Mesmo nos livros mais aclamados de ficção científica, escritos pelos autores mais criativos e renomados, existe um problema recorrente: ideias geniais, mas com um desenvolvimento péssimo. É até seguro dizer que, se não fossem pelos conceitos ousados e fascinantes, muitos dos clássicos do gênero teriam sido esquecidos pelo tempo. Isso porque suas narrativas são mal trabalhadas, com uma redação confusa e pouco interessante. Sendo assim, é necessário que o leitor esteja muito engajado nessas histórias para não perder o interesse.
Por isso, é uma agradável surpresa ler as primeiras páginas de “Parasite Eve”, de Hideaki Sena, e perceber que não se trata de um livro de ficção científica que comete os mesmos erros. Muito pelo contrário: ele aproveita tudo o que o gênero tem de bom e aprimora com uma escrita bem trabalhada e um desenvolvimento coerente e satisfatório. Mais do que isso, é também um livro de terror que funciona muito bem.
Definitivamente, não é uma obra comum, não importa de qual ângulo se observe. Afinal de contas, além de tudo isso, foi o responsável por lançar as bases de uma das franquias de jogos mais lembradas da era do PlayStation 1 — e convenhamos, não é sempre que a indústria de games busca referências puramente literárias.
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Contexto
Parasite Eve (1995), de Hideaki Sena, é um romance de horror de ficção científica que explora a ideia de mitocôndrias sencientes, organismos celulares que habitam nossos corpos, como uma forma de vida latente disposta a tomar controle. A história começa com Kiyomi Nagashima, esposa do cientista Toshiaki Nagashima, morrendo num misterioso acidente de carro; porém, suas mitocôndrias, ou uma entidade chamada “Eve”, manipulou seus órgãos transplantados, de modo que partes de seu corpo continuem vivas, em especial o fígado mantido em laboratório. Entre os personagens, além de Kiyomi e Toshiaki, estão Sachiko Asakura — uma aluna de laboratório que começa a perceber que algo está muito errado — e Mariko, a adolescente que recebe um rim de Kiyomi e acaba se envolvendo no conflito com Eve.
A partir do romance, foi criada uma franquia de jogos iniciada pelo Parasite Eve de 1998, desenvolvido pela Square – que provavelmente é mais conhecida do que o próprio livro. No jogo, o foco central muda: a protagonista é Aya Brea, policial do NYPD em Nova Iorque, que testemunha um evento chocante num concerto de ópera em que várias pessoas entram em combustão espontânea, e isso desencadeia uma luta contra criaturas mitocondriais e contra Eve — a ameaça que quer provocar evolução biológica extrema para as mitocôndrias. A narrativa dos jogos expande vários elementos do livro, introduzindo ação, ambientes urbanos, mecânicas de combate, habilidades especiais de Aya, e sequências que não existem no romance. Sequências como Parasite Eve II continuam a saga mostrando mais mutações, criaturas Neo-Mitocondriais, e desafios maiores de sobrevivência.
O livro de Sena foi importante por misturar ciência real (mitocôndrias, transplantes, biologia celular) com horror filosófico e corporal — questionando o que significa identidade, vida e consciência. Nos jogos, essa base científica se torna pano de fundo para experiências mais cinematográficas e de entretenimento, permitindo ao público vivenciar os horrores que no livro são contemplados de forma mais introspectiva.
Narrativa humana comovente
É recorrente que autores de ficção científica se percam em termos científicos e técnicos apenas para mostrar que “dominam o tema”. Ou então, esses mesmos escritores acabam criando justificativas mirabolantes para corroborar o caminho que querem tomar.
E é aqui que “Parasite Eve” se destaca. Em nenhum momento o jargão científico dos personagens é hostil com o leitor leigo. Mesmo que o livro não contasse com um glossário no fim, o entendimento da história não seria prejudicado. Porém, tudo o que está acontecendo acaba causando um efeito inusitado: a curiosidade pelo conhecimento. Em outras palavras, a ciência de “Parasite Eve” não está ali para afastar o leitor com algum tipo de linguajar hermético, mas sim para convidá-lo a buscar mais informações sobre como a biologia funciona. Devo dizer que é um estímulo até maior do que o sistema de ensino oferece a seus alunos — ponho minha mão no fogo que Hideaki Sena tenha sido o responsável pela formação de diversos cientistas.
E não é só nisso que “Parasite Eve” é exemplar, pois um dos aspectos mais surpreendentes é a sensibilidade humana que a narrativa possui. Sim, este é um livro comovente em muitos momentos, mas principalmente na primeira parte. O autor tem uma habilidade fora do comum para transmitir as diversas emoções envolvendo a polêmica da doação e do transplante de órgãos. Vale esclarecer que, se o tema é sensível ainda hoje, imagine antigamente…
Pense na seguinte situação: um familiar morreu de forma trágica, como em um acidente. Não há mais nada o que ser feito e você está em um momento de abalo, negação e tristeza profunda. E, mesmo nessa situação, precisa tomar uma decisão importante: liberar os órgãos para alguém que está precisando. A decisão não pode ser postergada, pois cada segundo importa.
