Conforme os anos foram passando, fui me dando conta de uma verdade: não importa o quão “refinado” seja o gosto de uma pessoa, sempre vai haver alguma porcariazinha que ela aprecie. Seja um chef de cozinha que, secretamente, gosta de um podrão, ou então um erudito que aprecie novelas mexicanas. Quem nunca viu um roqueiro que, no sigilo, gostava de ouvir um pagode ou samba, não é mesmo? Talvez seja até saudável que uma pessoa goste de alguma coisa de má qualidade, desde que reconheça essa realidade e não se deixe dominar por isso.
Dentre todas as coisas que aprecio, talvez o meu karma seja gostar de um anime que é taxado como uma das piores porcarias já criadas. E, de fato, reassistindo após anos, percebo que não é o melhor de todos os animes. Mas eu gosto dele mesmo assim. Só que também precisamos ser justos: ele tem seus méritos e valor, não sendo exatamente essa bomba que pintam dele.
“Mirai Nikki” foi, talvez, o anime responsável por popularizar o arquétipo das “yandere” – personagens femininas obcecadas por um homem a ponto de cometerem atos terríveis em nome desse amor – dentro da cultura de massas. E por mais que seja essa relação tóxica que sustente toda a trama, existem diversas lições que podemos tirar dela. Além disso, do ponto de vista narrativo, não é uma história frágil ou desinteressante. Porém, os deméritos do anime, aliados a uma compreensão superficial de sua mensagem, acabaram criando uma fama negativa. Mas vamos por partes.

Contexto
“Mirai Nikki” (ou Diário do Futuro) é um mangá escrito e desenhado por Sakae Esuno, serializado entre janeiro de 2006 e dezembro de 2010 pela revista Shōnen Ace. A história acompanha Yukiteru Amano, um jovem solitário que começa a registrar sua rotina em um diário no celular, imaginando amigos como Deus Ex Machina — até que, de fato, recebe o poder de prever o futuro. Ele então é lançado em um violento jogo de sobrevivência com outros 11 portadores de diários igualmente especiais, cada um com previsões únicas, em busca de se tornar o sucessor divino. O mangá teve adaptação para anime em 2011-2012 pelo estúdio Asread, com 26 episódios.
Sakae Esuno, nascido em 17 de novembro de 1973, construiu sua carreira com vários trabalhos antes de “Mirai Nikki”, mas foi esse título que o tornou amplamente conhecido. Após o sucesso, ele também publicou outras obras como “Big Order” e spin-offs de “Mirai Nikki”, como Mosaic e Paradox. Seu estilo mistura suspense sobrenatural, reviravoltas psicológicas e questionamentos sobre destino, moralidade e identidade — e “Mirai Nikki” permanece como uma de suas criações mais influentes nesse sentido.

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Uma mitologia mal explorada
Talvez o maior problema de “Mirai Nikki” seja o fato de que este é um anime que apresenta uma mitologia interessante, mas não dá qualquer desenvolvimento às próprias premissas. Conforme os episódios vão passando e novas informações surgem, fica nítido que o autor, Sakae Esuno, havia pensado em um pano de fundo maior para os acontecimentos. Porém, por algum motivo não esclarecido, ele parece ter abandonado tudo isso ao longo do caminho ou quis mudar no meio.
É evidente, desde o início, que ele sabia exatamente para onde a história iria caminhar, com a ideia de ciclos temporais, pois, se não fosse por isso, não faria questão de apresentar logo no início os três cadáveres na mansão de Yuno Gasai. Porém, também é nítido como alguns núcleos não foram bem planejados e ele apenas quis “se livrar” o quanto antes. Exemplo disso são alguns dos jogadores, como o cego que atuava como super-herói, a criança com o caderno de desenhos e o que conseguia controlar cães com seu próprio diário – uma capacidade que chega a ser bizarra de tão destoante em relação aos outros. Até mesmo a jogadora com a capacidade de criar outros diários do futuro, que tinha potencial para ser algo mais bem trabalhado, acabou se tornando algo apenas “entregue”, sem qualquer desenvolvimento.
Talvez, de todos os jogadores, os melhores trabalhados tenham sido o casal que possuía, cada um, um diário que mostrava o futuro do outro. Isso porque servia como contraponto ao casal protagonista, que vivia um relacionamento doentio e tóxico, baseado em dependência e obsessão. Além disso, pelo próprio fato de serem “um só”, não precisariam matar um ao outro no final, ao contrário de Yuno e Yukiteru. Essa relação trouxe uma complexidade maior para as conexões estabelecidas na trama.
Mas, ainda assim, o que mais prejudica a imersão é a falta de maior desenvolvimento do universo da história. Somos apresentados ao “deus” daquele mundo, mas sequer sabemos se ele é realmente um “criador” ou algo assim, pois fica implícito ambos e nenhum ao mesmo tempo. Também fica mal trabalhada a relação daquele “mundo” com os acontecimentos em torno daquele jogo doentio – seria forçar demais a suspensão de descrença pensar que aquilo tudo passou batido.
E talvez estas sejam as maiores fragilidades de “Mirai Nikki” e não exatamente os motivos que a maioria das pessoas acredita serem os principais problemas.

