resultados de suas investidas.

No final das contas, a vontade que dá é de pegar Kingshaw e protegê-lo, pois ele é a maior de todas as vítimas dos acontecimentos do livro e sequer teve justiça no final. Aliás, o máximo que é possível ver disso acontecendo são pequenos momentos de catarse, como quando ele agride fisicamente Hooper, ou quando Hooper fica a seus cuidados ao se perderem na floresta, ou ainda quando despenca de um muro alto e quebra alguns ossos. Mas nada disso é suficiente, principalmente pelo desfecho do livro, quando o menino de apenas 11 anos decide tirar a própria vida do que viver o resto de seus dias preso àquela situação – uma vez que, se sua mãe se casasse com o pai de Hooper, não haveria qualquer escapatória.

Por fim, na última página do livro, quando o corpo de Kingshaw é encontrado boiando em um riacho, vemos a mãe do menino morto abraçando Hooper e colando seu rosto contra seu corpo para que a criança “não se aflija” com a visão horrível. Este é um momento muito simbólico, pois mostra como ambos foram os principais responsáveis – e talvez até mesmo cúmplices – naquela tragédia, o que aumenta ainda mais o tom indigesto da leitura.

O problema é que o final foi, de forma bem evidente, apressado, dando a impressão de que a autora talvez quisesse “se livrar” logo da tarefa de desenvolver o resto da história – mesmo que o desfecho fosse o mesmo. Porém, mesmo que toda a trama apontasse para um fim trágico, foi escolhida a tragédia mais “básica e fácil” de todas. Não se cogitou, em nenhum momento, um caminho um pouco mais complexo ou empolgante, mesmo que, novamente, o resultado fosse o mesmo. E se Kingshaw tivesse visto sua mãe e o pai de Hooper em um momento de intimidade antes de tomar essa decisão? Ou, então, se ao menos eles tivessem anunciado o casamento? Quem sabe Kingshaw tolerasse ao menos um semestre na escola com Hooper e algo mais intenso acontecesse ao longo daquele tempo? Enfim, existiam várias possibilidades de desenvolvimento, mas ficamos sem nada disso. E, por consequência, “Eu Sou o Rei do Castelo” acaba sendo ligeiramente esquecido quando se fala de livros sobre crueldade infantil.

Artimanhas

A maioria dos tormentos de Hooper para com Kingshaw é psicológica, como o fato de reforçar constantemente que nada na casa pertence ao outro menino, além de lembrá-lo de que ele é pobre e medroso. Hooper explora algumas das fobias de Kingshaw, como a de mariposas e corvos. Em dado momento, ele também tranca seu “amiguinho” em um galpão escuro por um longo tempo antes de deixá-lo sair – e só o faz por julgar que poderia lhe trazer problemas.

Em uma das partes mais marcantes do livro, Kingshaw elabora uma expedição à floresta enquanto sua mãe e o dono da casa vão até Londres. Porém, Hooper acaba o seguindo e se revelando no meio do caminho, o que gera tensão, e ambos se perdem no meio da mata por um dia e meio inteiro. Neste momento, nos é dada uma pequena “esperança” de que a experiência poderia resultar em uma amizade entre os dois, uma vez que ambos enfrentam grandes dificuldades. Hooper, inclusive, sofre um acidente grave ao bater a cabeça, obrigando Kingshaw a cuidar do outro menino. Em dado instante, temos uma cena mais intimista, na qual os meninos discutem o fato de que seus pais estão se engajando em um relacionamento e como nenhum dos dois apoia essa ideia – ainda que por motivos diferentes, mas não contraditórios.

Assim que os adultos chegam para resgatar a dupla, Hooper trai Kingshaw e afirma que ele era o culpado de tudo, fazendo com que essa traição seja um banho de água fria em qualquer possibilidade de aproximação entre eles. Não só isso: os adultos compram a versão de Hooper sem qualquer questionamento, o que aumenta ainda mais a sensação de injustiça e desperta quase uma vontade de acolher Kingshaw de alguma forma.

O máximo de qualquer tipo de “contrapeso” que temos vem páginas depois, quando os quatro personagens principais vão fazer um passeio e Kingshaw sobe em um muro alto. Hooper o segue para irritá-lo, mas acaba preso e incapaz de descer, o que resulta em uma queda grave. Mesmo assim, apesar de o garoto ter se machucado a ponto de ir parar no hospital, Kingshaw leva a culpa pela situação. É quase como se a narrativa nos dissesse que Hooper tem uma índole tão maligna que não se importa de se ferir e quase morrer, contanto que o outro menino leve toda a culpa e sofra as consequências.

Durante essa estadia no hospital, Kingshaw diz a frase que dá título ao livro. “Eu sou o rei do castelo” é dita no momento em que ele percebe que tem domínio sobre o local e poderia ter alguma paz temporária. Essa quebra de perspectiva é interessante, já que acreditávamos que esse tipo de frase viria de Hooper, mas, na verdade, veio de Kingshaw em um contexto sombrio, porém compreensível. Por mais que ele tivesse alguma tranquilidade momentânea, sabia em seu íntimo que aquilo era apenas um paliativo para sua situação. E até remete ao seu sobrenome, uma vez que ele possui o “king” em seu nome.

Durante aqueles dias, Kingshaw conhece um garoto de uma fazenda próxima chamado Fielding. Este novo menino, de idade semelhante, é extremamente amigável e rapidamente os dois formam um vínculo. Kingshaw pensa que, pela primeira vez, possui um amigo. Logo de cara, ele se abre a ponto de contar tudo que estava acontecendo. Fielding tenta aconselhá-lo, dizendo que não deveria deixar ninguém controlá-lo, mas, infelizmente, nada do que ele diz é seguido. Pouco depois, inclusive, Fielding vai visitar a casa de Hooper e este tenta até mesmo “roubar” o amigo de Kingshaw, tentando “seduzi-lo” por diversos cômodos da casa e sendo infinitamente mais receptivo e amigável. Porém, não podemos ver nenhum desenvolvimento disso, já que o livro termina poucas páginas depois.

Falta de lapidação

Como já dito, a parte mais problemática da história é seu desfecho apressado e sem um melhor desenvolvimento que convencesse mais. Mas existe outro ponto a se considerar: a falta de lapidação da escrita da autora.

Aparentemente, ela é inimiga da pontuação e da sinalização, uma vez que é necessário deduzir, pelo contexto, quando um personagem está tendo um monólogo interno. Não existe uso de itálico, nem qualquer outro recurso que ajude a indicar isso. E como há a tendência irritante de se fazer traduções muito diretas, que importam as regras gramaticais de pontuação da língua inglesa, o texto acaba se tornando confuso para um leitor brasileiro caso não esteja atento. Portanto, uma pequena parcela dessa confusão se deve à direção editorial, que decidiu seguir por esse caminho e não fazer as adaptações necessárias à gramática do português.

E, por consequência dessa inimizade com a sinalização, temos um segundo problema: as transições confusas ao longo do texto. Exemplo disso é quando Kingshaw está se lembrando de eventos passados e das dificuldades enfrentadas por ele e sua mãe, mas sem qualquer tipo de marcação textual muito clara, o que pode acabar fazendo com que o leitor volte alguns parágrafos para se situar novamente.

A edição brasileira, pelas mãos da Darkside Books, está muito bonita, como já era de se esperar. Porém, algumas das ilustrações que marcam a troca de capítulos não dialogam tão bem com a narrativa do livro e penso que talvez pudessem ser melhor trabalhadas. A revisão ortográfica, no entanto, foi bem executada.

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