Dannielle

Os passos curtos de Dannielle podiam ser escutados de longe. Ninguém ousava desrespeitar a professora, embora todos duvidassem que ela fosse tomar alguma atitude caso isso acontecesse.

Seu rosto parecia uma estatua perfeitamente esculpida. Seus olhos eram como duas miçangas negras. Seu cabelo era curto e tingido de roxo, o que a dava a aparência de uma boneca de porcelana. Sua voz era alta e muito bem impostada, mas seus lábios mal se mexiam para falar, fora que ela praticamente não expressava emoções faciais ou corporais. E o que a deixava ainda mais bizarra era sua beleza. Uma mulher muito elegante, com um corpo esguio e gostava de se vestir à moda retrô, apesar do cabelo roxo.

Todos os professores têm apelidos maldosos dados pelos alunos. A arrogância dos jovens é achar que os mais velhos não passaram pela mesma fase e que ninguém sabe de nada além dos mesmos. Os apelidos de Dannielle eram muitos: “Canastrona”, “Estatua”, “Doméstica”, dentre outros. Mas foi quando Cristina chegou à escola que teve o apelido que mais pegou.

Nada assustou e fascinou mais Cristina em seu primeiro dia de aula do que Dannielle. Primeiro no corredor, com seus passos elegantes e depois adentrando a sala de aula. No momento em que ela viu aquele rosto lindo e completamente sem expressão, suas emoções evocaram ao mesmo tempo o prazer da catarse e a melancolia de uma tragédia. Todos ali a achavam uma mulher estranha, nada mais do que isso. Mas Cristina não confiava naqueles olhos negros.

Depois de muitas paranoias passando em sua cabeça, Cristina achou que estivesse exagerando quanto a sua professora. Talvez fosse só coisa de sua imaginação e precisava dar uma chance a si mesma e ao novo ambiente.

Seu novos colegas perceberam o interesse da novata para com a professora, uma vez que Cristina parecia entrar em transe quando a via desfilando pelos corredores. Quando lhe perguntaram o que achava da mulher, ela disse – quase sem querer – que Dannielle parecia uma “mulher-robô”. Não foi necessário mais nada para que o apelido se espalhasse.

Na semana seguinte – quando as aulas começaram de fato –, Cristina estava aflita pelas lições de física. Não tinha nenhuma aptidão em nada que envolvesse cálculos, e ainda mais com uma professora como a Mulher-Robô dando aula. As perspectivas de seu desempenho eram uma completa incógnita. Mas achou que estivesse exagerando de novo.

A primeira coisa que a menina percebeu quanto as aulas de Dannielle era que bastava sua presença para que todos se aquietassem. A autoridade que ela exercia sobre os alunos era algo nunca antes visto por Cristina. Ninguém ousava falar nada, embora ninguém estivesse de fato interessado na aula. Os movimentos da professora pela sala eram graciosos como os de uma bailarina. Tinha passos curtos e rápidos, além um tanto barulhentos por conta de seu salto baixo.

Cristina lia os exercícios de revisão e tentava resolver no caderno, mas o silêncio era muito mais desagradável do que a balbúrdia das outras aulas. Constantemente, ela sentia aquele desejo incontrolável de encarar a professora, sem nenhum motivo, mas não tinha coragem. Ousava dar leves olhadas para seus pés ou para seu cabelo, mas nada além disso. Era como olhar diretamente para o Sol.

Naquele primeiro dia, já se passava de dois períodos consecutivos de física e Dannielle não passou mais do que dez exercícios de revisão. Cristina mal conseguiu resolver a metade e tudo isso pareceu passar uma eternidade. Quando a professora deixou a sala, a menina sentiu como se tivesse saído um peso de seu peito. Todo mundo voltou a falar e o murmurinho não parou até o final da jornada escolar diária.

Mas então vinham as aulas de física dias depois e elas traziam à tona o silêncio dos alunos e os passos curtos da professora. O pior de tudo é que Cristina não conseguia se concentrar nas atividades, pois passava os períodos tensa. Suas mãos suavam a ponto de não conseguir segurar a caneta e seus dedos escorregar pela tela do tablet – além do desejo insano de encarar. Ela precisava olhar bem fundo no rosto daquela mulher e extrair todos os mistérios que se escondiam por detrás daquele ser.

As oportunidades para isso vinham na hora das explicações, mas Cristina nunca conseguiu arrancar nenhuma resposta. Parecia que ela estava olhando para uma fotografia para tentar achar evidencias de um fantasma e, quando encontrasse, gritaria de susto.

Mas o que Cristina estava procurando tanto em Dannielle? Não demorou muito para ela se dar conta do quê.

A menina estava sentada no corredor da escola. Sua professora de português estava doente e não havia substituto, portanto os alunos puderam ficar livres. Ela não queria conversar com os colegas ou ser secada pelos meninos, então decidiu passar algum tempo sozinha. Colocou os fones de ouvido, mas não ouviu nenhuma música ou podcast, pois queria apenas um pouco de silêncio.

E então sentiu a vibração inconfundível daqueles passos curtos no chão. Apoiou o queixo nos joelhos e esperou. A professora de física estava se aproximando. Colocou desesperadamente uma música, pois aquele silêncio acompanhado do caminhar de Dannielle a enlouqueceria.