O amor é capaz de destruir mundos
Precisamos ser honestos com uma coisa: “Mirai Nikki” tem uma das melhores reviravoltas dos animes. Por mais que, desde o início, a trama conduza o espectador a desconfiar de que há algo suspeito acontecendo, principalmente em relação a Yuno, a revelação surpreende. Sim, desde o início sabemos que ela é perigosa e imprevisível, sendo que suas atitudes sempre podem surpreender – no mau sentido. Contudo, quando achamos que já tínhamos visto de tudo, ela vai lá e revela que pode ser ainda pior.
Como se assassinatos, sequestros e outras atitudes lamentáveis não fossem o suficiente, ela foi capaz de causar a morte da pessoa que amava só para ganhar poderes divinos, voltar no tempo e passar mais tempo com ele, modificando totalmente outra linha temporal. E pior: ela foi capaz de ter matado até “a si mesma” para cumprir esse objetivo. Quando descobrimos e nos damos conta disso, percebemos que “Mirai Nikki” não é um anime sobre diários do futuro ou uma simples obsessão adolescente. É uma obra sobre paixão trágica capaz de destruir até mesmo mundos e realidades.
Não é de hoje esse tema na ficção, pois a própria “Ilíada” aborda isso de certa forma, uma vez que uma trama amorosa trágica acaba causando uma guerra longa e sangrenta entre dois povos. “Romeu e Julieta” é outro exemplo. Além disso, nas relações humanas esse tipo de história não é incomum, pois o que mais existe são relatos de pessoas que fizeram muita besteira em nome do “amor”. Em “Mirai Nikki”, por mais que a competição entre os portadores dos diários não seja o que tenha causado a destruição de duas realidades em si, foi a paixão doentia de uma das jogadoras que acarretou em dois desfechos trágicos.
Um dos debates mais acalorados em torno deste anime surge quando se discute os “porquês” de Yukiteru e Yuno se apaixonarem, pois aparentemente foi algo aleatório e conveniente para que a história fluísse. Mas não é bem assim, já que a resposta nos é dada pela moça no penúltimo episódio: “eu teria me apaixonado por qualquer um que me desse esperança, enquanto você se apaixonaria por qualquer uma que o protegesse”. Isso condensa, de forma bastante clara, as razões de cada um dos personagens chegarem até aquele momento.
Yuno era simplesmente obcecada e desesperada, não por Yukiteru, mas pela esperança de um futuro que ele deu a ela em meio a uma vida trágica. Enquanto isso, Yukiteru era um covarde apegado às próprias ilusões e fantasias, que não queria um contato direto com a realidade, sendo que Yuno representava bem essa barreira que ele desejava – ainda mais em um jogo mortal. Nenhum dos dois sentia algum tipo de amor genuíno um pelo outro, mas acreditavam que sim devido às circunstâncias. A maior prova disso é que, na terceira realidade, sem a competição para virar “deus” e sem os percalços anteriores, nenhum dos dois sequer cruza o caminho do outro.

Brincando com o ego do expectador
Outro ponto controverso de “Mirai Nikki”, que pode ser bom ou ruim a depender da opinião, é o fato de que esta é uma obra que brinca com o ego do espectador. Muitos animes, principalmente de isekai e power fantasy, fazem o mesmo, mas de outras formas. Afinal de contas, grande parte do público otaku segue o arquétipo dos protagonistas: tímidos, feios, pobres, fracos e inseguros. Mas, de uma hora para outra, eles são transportados para uma realidade na qual são importantes e poderosos. Este é o desejo secreto que todo jovem tímido tem, e tais animes satisfazem essa fantasia.
“Mirai Nikki” faz isso de certa forma, mas de maneira diferente. Em vez de o protagonista ser um guerreiro poderoso, uma garota bonita e obcecada por ele simplesmente “brota” em sua vida e faz de tudo para que fiquem juntos. Esta é outra fantasia que muitos otakus têm: a de serem amados “pelo que são”, mesmo que não tenham nada muito digno de nota para chamar a atenção de uma bela mulher. No fundo, por mais contraditório que seja, uma “yandere”, tal qual Yuno Gasai, é o sonho de muitos jovens – um desejo ingênuo e distorcido, vale dizer.
Os pontos atenuantes de “Mirai Nikki”, contudo, estão no fato de que a história possui certa “lição de moral” no fim de tudo, além da ótima construção da relação entre Yuno e Yukiteru. A garota causa medo pela sua violência e instabilidade, sendo que não se sabe o que ela fará em seguida. Inclusive, nos pegamos pensando no que ela seria capaz de fazer com o próprio protagonista a qualquer momento. Mal sabemos que ele já havia sido uma vítima.
