Nasci no ano de 2014 fruto de uma gravidez precoce de uma adolescente de 16 anos. Nunca conheci meu pai e via minha mãe raramente. Fui criado praticamente pelo meu avô materno, um homem bondoso e que sempre cuidou de mim. Minha mãe sumia de casa por dias e eu nunca soube para onde ela ia. Sempre que perguntava sobre ela, o velho suspirava antes de dar alguma desculpa.
Desde pequeno fui fascinado por computadores e internet. Com dez anos já tinha uma boa base de programação e banco de dados, com doze anos descobri que a robótica era uma área que gostava bastante. Na escola eu tinha uma grande facilidade para matemática e física, deixando muitos professores impressionados. Depois que terminei o colégio, ganhei uma bolsa para a faculdade de engenharia mecatrônica, onde achei que poderia estudar melhor sobre robôs e seguir nessa área.
E foi lá que a conheci.
Cassandra.
Ela era uma mulher tão linda, com longos cabelos marrons e olhos cor de âmbar. Sempre fui uma pessoa muito tímida e demorei um pouco para falar com ela. Queria que ela me notasse de alguma forma, e como éramos colegas, achei que sendo o melhor de todos daria certo. E assim eu o fiz. Estudava dia e noite, devorava apostilas e passava noites em claro resolvendo equações. E assim consegui chamar bastante atenção dela e então começamos a conversar e a sair. Lembro-me bem que na primeira vez que tivemos uma conversa mais longa, ela constantemente esfregava os antebraços – depois descobri que ela fazia isso ao ficar nervosa.
Na metade do segundo ano, começamos a namorar. Ela era uma mulher perfeita em todos os sentidos, bela e inteligente, além de talvez a única que fosse melhor do que eu na área.
Terminamos a faculdade na mesma época em que começamos a morar juntos. Eu havia arrumado um emprego em uma empresa e ganhava um bom dinheiro e Cassandra estava fazendo especialização em programação para robôs. Nossa vida estava bastante estruturada e feliz.
Depois de alguns meses, ela me contou que estava grávida. Demorei alguns segundos para entender o que ela disse na hora e quando caiu à ficha não pude conter algumas lágrimas.
Eu? Pai? Eu não sabia até então o que era felicidade, mas tinha descoberto.
Mas depois de um tempo, também descobri o que era desespero.
Ficou claro, pouco tempo depois, que a gravidez de Cassandra era de risco e só descobrimos tarde demais. Ela possuía uma deficiência no organismo que dificultava a absorção de nutrientes, o que era um problema antigo, mas o fato era que o feto estava consumindo o pouco que o corpo dela tinha para se desenvolver. Aos poucos, ela foi ficando cada vez mais fraca. Os médicos não sabiam dizer se ela iria sobreviver à gestação.
Fora-lhe proposto um aborto, que para ser honesto achava melhor, mas Cassandra recusou. Conversei com ela sobre a possibilidade de adotarmos uma criança, já que ela queria muito ser mãe, porém a resposta também foi negativa. Discutimos muito a respeito disso, mas ela estava disposta a levar a gravidez até o final. Sem muita alternativa, apoiei sua decisão.
Chegou então o dia do nascimento. Uma menininha saudável e forte saiu do ventre de minha mulher. Eu segurava a mão dela o tempo inteiro e ela apertavam com uma força inacreditável, apesar de estar muito fraca. Até que eu senti sua mão amolecer. Olhei em seus olhos, mas eles estavam parados e sem nenhum brilho. Várias e várias vezes tentei chamar por seu nome, mas ela simplesmente não respondia.
Cassandra morreu olhando para mim e partiu sem ver a nossa filha.
Fiquei sentado no corredor do hospital por horas e horas a fio. Meu avô estava comigo o tempo todo, mas eu simplesmente quase não notava sua presença. Quase não notava a minha própria existência. Sentia como se eu não existisse. Só me dei conta do mundo quando uma enfermeira veio me mostrar minha filha. Normalmente bebês dormem várias horas por dia, ainda mais recém nascidos, mas a minha filha estava acordada. Ela ostentava lindos olhos cor de safira. Percebi que foi a primeira criança que eu havia pegado no colo na minha vida inteira. Um instinto me guiava e nenhum medo senti de fazê-lo.
Minha filha adormeceu lentamente em meus braços instantes depois. Sentia seu coração batendo em meu peito.
