“Goat”: o terror na busca pela perfeição

É incrível o poder de uma boa premissa. Quando as primeiras notícias sobre “Goat” começaram a circular, apenas sua ideia central já me fez brilhar os olhos: uma mistura de terror com drama esportivo. Porém, não só de boas intenções se vive uma experiência cinematográfica, e aqui o desenvolvimento e a execução ficaram atrás do argumento central.

Na trama, o jovem Cameron Cade, promessa do futebol americano, sofre uma lesão na cabeça causada por um torcedor descontrolado. Quando tudo parecia perdido, ele é chamado para um complexo de treinamento do astro Isaiah White, com a promessa de assumir seu lugar como o melhor jogador de todos os tempos. A direção é do estreante Justin Tipping, que conduz a trama focado em explorar o horror psicológico. Sua direção transita do lúdico ao visceral entre as cenas, sendo bem utilizada nos momentos mais violentos, mas que podem indicar uma inconsistência de tom ao serem usados com exaustão. Tipping também assina o roteiro, e logo no início temos claros sinais do que viria a ser o tema central da trama.

Na introdução do longa, vemos a infância de Cameron: sua família reunida na sala assistindo a um jogo e, ao lado, uma espécie de santuário ao ídolo Isaiah White, enquanto os familiares de Cameron entoam cânticos de torcedores. Tais sinais demonstram forte devoção e endeusamento de um ídolo, algo que hoje em dia pode se estender a outras celebridades, como cantores pop, tendo o fanatismo como um dos pontos levantados no roteiro. Tendo isso em mente, tudo é muito exagerado: fãs, mídias e até mesmo a principal fonte do terror — a busca pela perfeição.

As cenas de treinamento, em que se mostra a dor física que escala para a mental, até se tornar graficamente gore, são o ponto alto do longa e momentos de inspiração da direção. Tipping demonstra desde já domínio do estilo mais moderno de terror, com cenas estranhamente simétricas que brincam com a noção de realidade. Porém, para quem decidiu dar uma chance ao longa devido ao nome de Jordan Peele, diretor de “Corra” e “Nós”, presente aqui como produtor, sinto informar que vai encontrar algo bem abaixo dos longas de Peele.

“Goat” sofre com a falta de sutileza, que talvez seja um medo de arriscar ou um claro caso de um realizador subestimando a inteligência de seu público. Fato é que não existe espaço para interpretação narrativa, muito menos para discussão ou para dúvidas sobre os símbolos na trama. Tudo que é mostrado também é falado. Quando mencionei o endeusamento e a idolatria das celebridades, o longa precisa reforçar esse tema com uma cena que faz referência direta à clássica pintura da Santa Ceia. Tais decisões empobrecem a narrativa e a tornam mais vazia do que poderia ser. Esse desleixo fica escancarado na decisão de dividir o filme em capítulos, cada um com títulos como: “sacrifício”, “pressão” e “dor”, traços já presentes na trama e que não necessitavam ser jogados na cara do público.

Felizmente, um grande destaque é a performance de Marlon Wayans como Isaiah White. O ator, conhecido por comédias como “As Branquelas”, mostra que o carisma é maleável e o utiliza para construir um vilão marcante e imprevisível. Durante a trama, o personagem de Wayans revela suas camadas através da autoridade e impulsividade, desempenhando o papel de alguém aparentemente bem-intencionado. Nesse caso, o carisma do ator e sua experiência em comédia ajudam no convencimento e permitem uma subversão impactante e memorável.

Uma pena que a execução não seja tão interessante quanto a premissa. Ao se aproximar do ato final, tantos elementos surgem sem apresentação prévia que causam a impressão equivocada de surpresa, e tudo só parece jogado. Com a fórmula tanto do terror quanto do drama esportivo, “Goat” tinha possibilidades infinitas. Mas uma execução amadora, preguiçosa ou até mesmo precipitada impediu que ele se configurasse como um dos melhores de todos os tempos.

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