Não é novidade para ninguém que existem muitos podres na indústria cinematográfica. Porém, durante as primeiras décadas do cinema, a imagem vendida para o grande público era completamente diferente. As celebridades eram sempre apresentadas ao público como os maiores exemplos morais que existiam na época. Além disso, o glamour e o dinheiro correndo soltos trouxeram uma ideia de vida dos sonhos que as grandes celebridades viviam.
Com o passar dos anos, diversos escândalos e histórias controversas começaram a aparecer na mídia a respeito de diversos artistas, diretores e produtores de Hollywood. Assim, aos poucos, a imagem idealizada que se tinha começou a se modificar. Porém, houve um livro que condensou tudo isso e acabou sendo um marco na cultura popular por trazer histórias de bastidores envolvendo diversas estrelas das primeiras décadas do século XX. Mas, ao mesmo tempo, a obra também foi muito criticada devido à imprecisão e à conduta antiética para com diversas pessoas já falecidas. Independentemente do motivo, o tomo não passou despercebido.
Sobre o livro e o autor
Hollywood Babylon, de Kenneth Anger, é um dos livros mais controversos sobre a indústria cinematográfica já publicados. Lançado originalmente em 1959, em Paris, sob o título Hollywood Babylone, ele se propõe a revelar os escândalos, excessos e tragédias de estrelas e figuras de Hollywood do início do século XX até a década de 1950 — cobrindo temas como escândalos sexuais, mortes trágicas, vícios e conspirações envolvendo ícones. A obra inclui descrições gráficas e fotos chocantes de cenas de acidentes e suicídios, rompendo com a imagem de glamour preservada pelos estúdios e atraindo leitores pela crueza e pelo sensacionalismo de suas narrativas.
A recepção crítica, porém, foi polarizada desde o início. Nos Estados Unidos, o livro foi banido poucos dias após sua publicação, em 1965, por medo de difamação e obscenidade, e só voltou a circular amplamente em 1975. Historiadores, jornalistas e especialistas em Hollywood acusaram Anger de priorizar boatos sensacionalistas e rumores não verificados em vez de fatos rigorosamente comprovados, com muitos episódios sendo desmentidos por pesquisadores ou considerados lendas urbanas. Críticos também apontam que o autor, vindo do cinema underground e não do jornalismo, misturou especulação com narrativa ficcional e explorou tragédias reais de forma que muitos consideram antiética, especialmente por difamar figuras já falecidas.
Apesar dessas críticas, Hollywood Babylon exerceu grande influência cultural. Para muitos, o livro foi um dos primeiros a derrubar os estereótipos dourados de Hollywood, mostrando o lado obscuro da “Fábrica dos Sonhos” e desafiando o controle que estúdios e relações públicas tinham sobre a imagem pública das celebridades. Sua mistura de glamour, decadência e rumor ajudou a moldar o gênero de narrativa de fofocas e “escândalos de bastidores” que hoje é comum na mídia, antecipando a cultura de celebridades que busca histórias chocantes sobre a vida privada dos famosos.
Kenneth Anger foi um cineasta experimental, escritor e artista visual norte-americano, nascido Kenneth Anglemyer em 3 de fevereiro de 1927, em Santa Monica, Califórnia, e falecido em 11 de maio de 2023, aos 96 anos. Ele é considerado um dos pioneiros do cinema underground e experimental, especialmente por sua abordagem transgressiva e inovadora, que incorporava temas homoeróticos, ocultismo e subculturas — elementos que estavam muito à frente de seu tempo e frequentemente desafiavam normas sociais e cinematográficas. Anger começou a fazer filmes ainda jovem; seu curta Fireworks (1947) é lembrado como uma das primeiras narrativas cinematográficas gays dos Estados Unidos, mesclando experiências pessoais com linguagem visual radical, o que lhe rendeu atenção internacional e até processos por obscenidade, posteriormente revertidos em tribunal.
Seus filmes frequentemente exploravam a mitologia pessoal, o simbolismo ritualístico e a sexualidade, influenciados pela filosofia ocultista de Aleister Crowley e pela religião Thelema, que Anger praticava; ele mesmo disse que “fazer um filme é lançar um feitiço”. Trabalhos como Invocation of My Demon Brother (1969) e Lucifer Rising (1972) incorporam imagens de rituais, figuras simbólicas e estética ritualística, refletindo tanto sua ligação com o oculto quanto sua disposição para romper com convenções narrativas tradicionais.

Antes das fofocas, algumas considerações
Como dito acima, existem diversas críticas a respeito dos fatos relatados no livro, principalmente quanto à falta de provas do autor em relação a diversos fatos. É notório como a escrita do autor é carregada de um tom agressivo e ressentido, sendo possível sentir sua indignação em cada palavra. As críticas contra esse livro não são vagas ou infundadas e se nota isso ao lê-lo. De fato, na maioria dos momentos, o autor Kenneth Anger parece ter reunido uma série de boatos e fofocas que ouviu ao longo da vida e compilou em alguns capítulos. Porém, alguns desses rumores com certeza chegaram até ele com diversos filtros e distorções, uma vez que seus relatos são bastante vagos.