Cassandra… Minha amada Cassandra havia morrido para dar a luz aquela criança. Percebi o quanto a nossa filha era importante para ela. Eu havia perdido o meu motivo para viver, mas eu ganhei um novo. Beijei a testa de minha filha com lágrimas tímidas escorrendo o rosto e lhe prometi que seria o melhor pai do mundo. Nada lhe deixaria faltar e a protegeria de todo mal.
O velho perguntou qual nome eu daria para aquela criança e eu não sabia ao certo. Não tinha talento para dar nomes nem mesmo para animais de estimação, ainda mais para uma filha. Pensei por alguns segundos. Lembrei dos olhos dela. Tinha os mesmos cílios e formato que o da mãe, apesar da cor diferente. Cassandra era meu único motivo para viver. Eu havia perdido e ganhado um motivo para viver. Sorri para minha filha.
– Minha filha terá o nome da mãe. Seu nome será Cassandra – meu avô me olhou intrigado, mas depois estampou um sorriso quente no rosto.
– É um bom nome – respondeu.
Sim, era um ótimo nome. Era o nome que fazia a minha existência ter algum sentido. Não teria lógica por outro nome em minha filha. Esse era o nome perfeito. O próprio som me trazia aconchego.
O tempo me ensinou a ser pai, e ao mesmo tempo uma mãe, já que eu devia ser os dois para minha filha. Meu avô vinha me visitar sempre, e cuidava de Cassandra quando ia trabalhar, mas no fundo era só eu e eu mesmo cuidando com ternura de minha filha. O simples fato de observá-la dormindo, em paz, enchia meus olhos de lagrimas. Queria tanto que minha amada estivesse ali para ver a criança maravilhosa que ela deu a luz.
O tempo passou rápido e eu acompanhava o crescimento de Cassandra com carinho, mas não pude deixar de notar certas coisas.
A primeira delas era o cabelo. Ele fazia certas ondulações enquanto crescia, se assemelhando quase que identicamente ao da mãe. Depois foram os olhos. Aos poucos, das azuis íris de bebês, se tornou um castanho amendoados, também idênticos aos de Cassandra.
Já era o quarto aniversario de minha filha. Cada dia que passava, eu começava a sentir medo.
Cassandra não era o tipo de criança birrenta, impulsiva ou que gostasse de brincar. Ela era uma criança quieta e que gostava de coisas diferentes, como ficar olhando figuras de livros didáticos – procurava deixá-la longe de telas sempre que possível. O jeito que ela se sentava no sofá ou na mesa era quase que a replica de minha finada esposa, sem mencionar o fato de que ela aprendeu a ler por conta própria, assim como Cassandra havia me contado que fez quando criança.
No quinto aniversario, Cassandra tomou para si um costume peculiar: o de coçar os antebraços quando ficava nervosa. Era como se eu estivesse olhando para o passado de alguma forma. Algo dentro de mim gritava sem nenhum motivo. Era como se um impulso me dissesse que aquela criança não era minha filha, e sim a minha finada esposa. Essa mesma coisa que berrava em meu âmago, me fazia suar e ter palpitações em meu peito.
O que eu estava pensando? Era só uma menina de oito anos de idade! Era muito parecida com a mãe, mas isso é normal! Deus do céu, eu estava ficando louco. Algo dentro de mim dizia que isso era o certo, mas ainda sim era só a minha filha, e não a minha esposa. Não sei por que eu comecei a notar isso logo na epigênise de sua infância, talvez não estivesse com esse fantasma em meus sonhos.
Parte de mim começou a sentir medo também de minha filha e não dos fatos estranhos que a circundavam.
Passou-se algum tempo e Cassandra já estava alfabetizada, como havia dito, e tinha um ótimo habito de ler, embora não fosse tão boa aluna na escola. Outro fato era que ela tinha alguns problemas para se relacionar com os coleguinhas, tanto que seus professores contavam que ela sempre estava sozinha com algum livro ou escrevendo. Ela gostava de papel mais do que da tela de um celular.
Certa noite cheguei tarde e encontrei Cassandra ainda acordada. Resolvi ir até seu quarto para lhe dar um beijo de boa noite, embora estive com aquele receio de ir até seu quarto. Minha filha estava escrevendo algo em um pequeno caderno roxo, da qual eu nunca havia visto.
– Filha, você já não deveria estar dormindo?
– Sim, mas eu não consigo dormir – eu me aproximei e me sentei na cama.
Cassandra continuou escrevendo enquanto eu acariciava seus cabelos.
– O que você tanto escreve?
– Um diário.
– Ah é? E o que você escreve nele?
