Para o desespero de alguns, a sociedade aprova o sangue derramado

Vários paradigmas foram quebrados no tocante aos assuntos militares entre os anos de 1955 e 1975. Para quem não se lembra, naqueles quase 20 anos ocorria a Guerra do Vietnã, que até hoje é uma lembrança indigesta para os Estados Unidos. Aquele foi o único conflito armado que os ianques perderam e a derrota não veio pela superioridade militar e tática dos vietcongues, mas sim por conta de um erro cometido pelos próprios norte-americanos: a permissão da cobertura irrestrita da mídia.

Por mais que tivessem se passado poucos anos desde a Segunda Guerra Mundial e as lembranças dos horrores do conflito ainda estivessem frescas na mente de muitas pessoas, tudo não passava de relatos. Eram apenas memórias e palavras de quem havia sofrido nas linhas de frente. E como “uma imagem vale mais que mil palavras”, o que fazer quando a sanguinolência de uma guerra é amplamente documentada em foto e vídeo e disponibilizada para todo um grande público?

Não vamos entrar aqui em discussões políticas e ideológicas sobre o que aconteceu, mas sim observar os fatos. Do ponto de vista puramente prático e objetivo, o que as forças armadas e os governos do mundo inteiro aprenderam com a Guerra do Vietnã foi: sua própria população pode se voltar contra você em uma guerra. Por isso, tão importante quanto armas e estratagemas é controlar como as informações do conflito são repassadas ao público.

Esse assunto voltou à tona em alguns grupos internos de conversa após o dia 28 de outubro de 2025, quando o Rio de Janeiro presenciou uma das maiores operações policiais contra o crime organizado. Mais uma vez, não entraremos aqui em discussões ideológicas sobre quem está certo ou errado, e se as ações do Bope foram exageradas ou razoáveis — cada um tire suas próprias conclusões.

Não obstante, existe uma única verdade absoluta a respeito daquele conflito que ninguém pode questionar: a sociedade, tanto brasileira quanto carioca e fluminense, aprovou o que aconteceu. Naturalmente, críticas são feitas e sempre existirão. Mas isso não significa que, no cerne da sociedade, a atitude não tenha sido aceita antes mesmo de o primeiro tiro ser disparado e as fotos e vídeos dos corpos circularem pela internet.

Um livro que nos ajuda a entender isso muito bem (por mais que não o diga de forma explícita) se chama A Guerra pela Opinião Pública, escrito pelo general francês Benoît Royal. Apesar de ser uma obra curta, pode ser bastante densa e cansativa, principalmente para quem não é da área da comunicação ou não se interessa por temas militares. Contudo, há uma mensagem muito importante que esse livro traz: “em um regime democrático, nenhuma ação das Forças Armadas é tomada sem a aprovação da sociedade”. Isso significa que são feitos plebiscitos antes de cada guerra? É óbvio que não. Mas existem diferentes formas de medir a tolerância da população em relação a certas ações. Ou então, como alternativa, são adotadas várias estratégias de relações públicas para induzir as pessoas a legitimarem esses movimentos militares.

Ora, e por que isso é feito? O motivo é simples: em uma democracia, se a atitude de um soldado ou general vai contra o que a população deseja, essa ação acaba se tornando ilegítima. Como resultado, criam-se diversas fragilidades tanto no Exército quanto no Estado, o que acaba colocando toda a ordem social em risco — e, por consequência, as próprias ações militares. Dessa forma, nenhum uso da força é feito caso a sociedade não esteja previamente preparada para aceitar.

Essa foi uma amarga lição que os Estados Unidos aprenderam. Divulgar na mídia de massa a realidade de uma guerra tão sangrenta, sem qualquer tipo de filtro, acabou comprometendo a eficácia da operação no Vietnã. Portanto, desde então, não só é permitido que se veicule o que é mais conveniente a respeito de qualquer tipo de conflito, como também a população é constantemente preparada para aceitar qualquer uso da força militar. Do contrário, derrotas semelhantes podem vir a amargar.

