Após anos tentando tirar “Shelby Oaks” do papel, o youtuber Chris Stuckmann encontrou na parceria com a produtora Neon e com Mike Flanagan a oportunidade que almejava. Pronto desde 2022, com ajuda de financiamento coletivo, o projeto viu a luz do dia agora em 2025. Carregando a experiência de Stuckmann nos anos de YouTube, o longa se torna uma grande surpresa — para o bem e para o mal.
Na trama, acompanhamos Mia e sua investigação incessante para encontrar sua irmã mais nova, Riley, que desapareceu há anos enquanto gravava um episódio de uma websérie de investigação paranormal. É importante frisar que, apesar de ter a distribuição da Neon (empresa responsável por grandes filmes recentes como “Longlegs” e “Juntos”) e também o envolvimento de Mike Flanagan, criador de produções como “A Maldição da Residência Hill” e “A Entidade”, a essência aqui é a de um filme independente. Sendo assim, é possível notar a identidade autoral de Stuckmann e o caráter mais contido da trama.
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Também vale contextualizar que Stuckmann é, antes de tudo, um youtuber, e isso se reflete nas inspirações e na forma como a internet e a produção de conteúdo estão inseridas no longa. Toda a apresentação da série de vídeos de Riley, assim como a reação do público online e o tratamento dado a esse material, é muito crível e natural.
Quando se fala das inspirações, logo no início são nítidas as influências de obras como “A Bruxa de Blair” e “O Mistério do Lago Mungo”. O found footage e a linguagem de falso documentário são usados tanto para apresentar a trama quanto para criar tensão — dois elementos que conversam entre si na introdução do filme.

O maior choque, no entanto, é quando muda a perspectiva do filme. É interessante notar como a direção consegue juntar tantos elementos diferentes e extrair o melhor de cada um, seja a falsa impressão de realidade do found footage ou os jump scares bem construídos da filmagem tradicional.
“Shelby Oaks” é um terror de perseguição. Seja essa perseguição representada na investigação de Mia atrás de sua irmã perdida, ou nos elementos sobrenaturais, aqui tratados como telespectadores à espreita, muitas vezes revelados apenas pelo brilho dos olhos em meio à escuridão ou pelo som de uma respiração pesada e monstruosa.
Outro mérito da direção é o contraste. A fotografia e os ambientes do longa são belos e limpos, destoando dos atos violentos ou demoníacos que presenciamos nesses mesmos cenários. Na direção, sem dúvidas, está o ponto alto do longa, mas, infelizmente, Stuckmann não se contentou apenas em dirigir — e o roteiro também acaba “assassinado” por ele.
Quanto à construção narrativa e ao ritmo, nada que desagrade. O problema está em decisões questionáveis para o avanço da trama. Muitas atitudes não fazem sentido, como as escolhas de Mia em investigar nos piores horários ou, mesmo sabendo que lida com algo sobrenatural, insistir em andar armada. Muitos diálogos caem na armadilha das “frases de efeito”, soando um pouco constrangedores. Por sorte, a entrega da atriz Camille Sullivan salva boa parte deles, e sua interpretação dramática ajuda a dar peso à história.

Porém, infelizmente, uma boa atuação e uma direção competente não salvam o final de ser corrido e um tanto frustrante. Isso é fruto de uma conclusão apressada, com muitos elementos apresentados de uma só vez, o que acaba dando a impressão de encerramento repentino e abrupto.
Engraçado que esses elementos ruins do roteiro só foram notados por mim ao refletir sobre o longa. Inclusive, quanto mais penso, mais incongruências encontro. Ao assistir ao filme, talvez a direção e os elementos de terror nos distraiam de seus pontos negativos.
Por conta disso, eu digo: “Shelby Oaks”, para o bem e para o mal, é surpreendente — seja pela fotografia e cenas belas, pelo domínio técnico do diretor ou pelo roteiro fraco e final insatisfatório. Se uma coisa compensa a outra, cabe a você decidir.