Ela hesitou por um momento antes de responder.
– Eu escrevo todas as coisas, todos os sonhos que um dia eu quero realizar.
– E eu poderia saber o que essas coisas são?
– Não – disse de forma seca.
– E por que não?
– É igual ao jogo do osso do peito de frango. Se alguém souber, eu nunca vou conseguir realizá-los – Cassandra respondeu um pouco nervosa.
– E quem lhe disse isso?
– Eu li em algum lugar – dizendo isso ela fechou o seu diário.
Vendo que aquela conversa não iria para frente, como quase todas, eu me levantei e lhe dei um beijo na testa enquanto ela se ajeitava debaixo das cobertas.
Eu havia uma filha espetacular. Mas eu não sabia disso até aquele dia.
Recebi uma ligação dizendo que Cassandra havia passado mal na escola e estava no hospital. Fui correndo até o local e lá recebi um golpe devastador na boca do estomago. Cassandra, minha filha, estava com uma doença degenerativa que prejudicava sua absorção de nutrientes – a mesma de sua mãe, mas extremamente mais agressiva.
Dinheiro para o tratamento não era problema para mim, mas em pouco tempo, se revelou que isso não adiantava de nada. Assisti minha filha perder os cabelos e ir definhando aos poucos. Não havia nenhum milagre que a curasse desse mal.
Como a vida era irônica. Cassandra era semelhante à mãe, tanto quando era saudável e forte, quanto em sua hora de partir. Realmente, eu não sabia se via minha filha ou minha esposa.
Era o aniversario de treze anos dele. Eu estava acompanhado de meu avô no leito de Cassandra. Ela não tinha mais nenhum daqueles maravilhosos cabelos e seus lábios estavam secos e pálidos. Agarrei a sua mão e ela olhou em meus olhos. Eles estavam distantes e vazios, como se não tivesse sentimento nenhum. Mantive-me olhando mesmo depois de sua morte. Não sabia mais quanto tempo. Poderiam ter sido horas, ou alguns segundos, mas isso não importava.
Os dias se passaram sem que eu percebesse. Minha cabeça parecia que estava flutuando acima de meu corpo. O álcool e o tabaco se tornaram meus companheiros de refeição – e de tudo. Parecia que todas as coisas que eu fazia era só por fazer, no modo mais automático possível. Eu estava sozinho na imensidão do mundo. Não sabia mais dizer do que era a minha existência. Eu era apenas mais um pedaço de carne do que uma pessoa.
Fazia três meses que ela se foi, e eu já tinha adquirido a arma e a munição. Estava carregando bala por bala no tambor e sentei-me na cama de minha filha. Decidi morrer no mesmo lugar que a minha razão de existir partiu. Fechei o revolver e o posicionei em minha cabeça.
Estava pronto para atirar. Eu queria atirar.
Então abri meus olhos e olhei debaixo do travesseiro. Estava ali o diário de minha filha. Um suspiro me correu o peito quando minha mão se moveu até aquele caderno de capa roxa.
“Aqui eu escrevo os meus sonhos.”
“Se alguém souber, eu não vou realizá-los.”
A visão do caderno fechado se foi para a minha mão que segurava o revolver. Eu estava olhando para meu anel de formatura.
Por um momento não queria mais atirar. Lembrei-me de uma pequena fagulha do que eu poderia ser.
Puxei de minha memória um projeto que eu e Cassandra fizemos no último semestre da faculdade. Ela havia programado um algoritmo com inteligência artificial que era capaz de praticamente emular um cérebro humano e eu havia desenvolvido mecanismos que iriam sintetizar quase que perfeitamente os movimentos de uma pessoa. Em resumo, juntando as duas partes, poderia se criar um robô quase que com as mesmas funções emocionais humanas. Não levamos o projeto adiante, pois isso nos custaria muito dinheiro e tempo.
Mas agora eu tinha os dois. Eu ainda tinha todo aquele projeto arquivado, então tomei uma decisão. Os desejos e sonhos de Cassandra não ficariam limitados a aquele diário. Eles seriam realizados, mas não por mim, e sim pela própria Cassandra.
Comecei a dormir apenas cinco horas por dia. Trabalhava quase o tempo todo em minha oficina. Como eu havia me tornado um dos acionistas da empresa, não era sempre que era necessária minha presença, por isso dispunha de bastante tempo livre. Também passava horas e horas no computador, reprogramando o algoritmo que seria a base para o cérebro do robô. Quando eu lia as anotações de minha esposa, ia me lembrando o quanto ela era genial. Talvez eu fosse melhor que ela na parte mecânica, mas eu nunca seria melhor que ela na parte da programação. O que ela havia criado era incrível. Eu estava apenas refazendo o seu raciocínio.