Precisamos ser justos aqui para evitar qualquer tipo de anacronismo: o controle de informações não é algo que o mundo aprendeu após a Guerra do Vietnã. Esse conhecimento é milenar e o próprio Sun Tzu, em A Arte da Guerra, já discorria sobre o tema. Nas palavras do general Royal: teria Alexandre, o Grande, cortado o nó górdio de forma tão espetacular, ou foi algo que foi instruído a ser escrito dessa forma? A publicação em tempo recorde de A Guerra Gálica, por Júlio César, também não teve o propósito de moldar a visão do Senado a seu respeito? Napoleão, por sua vez, criou verdadeiros “jornais de guerra”. Enfim, já deu para entender.

A grande diferença na Guerra do Vietnã, novamente, foi o uso ostensivo de imagens estáticas e em movimento na cobertura do conflito. Um vídeo e uma foto são sempre mais “suculentos” do que um relato — apesar de um não anular o outro. E, como aquele foi o primeiro confronto televisionado, a opinião pública se voltou contra os Estados Unidos, fazendo com que a própria população se revoltasse com a guerra.

Este texto está sendo escrito no início de novembro de 2025 e, no momento, ainda não dá para saber quais serão os desdobramentos políticos e sociais em relação ao que aconteceu no Rio de Janeiro. Porém, tirando a febre da situação atual, o que dá para concluir é que, apesar das imagens escatológicas do confronto nos complexos do Alemão e da Penha, a sociedade brasileira não desaprovou o que ocorreu. Alguns setores da sociedade, majoritariamente os intelectuais de esquerda, com certeza estão esbravejando aos quatro ventos. Só que, ao que tudo indica, não vai passar disso — e o motivo é simples: aos olhos do povo, aquilo tudo era necessário.

E dá para ir ainda mais além: todo esse movimento foi bem calculado pela inteligência da polícia do Rio de Janeiro. Caso a operação não fosse ser bem aceita pela sociedade, certamente sequer teria sido realizada. E não porque “mancharia a imagem” da polícia ou algo do tipo, mas porque dificultaria operações futuras e o combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas. Dessa forma, é seguro afirmar que todos estavam confiantes de que a maioria dos brasileiros não se importaria com o sangue derramado — e é o que parece ser o caso.

Mas por que a sociedade brasileira aceitou bem o que aconteceu? Bom, isso já entra em um terreno espinhoso, e é difícil cravar uma razão única, mas temos algumas pistas. E tais indícios não são nada além de fatos observados na prática.

Existe uma coisa que eu, pessoalmente, chamo de “Efeito Tropa de Elite”, que ocorre quando uma obra cultural acaba indo na direção oposta à intenção do autor — temos uma pletora de exemplos assim. Por mais que muitos neguem, o fato é que o filme Tropa de Elite (2007) foi feito com uma ideia bem clara de tentar “denunciar a violência policial”, mas o efeito foi o completo inverso.

Por mais que seja horrível ver uma pessoa sendo torturada ou baleada, mesmo que seja um criminoso, a sociedade costuma ver isso como um “mal menor”. Em outras palavras, as pessoas não se importam com o bandido sofrendo, contanto que não vejam isso acontecer na sua frente. Mas o que o tempo, aparentemente, está nos ensinando é que dá para se acostumar até mesmo a ver esse tipo de coisa nos grupos de conversa. O resultado é que o filme Tropa de Elite acabou não fazendo com que as pessoas tivessem asco da violência policial, mas sim aclamassem a luta contra o crime organizado — porque, no fundo, as pessoas se sentem reféns da criminalidade. Os memes feitos com um senso de humor bastante macabro nos dão essa ideia.

E será que seria possível criar um efeito oposto — tentar “convencer a sociedade” de que isso tudo é asqueroso? Ouso dizer que esse é o sonho de muitos intelectuais de esquerda, mas a realidade não parece comprar esse discurso por muito tempo. Na verdade, o que parece estar acontecendo é que as próprias alas esquerdistas da política e da intelectualidade estão começando a se tornar mais “de direita” no tocante ao combate ao crime. Mas é claro que isso não ocorre por preocupação com a segurança pública, e sim para evitar um encolhimento ainda maior nas eleições futuras.

Apenas o tempo dirá o que vai acontecer. Porém, uma coisa é certa: o que ocorreu no Rio de Janeiro foi bem aceito pela sociedade. E os responsáveis sabiam disso com antecedência. Essa foi a lição deixada pela Guerra do Vietnã. Para o desespero de alguns, a sociedade aprova o sangue derramado.

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