No século XV, o medo das bruxas alimentava fogueiras. No século XXI, ele inspira fantasias, séries e blockbusters.
De símbolo de heresia a ícone de poder feminino, a figura da bruxa sobreviveu a séculos de repressão — e hoje reina soberana nas noites de Halloween. A origem medieval das bruxas está profundamente ligada a uma mistura de medo religioso, tradições pagãs e controle social. A figura da bruxa, na verdade, surgiu da demonização de mulheres que exerciam poderes fora da estrutura da Igreja.
Nos primeiros séculos da Idade Média, não existia ainda a ideia da bruxa como serva do diabo. O que havia eram curandeiros, parteiras e benzedeiras — mulheres que dominavam ervas, remédios naturais e rituais herdados de religiões pré-cristãs. Elas atendiam à comunidade rural e eram bem populares e respeitadas, até que o discurso sobre religião começou a mudar. Foi entre os séculos XI e XIII que a Igreja Católica iniciou uma campanha de perseguição para eliminar crenças pagãs e consolidar o cristianismo na Europa.
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Sendo assim, essas mulheres que, de forma independente ou seguindo outras crenças, realizavam partos ou manipulavam ervas medicinais, começaram a ser vistas como “servas do mal”. Ainda mais se viviam sozinhas, fora das normas formais da época. No século XV, o medo virava ódio com o lançamento de um livro chamado Malleus Maleficarum. Escrito em 1486 por dois inquisidores alemães, a obra era um manual de como identificar uma bruxa e justificava a execução das mesmas. Quando a obra se espalhou pela Europa, alimentou uma verdadeira indústria de caça às bruxas, que durou até o século XVII.
Estima-se que entre 40 mil e 60 mil pessoas foram executadas acusadas de bruxaria — a maioria, mulheres. No fim do século XVII, a histeria da bruxaria chegou à América Colonial e, em 1692, em Salém, 19 pessoas foram à forca com base em boatos e fanatismo religioso. Era moldada assim boa parte do imaginário moderno das bruxas.
Essa disseminação é a responsável pelos estereótipos que conhecemos. Por exemplo, nos mercados e feiras da Europa, as mulheres que vendiam ervas usavam chapéus pontudos em forma de cone — era para indicar status de comerciante, mas, com o tempo, foi associado à prática de feitiçaria.
A vassoura surgiu de uma antiga prática sexual. Mulheres a usavam como símbolo de fertilidade ao montar nela como gesto ritual. Com o tempo, a Inquisição reinterpretou essa prática como algo ruim, associando-a a “voar em sabás demoníacos”. Nascia assim o mito da bruxa que voa em vassouras.
Já a aparência grotesca — verrugas e nariz longo — vem de caricaturas. A Igreja e os artistas da época criavam a ideia de que o mal “deformava” o corpo. Sendo assim, mulheres velhas, reclusas e consideradas feias eram tratadas como suscetíveis à influência demoníaca.
Com o passar dos anos, a imagem maléfica e o interesse popular nas bruxas foram, organicamente, mudando de visão. Shakespeare, em 1606, apresenta as “Três Irmãs Fatídicas”, personagens de Macbeth que preveem o futuro e simbolizam o destino e a ambição. Ainda que retratadas como vilãs, aqui já houve uma subversão da simples visão demoníaca que se tinha até então.
Com a chegada do cinema, em 1939, “O Mágico de Oz” trouxe duas visões opostas e duradouras: a Bruxa Boa do Norte, Glinda — bela, protetora e etérea, sendo uma das primeiras bruxas heroínas — e a Bruxa Má do Oeste, com pele verde e todo o estereótipo medieval da figura ameaçadora. Mais tarde, com a chegada de Wicked, um spin-off que explora o passado da vilã, é estabelecida e referenciada a distorção visual que o estereótipo fez com as bruxas.
Após isso, as bruxas deixaram de ser apenas vilãs. Na série de TV A Feiticeira, de 1964, Samantha era a protagonista — uma dona de casa que escondia seus poderes para ser aceita. Apesar de cômica, a série carregava uma crítica social. Hoje em dia, são tantas as bruxas populares que fica difícil listar todas elas. Mas o fato é que, de ícones e heroínas como Wanda Maximoff, a Feiticeira Escarlate, a vilãs tradicionais como a Rainha Má de Branca de Neve, a figura da bruxa deixou de ser unilateral.
Bruxas são, por baixo de tudo, uma invenção política do conservadorismo, fruto de uma época que punia o diferente em nome de uma ordem distorcida. Por sorte, o tempo e a arte inocentaram as mulheres perseguidas e queimadas de suas épocas. Hoje, quando o Halloween acende suas velas e enfeita o mundo com chapéus pontudos, não celebramos apenas monstros e fantasmas. Celebramos a reinvenção — a mulher que transformou o medo em liberdade, o segredo em arte e o feitiço em voz.