Os primeiros testes me animaram. Cassandra andava quase como se fosse um ser humano normal e os sensores dela respondiam perfeitamente bem. Ela tinha a capacidade de aprender e misturar os conhecimentos adquiridos e juntá-los aos que eu programei. Até mesmo a programei para que ela pudesse cuidar sozinha de sua bateria, além de conseguir associar os conhecimentos com imagens e sons.
O ápice de meu trabalho foi quando ela se revelou que também conseguia formular frases curtas e complexas, dependendo do que ela ouviu por último ou do que ela conseguirá ver ou ler. Ela era quase um ser humano perfeito. Conseguia até mesmo interpretar toda a informação recebida.
O meu trabalho estava quase completo. Eu só precisava com que Cassandra lesse seu diário para então começar a caminhada de seus sonhos. E assim ela o fez.
Estava mais orgulhoso de Cassandra do que de mim mesmo. Ela era simplesmente perfeita e maravilhosa. Era a minha filha que eu via ali, e não uma máquina.
Conversei com o diretor da antiga escola de Cassandra, e contei o que eu havia feito. Eu pedi permissão para que ela pudesse “voltar” a frequentar a escola para fins científicos e ele concordou – provavelmente mais pelo interesse de ser a primeira escola a ter um robô do que por qualquer coisa. No entanto indagou várias vezes se ela oferecia algum perigo para as crianças. Hesitei antes de responder, pois no fundo achava que as crianças ofereciam mais perigo para Cassandra do que ela para os alunos.
O fato é achou interessante a historia e pensou que fosse uma experiência nova para os alunos, um passo para o futuro. Sem dúvida, era um homem visionário.
Cassandra era tão perfeita que ela conseguira aprender o caminho da escola, processar a lição dada em aula e até mesmo fazer seu dever de casa por conta própria.
Mas então comecei a perceber certas coisas.
A primeira delas foi que ela começou a lavar as próprias roupas. Pelo fato dela não suar nem produzir algum tipo de oleosidade, lavar roupas era somente se ela havia se sujado com algo externo, o que não era o caso…
Ou será que me enganei?
Outra coisa que comecei a notar era sua voz. Ela falava naturalmente com pausas, mas era diferente, pois começou a falar lentamente, e com um tom cada vez mais grave, como se quisesse tranquilizar alguém. E não foi só isso. Cassandra também começou a demonstrar interesse um pouco estranho, quase como se fosse medo, ódio ou aversão a certas coisas, como cachorros, fogo, algumas frutas como ameixa e manga. E o mais intrigante: excrementos.
Esses fatos começaram a me preocupar um pouco. Talvez sua programação estivesse com algum bug ou eu tivesse me esquecido de alguma coisa em seu algoritmo, mas não tinha certeza. O que também pensei foi que talvez pelo fato dela conseguir adquirir informações, ela talvez estivesse associando tudo de maneira errada.
Mas descobri o que estava acontecendo.
Havia saído para resolver um problema na empresa e informei a Cassandra que meu avô iria vir nos visitar, portanto era para ela deixá-lo entrar.
Quando cheguei em casa, perto das dez horas da noite, vi uma cena terrível.
O velho estava deitado em uma poça de sangue grosso no chão da sala. Eu conseguia ver um buraco de bala em seu crânio.
Depois disso, eu ouvia um leve rangido de metal. Cassandra subia as escadas de minha oficina pessoal, onde havia a construído, segurando o mesmo revólver que adquiri para o suicídio. Ela tinha passos lentos e sua visão era para o cadáver de meu avô. Suas roupas estavam respingadas de sangue.
– Cassandra…
– Papai – respondeu a voz emulada.
– O que aconteceu?
– O biso morreu, papai.
– Por que você fez isso? –
– Esse é o meu sonho, papai. Eu estou os realizando.
Cassandra levemente me apontou o revolver e por pouco não acertou minha cabeça. Corri pela sala, enquanto desviava de outro tiro.
A minha primeira reação foi saltar para dentro de seu quarto e me trancar lá dentro. Ela começou a esmurrar a porta a socos e pontapés. Empurrei a estante do quarto para a porta, fazendo-a resistir aos poderosos golpes.
– Não se esconda, papai.