Como se isso não fosse o suficiente para vermos esses relatos com ressalvas, ainda existe o fato de que algumas das histórias aconteceram anos antes de ele nascer, então ele não teria como ter testemunhado muitos dos acontecimentos. Por isso, apesar de serem histórias interessantes de se conhecer, não dá para ter total confiança de que as coisas aconteceram daquela forma.
Outro ponto a se considerar é o fato de o autor, apesar de ser alguém com alguma experiência de bastidores de Hollywood, fornecer um compilado de informações ou vagas demais, ou que eram acessíveis a qualquer um. Em outras palavras, “Hollywood Babylon” é um amontoado de fofocas, acompanhadas de fotografias escatológicas, com algumas informações de bastidores nas quais não dá para ter qualquer confiança ou confirmação.
Mas isso invalida sua leitura? Por incrível que pareça, de modo algum. Para começar, o valor histórico desse livro já é interessante por si só, e isso vale a leitura. Além disso, é interessante observar que devemos manter em mente o contexto de sua publicação: de forma quase clandestina, longe de seu país de origem. Assim, para a época, seu impacto e sua mística tiveram alguma relevância e, como curiosidade sobre o passado, é interessante.
Contudo, de forma alguma “Hollywood Babylon” deve ser encarado como um material de pesquisa ou de conhecimento sobre a história do cinema. Certamente pode servir para atiçar a curiosidade de muitos, mas de forma alguma pode ser visto como verdade. Além disso, para um público estrangeiro mais amplo, nos dias de hoje, algumas das figuras apontadas pelo autor caducaram, e nem todos lembram ou sabem quem foram. E talvez esse seja outro mérito desse livro: manter viva a lembrança de algumas pessoas — mesmo que não pelas razões corretas.

Foto: Reprodução
As fofocas
Logo no início, Anger expõe que o primeiro escândalo de Hollywood surgiu ainda em 1920, na era do cinema mudo, com o suicídio de Olive Thomas, que foi encontrada morta por envenenamento em um hotel em Paris. Segundo o que o autor afirma, ela se matou após falhar em obter uma grande quantidade de heroína para seu marido, Jack Pickford, também ator da época. Os rumores chegaram primeiro aos tabloides parisienses e logo pararam na imprensa norte-americana; Pickford estaria passando por tratamento por conta de um colapso nervoso.
Ainda de acordo com Anger, o suicídio de Olive Thomas serviu como uma espécie de divisor de águas na forma como a sociedade via o glamour de Hollywood. Isto é: a atriz era vista como um modelo de moralidade para a sociedade da época, mas o escândalo mostrou o quanto havia de controvérsias no mundo do cinema. Contudo, é válido destacar que toda a narrativa do autor é bastante rasa, e ele não apresenta um desenvolvimento maior dessa história, soando quase como uma “fofoca”.
Em seguida, o autor cita o caso da morte de Virginia Rappe, ocorrida um ano após a de Olive Thomas. Ela teria morrido em decorrência de um estupro cometido pelo astro de filmes de comédia Roscoe “Fatty” Arbuckle em uma festa luxuosa promovida por ele próprio. Porém, exames e testemunhas teriam afirmado que, devido à impotência dele, ele teria introduzido uma garrafa de vidro na vagina de Virginia, o que acabou causando uma lesão em sua bexiga que acarretou complicações que levaram à sua morte — uma peritonite, para ser mais exato nas palavras do autor. Outras informações de jornais da época também afirmam que a mulher teria sido sedada antes com algum tipo de droga. Segundo Anger, a imprensa da época noticiou o caso citando a “festa da garrafa”, não poupando esforços em criar sensacionalismo em cima do ocorrido.
“Fatty”, um astro da comédia do cinema mudo, conhecido como “Príncipe das Baleias”, acabou se envolvendo em um longo e tortuoso julgamento, tendo sido preso de forma preventiva. Após três julgamentos, ele acabou sendo inocentado por falta de provas. Porém, sua carreira nunca se recuperou após o escândalo. Muitos lugares se recusavam a exibir seus filmes, o que o colocou em ostracismo. Além disso, ele foi obrigado a gastar grande parte do dinheiro que ganhou ao longo da carreira com advogados, o que o colocou em uma situação financeira complicada. Ele passou o resto de sua vida convivendo com o alcoolismo e morreu em 1933, aos 46 anos. Muitos de seus filmes são considerados lost media atualmente.
Quando alguns escândalos começaram a surgir, Anger afirma que algumas medidas foram tomadas para limpar a imagem de Hollywood e dos grandes estúdios da época, principalmente no tocante às relações públicas. Porém, ele ainda diz que isso não resolveu o problema, pois nos bastidores ainda havia excessos e depravações. O autor também destaca que o crescente mercado de tráfico de drogas encontrou um terreno fértil entre os grandes nomes do cinema da época.