Agora pense na situação contrária: você possui um problema de saúde que só poderá ser resolvido com um transplante. Você pode passar muito tempo na angústia, pois não é possível saber quando — ou se — surgirá um doador compatível. Pode ser que um rim surja em uma semana, em um ano, ou talvez nunca surja e você acabe sucumbindo. E mesmo que surja, não é um momento de alegria, pois significa que alguém saudável morreu de forma trágica. Sua felicidade é o momento de dor de outras pessoas.
Percebe como existem várias complexidades envolvendo um simples assunto? E antes fossem meramente técnicas da área médica. Hideaki Sena conhece muito bem tudo isso e transmite essas emoções e dilemas em uma sequência de capítulos habilmente narrados. É até possível se pegar perguntando se estamos dando o devido valor à própria vida depois de refletir sobre tudo isso.
Todas essas construções, inclusive, servem para que o terror na reta final do livro funcione. Do contrário, não teríamos qualquer tipo de impacto ao ver todos se deparando com um monstro quase abstrato.
Bizarrice biológica
Quando se trata de temas envolvendo biologia ou saúde, cedo ou tarde surgem dilemas relacionados à bioética. Em “Parasite Eve”, logo no início, nos deparamos com uma situação que certamente deve ter deixado muitos de cabelo em pé: o protagonista, Toshiaki, pede para ficar com o fígado da própria esposa falecida para fazer cultura de células para estudo. Mais do que isso, ele praticamente coage o médico responsável pelo transplante de rins, dizendo que só autorizaria a doação caso pudesse ficar com o órgão.
É natural interpretar que, na história, ele estava sendo manipulado pela grande vilã para agir daquela forma, mas ainda assim existem algumas nuances narrativas que colocam essa conclusão em xeque. Uma delas é a culpa que Toshiaki sentia, pois não se achava um marido bom o bastante por diversos motivos. Assim, o cultivo das células de Kiyomi, sua esposa, era visto quase como uma forma de “mantê-la viva”. E o bizarro é pensar que, de certa forma, ele estava fazendo isso mesmo.
E antes as bizarrices biológicas tivessem parado apenas na questão ética da coisa toda. O livro vai mais além ao promover uma espécie de “body horror literário”, criando imagens grotescas. Uma das primeiras e mais marcantes é quando Eve forma o rosto de Kiyomi a partir de células cultivadas em laboratório, resultando em uma cena grotesca e até mesmo perturbadora. As coisas vão ainda mais longe.
Uma das cenas mais emblemáticas do livro é ver como Eve, de certa forma, era “apaixonada” por Toshiaki e se aproveitou de momentos de intimidade com ele através do corpo de Kiyomi. Assim, a mitocôndria assume a forma da mulher e praticamente estupra o protagonista para obter seu sêmen, a fim de gerar um filho que pudesse dominar o mundo. No livro, isso é explicado pelo fato de que o corpo de Eve não suportaria muito mais tempo e, de fato, ela começa a perecer antes do fim.
É até difícil imaginar quais vezes o protagonista esteve, de fato, com a esposa falecida ou com Eve, pois a vilã sempre esteve no corpo da mulher como uma só. Poderíamos ir mais longe ainda e pensar quais são as partes que nos definem de fato, uma vez que Kiyomi e Eve eram seres coexistindo no mesmo corpo — sim, dá até uma certa dor de cabeça pensar nisso tudo. Os monólogos internos da vilã pensando em Toshiaki de forma erótica são capazes de permanecer na mente do leitor por muito tempo, mas não de forma positiva.
Como se tudo isso não bastasse, existem outras coisas inusitadas na trama, como o fato de Eve sequestrar Mariko, a garota que recebeu o rim de Kiyomi, para introduzir o embrião dela e de Toshiaki, a fim de gerar o dito filho. Para isso, a vilã modifica seu corpo para criar um pênis — idêntico ao de Toshiaki, que ela “amava” — que é introduzido na vagina da menina de forma grotesca. E sim, tudo isso é bizarro e nojento, mas, se não fosse tudo tão cru, o terror dessa sequência de acontecimentos não teria qualquer peso.
O perigo habita todas as células
Talvez o maior mérito de horror de “Parasite Eve” seja fazer o leitor pensar que cada célula do nosso corpo abriga diversos parasitas — as próprias mitocôndrias. Dessa forma, ao se imaginar dentro do universo do livro (ou do jogo), percebe-se que muito possivelmente nós mesmos pereceríamos. Seja por combustão espontânea, por uma parada cardíaca ou nos transformando em uma gosma ou em uma criatura bizarra. Simplesmente não há escapatória, e isso é aterrorizante.
Dessa forma, é seguro dizer que Hideaki Sena foi o responsável por criar um novo tipo de “medo” dentro da ficção. E, caso isso soe forçado, podemos dizer também que ele “atualizou” um medo pré-existente — o das doenças e dos germes. De qualquer forma, não dá para negar o quanto esse conceito é divisor de águas em muitos aspectos.
Este é um livro que o leitor vai ou amar ou odiar, mas não há como afirmar que é ruim de qualquer forma. Desde a trama bem construída, os conceitos bem utilizados, a ficção científica coerente e sem subestimar ou superestimar a inteligência do leitor, até mesmo a narrativa humana comovente — tudo é feito de forma magistral, colocando o livro como um dos melhores do gênero já escritos até hoje.