Eu estava aos prantos em posição fetal no chão. Os murros na porta continuaram por algumas horas, mas não ousei tentar sair depois que parei de ouvi-los.
Eu tremia. Não entendi o que aconteceu. Cassandra matou meu avô e disse que estava realizando seus sonhos!
A minha visão voltou novamente para a cama. O diário dela estava ali. Dessa vez, com um pouco de resistência, o apanhei e abri. Cassandra só havia escrito uma única pagina que li. Com um nó na garganta, comecei a ler.
“Eu aprendi a lidar com a solidão, mas ninguém me deixa em paz. Dizem que eu engulo merda, que eu pareço um cachorro. Chegaram até mesmo a usar fogo para machucar a sola de meus pés e cuspiram frutas em mim. Ninguém sabe disso, nem mesmo meu pai não sabe de nada, mas como ele saberia? Ele nunca está por perto e tenho pesadelos desde que ele fez aquilo comigo… Na época, eu não sabia como se chamava, mas hoje sei. Aquilo se chamava sêmen e eu ainda posso sentir o dele me sujando. Pensei em contar para meu biso, mas ele me odeia e me bate sempre que estamos sozinhos. Ele diz que por minha causa minha mãe morreu e ninguém o satisfazia tão bem quanto ela. Será que não sou filha dele? Nem sei mais o que sou, mas sei o que quero fazer. Quero fazê-los sofrer. Quero que eles sintam o que eu senti. Talvez eu devesse ter morrido junto com a vadia da minha mãe. Mas todos eles vão pagar. Serei eu mesma o tempo inteiro quando tiver minha vingança. Farei sozinha e ninguém saberá de nada, a não ser eles. Serei perfeita quando fizer. Mas eles vão todos morrer.”
As paginas seguintes estavam escritos com as palavras “ELES VÃO TODOS MORRER”. Havia fotos de vários colegas de escola dela coladas nas páginas, desenhadas com cenas de mortes e torturas atrás das mesmas. Parecia até um grimório de magia.
Em meus delírios de fome e sede, minha mente vacila em devaneios. Dizem que um homem sabe que encontrou a mulher perfeita quando ele vê em seu rosto um anjo, mas tem as sensações que se teria com um demônio. Eu via isso nelas. Sentia como se uma súcubo me satisfizesse. E também sentia como se uma águia bicasse o meu fígado.
Eu ouvi o tempo todo apenas um monstro que batia na porta do quarto. Já agonizo há cinco dias dentro deste quarto, sem poder sair. Todas minhas tentativas de fuga foram frustradas por Cassandra. Ela mostrou que tinha força suficiente para erguer a geladeira da cozinha, então acho que ela não arrombou a porta de propósito. Eu havia criado aquele monstro. Talvez porque eu mesmo seja um.
Tudo fazia sentido.
Ela estava matando a todos, porque todos haviam a matado.
Minha vida se esvaia aos poucos de meu corpo, mas eu sentia que eu não iria encontrá-las do outro lado. Talvez nenhuma delas merecia isso.
…
Nota do autor: escrevi este conto em 2015, um ano depois de terminar o Ensino Médio. Naquele tempo, eu mantinha um blog chamado “Oficina dos Horrores” no qual eu publicava minhas histórias de terror autorais. O presente conto, por algum motivo que não entendo, foi o que os meus poucos leitores mais apreciaram. Eu mandei para o Cristiano William quando ainda estávamos na faculdade e ele chegou a mostrar para outras pessoas, que também gostaram. Quando tivemos a ideia de fazer uma aba de contos ficcionais aqui no Cova Aberta, ele relembrou deste conto e sugeriu que eu publicasse aqui. Admito que no início fui resistente a essa ideia, pois achava esse conto um pouco “juvenil demais”. Eu até mesmo tentei, durante a pandemia, “reescrever” ele, mas não deu muito certo. Relendo ele agora, é de se notar que foi escrito por um adolescente. Aliás, quando o filme “M3gan” foi lançado, foi o próprio Cristiano que disse que a premissa lembrava “Cassandra” – ele e mais três pessoas, na verdade… Bom, o fato é que acabei cedendo e aqui está. Não queria mexer demais nesse texto, mas fui obrigado a fazer isso para pelo menos polir um pouquinho. Esse conto tem uma continuação, inclusive. E quem sabe eu não publique, vez ou outra, esses meus contos de juventude. Por mais que eu prefira meu trabalho atual, talvez o “Velho Testamento” do meu trabalho tenha algum valor que eu como autor não consiga enxergar.