De uma forma bastante sensacionalista, o autor também fala a respeito das “Heroínas da Heroína”, que foram algumas mulheres, ainda na era do cinema mudo, que tiveram problemas com drogas. E nem mesmo o lendário Charlie Chaplin fugiu dos comentários de Anger, mas, no caso dele, o escritor fala a respeito da predileção do comediante por mulheres muito jovens — suas “nymphs”, como ele diz. Também é dito que a vida privada de Chaplin sempre foi um tema de especulação. Nos anos 1920, Chaplin teria se casado, aos 35 anos, com uma menina de 16 anos, que já estava grávida dele, chamada Lilita McMurray. O casamento terminou dois anos depois, após um processo conturbado de divórcio que teria arrancado muito dinheiro e credibilidade do comediante.
Em dado momento, Anger faz diversas críticas ao fato de que astros de Hollywood das primeiras décadas do século XX estavam se tornando excessivamente efeminados. Ele aponta que esse fenômeno não era exclusivo dos Estados Unidos, pois também era observado na Europa, com “dançarinos e gigolôs” em cidades como Londres e Paris. O autor ainda chega a questionar, de forma quase irônica, se as mulheres realmente gostavam de homens que passam cosméticos. Com bastante ironia, o autor diz que vai chegar o ponto em que muitos homens vão abandonar as lâminas de barbear por não serem seguras e adotar práticas de depilação facial. Além disso, Anger segue ironizando ao afirmar que é melhor chegarmos logo a uma era de matriarcado do que continuar assim, pois “é melhor ser comandado por mulheres masculinas do que por homens femininos”. Ainda por cima, ele se mostra indignado com o processo de efeminação dos homens disfarçado de um discurso de pacifismo, quando, em sua visão, são coisas distintas. Não dá para ter certeza se Anger acreditava ou não nisso tudo, uma vez que seu trabalho cinematográfico aborda muito o mundo queer, mas independente disso, são palavras bastante duras.
Uma das maiores polêmicas envolveu o nome de Mae West devido aos seus filmes provocantes. Em 1933, chegou a ser formada uma liga católica composta por fiéis e sacerdotes para “combater a depravação das películas”, em especial das estreladas pela atriz. Chegou a ser lançada uma lista de itens que deveriam ser observados nos filmes. Porém, é possível observar que o autor se torna bastante parcial nesse tema, uma vez que descreve a atitude da Igreja como uma “monstruosidade” e tende a “passar pano” para Mae West. Ele ainda aponta que, ao contrário de seus filmes, a vida privada da atriz era discreta e que ela esperava que todos respeitassem sua privacidade. Contudo, chama atenção como o tema da moralidade é um assunto bastante antigo dentro da indústria do cinema.
Outra grande polêmica levantada pelo autor envolve a morte da atriz Thelma Todd, em 1935. Ela foi encontrada morta em seu carro, e a causa foi apontada como intoxicação por monóxido de carbono, possivelmente causada de forma acidental, por ela estar tentando se aquecer. Porém, Anger afirma que havia diversas evidências que apontavam que ela poderia ter sido assassinada, provavelmente por um assassino profissional a mando de um mafioso chamado Lucky Luciano. Ela teria tido um relacionamento abusivo com ele, e o motivo do crime seria o fato de ela não ter permitido que ele abrisse um cassino em um café de sua propriedade. Contudo, até hoje nada foi provado, e o próprio autor admite isso.
O autor finaliza o livro comentando sobre os anos 1960 em Hollywood, os quais ele considera já como um segundo momento da história, uma vez que quase todos da velha guarda estavam mortos, aposentados ou muito velhos. Além disso, com a popularização da televisão, as mudanças na forma de consumo de mídia audiovisual também se intensificaram. Ele comenta rapidamente sobre o suicídio de Marilyn Monroe e o assassinato de Sharon Tate pela Família Manson. Porém, como Anger já considera a década um segundo momento, ele não tenta vincular esses casos a outros expostos ao longo do livro.
Nas últimas páginas, o autor pesa a mão não apenas em suas palavras, mas também nas fotografias escolhidas para ilustrar a obra. Aliás, esse livro conta com uma quantidade enorme de fotos, fazendo com que o texto em si seja menor do que aparenta pelas mais de 400 páginas. Anger não teve qualquer pudor em expor imagens do corpo de Marilyn Monroe, por exemplo, além de takes de películas mais eróticas ou fotos de outros personagens mencionados no livro já mortos. É interessante notar que, apesar de históricas, tais imagens mais escatológicas não agregam tanto ao livro, podendo ser interpretadas como sensacionalismo por parte do autor. Essa parte depende um pouco da tolerância de cada leitor.

Ontem, hoje e sempre será assim.
Ganham com fofocas, com crimes e deslealdade.
Podemos ver maus exemplos na política, aqui em no mundo.
Todo escondido, até que aparecem algumas pontas para investigação, ahí quando a polícia descobre que dão peixes grande, muda o sistema para uma negociação e que termine todo aqui.
O mundo está cada dia pior!…