Após um final aparentemente fechado e, pelo fato de ser baseado em um conto, o longa “Telefone Preto” ganha uma sequência quatro anos depois. Indo contra tudo que se pode imaginar, o novo capítulo da franquia resiste à tentação de fazer mais do mesmo e expande seus conceitos. Anos após sobreviver e matar o seu sequestrador, o jovem Finney parte até um acampamento cristão, local onde sua irmã Gwen vem tendo sonhos e sendo assombrada pela figura mascarada do primeiro filme. Os dois começam, então, uma investigação para ajudar vítimas mais antigas do vilão interpretado por Ethan Hawke.
Antes de mais nada, eu preciso falar da parte técnica. A fotografia é o grande destaque por saber usar e tratar o esquema de cores da paisagem onde a trama se passa. O ambiente é branco, pois o acampamento está fechado devido a uma nevasca. A presença opressiva da neve, junto com seu tom pesado de branco, causa uma sensação claustrofóbica, mesmo ao ar livre, ao mesmo tempo que cria uma estética meio lúdica e fantasiosa, que o longa ganha com o avanço do elemento sobrenatural.
Existem também sequências de sonhos em que se usa o filtro das câmeras antigas Super 8. Tal recurso remete ao período em que o longa se passa, 1982, ao mesmo tempo que serve para nos comunicar quando algo errado está prestes a acontecer.
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Agora, falando conceitualmente e sobre os motivos pelos quais “Telefone Preto 2” é uma clara evolução orgânica do primeiro longa: enquanto o primeiro filme era um suspense, em que Finney tentava escapar de seu cativeiro com ajuda dos espíritos de vítimas anteriores, o segundo longa é um drama de investigação que, conforme conta sua história e esclarece questões levantadas no seu antecessor, amplia os dons sobrenaturais de seus protagonistas e do universo aqui presente.
A intenção não é assustar, mas te fazer pensar o quanto os traumas podem te levar para caminhos obscuros. Com isso, o vilão, chamado aqui apenas de “O Sequestrador”, se torna uma presença manipuladora nos sonhos de Gwen e nas visões de Finney, fazendo sua presença onipresente uma analogia ao trauma. Sendo assim, o que vemos aqui é uma tentativa de consolidação do vilão no cenário do terror. Seu novo modus operandi o faz ser comparável com Freddy Krueger. Apesar de não ter o mesmo carisma, a direção e o roteiro conseguem tornar suas aparições muito marcantes e visualmente impactantes.

Aqui, ele ganha motivação e um visual ainda mais monstruoso por trás de sua máscara. Tão monstruoso que fica um pouco caricato, fazendo de seu visual mais “humano” o ponto alto do fator ameaçador.
Além do trauma, outro elemento que me surpreendeu ao ser explorado dentro da trama é a teologia. O longa não se passa em um acampamento cristão à toa — conceitos bíblicos são usados em paralelo à busca incessante por respostas e muitas vezes nos ajudam no entendimento do tema central da trama.
A relação com a religião é tanto subjetiva quanto literal. Por vezes, é citado o conceito de céu e inferno. O Sequestrador diz ter vindo literalmente do inferno, informando que lá é frio, vazio e dolorido — assim como a nevasca que cerca o acampamento.
Mas o que mais me chama atenção, desde o primeiro filme, é a evolução dos personagens. Quanto mais a trama avança, mais eles aprendem, e o que no início era uma ameaça se torna mero obstáculo a ser retirado do caminho de forma cruel e satisfatória.
Seria muito fácil se “Telefone Preto 2” repetisse os feitos de seu antecessor — uma trama de suspense de cárcere com alguns sustos aqui e ali. Porém, desde o primeiro, sinto que a intenção nunca foi assustar, mas sim mostrar como ecos do passado podem ajudar ensinando sobre resiliência.
Talvez não agrade a todos pela falta de jump scares ou por falta de sangue, apesar de ter, sim, algum gore. Mas o importante é que manteve sua essência para contar uma boa história, por mais que não seja um enclausuramento físico, mas sim mental. Uma sequência corajosa e criativa.