Cristina observou a mulher de longe. Ela havia sido abordada por outra professora, que a menina acreditava dar aula somente para os terceiros anos. As duas conversaram por cerca de dois minutos e não era uma conversa profissional, mas a expressão de Dannielle continuava morta e inexistente.

Não era possível ouvir sobre o que elas falavam e no final da conversa, Dannielle soltou uma risada. Os pelos do corpo da menina se arrepiaram e seu sangue gelou. Dante o descrevera de forma equivocada as três faces de Lúcifer, pois o anjo caído havia apenas uma e era o da Mulher-Robô durante uma gargalhada. Uma face bela e completamente sem emoção, seus olhos de miçanga continuavam frios, mas com aquele sorriso escancarado e a risada histérica…

Os monstros de Cristina agora tinham uma face.

Memórias voltaram na mente da menina na mesma hora. Ela já tinha visto aquela mesma risada antes. Era exatamente do mesmo jeito: o resto do rosto mal tinha expressão, mas o sorriso e a voz eram escandalosos, quase forçados. Algum tempo depois, três de seus colegas sumiram, um por um, e foram encontrados mutilados em latas de lixo. Depois a mesma autora daquela risada matara mais dois homens, sendo um deles o seu “pai”.

Ela já havia visto aquela mesma risada em Cassandra!

Várias coisas eram semelhantes entre Dannielle e aquela coisa que fora “colega” de Cristina, mas só estava se dando conta disso agora. O jeito de andar com passos curtos e rápidos, como se fosse para não perder o equilíbrio, era uma delas. A expressão facial morta, os traços simétricos do rosto, os poucos movimentos da boca ao falar… Dannielle era um robô, assim como Cassandra?

Cristina iniciou suas inúmeras pesquisas sobre robótica e inteligência artificial nos dias que se passaram. Buscou mais informações sobre o “Caso Cassandra”, mas aparentemente a policia deu um jeito de abafar a mídia, então provavelmente ela era uma das pessoas que mais sabia sobre, já que foi colega do robô assassino. O que ela descobriu foi que Cassandra havia sido encontrada na casa de seu “pai”, que já estava morto a alguns dias de desnutrição, fora destruída e incinerada. Não conseguiu nenhuma informação sobre o projeto do inventor, nem mesmo onde estava no momento ou se ele havia projetado o robô para matar propositalmente ou foi um acidente que ele mesmo pagou o preço. Tudo o que Cristina tinha era um monte de respostas vagas e frustrantes. Parecia até mesmo que nada daquilo havia existido, que ela não tinha visto Cassandra e conversado com ela, pois deram um jeito de ocultar tudo. Era de se esperar que não dessem muita informação para o público, mas ela precisava saber.

Analogamente vieram suas descobertas sobre robótica. Ela conseguia entender a lógica por trás do sistema binário dos computadores e programação, então fora um pouco mais fácil para ela entender algumas coisas. Ela aprendeu que, primeiro de tudo, robôs eram, basicamente, criados para alguma função, assim como programas de computador. Um androide com funções versáteis, como um ser humano é capaz de fazer, era uma coisa que estava um pouco longe ainda de acontecer.

Porém, Cristina pensou por um momento e discordou logo em seguida. Cassandra era um ser humano quase perfeito. Ela podia até mesmo questionar sobre a matéria dada em aula e não era apenas restrita em uma coisa ou algumas coisas. Mas outro questionamento surgia: será que Cassandra fora projetada para ser “exclusivamente” um ser humano? Mas se o criador conseguiu tal feito, devia ser um homem genial. Só que Cristina leu também, que quando fosse possível criar androides que emulassem um ser humano, nunca seria “perfeito”, pois têm coisas que são inevitáveis. Uma delas é que todo programa, por mais complexo e amplo que seja, é feito para seguir uma lógica e um padrão e robôs podiam se dizer que eram a “forma física dos programas de computador”.

De fato, isso era verdade. Cassandra era “perfeita”, mas de certa forma estava restrita a algumas coisas como ir à escola, fazer a lição de casa, interagir com os colegas e…

Não tinha noção sobre o que ela fazia em casa, mas Cristina duvidava que Cassandra pudesse dirigir um carro, uma moto, andar de skate, surfar, ter idéias próprias para escrever um livro, até mesmo ficar matando tempo na internet. Não que ela não fosse capaz, mas talvez não fosse à função dela. Qual era o objetivo de Cassandra? E se de fato fosse assim que funcionassem os robôs, Dannielle deveria seguir um padrão ou padrões em seu dia a dia e teria algum objetivo.

Com essas conclusões, a menina começou a analisar todos os passos de sua professora na escola. Aproveitava o silêncio tenso das aulas para ver o que a mulher fazia e tomava nota do que achava peculiar.

Primeiramente fazia suas anotações no tablet e sempre que fosse vista, trocava de página rapidamente. Mas logo depois veio a sua paranoia: e se Dannielle tivesse acesso aos arquivos dos alunos e descobrisse suas suspeitas? Aderiu uma parte de seu caderno para isso depois de ponderar sobre. Sua mão doía de escrever e muitas vezes não entendia sua letra, mas era a maneira mais segura de manter tudo registrado.

A Mulher-Robô era extremamente pontual e nunca se atrasava para nenhuma aula. Cristina notou também que todas suas aulas eram da mesma forma. Ela chegava, cumprimentava os alunos, corrigia a lição, passava matéria, explicava, passava mais lição, fim. Um fato curioso era que parte das aulas, ela seguia esse padrão e sobrava até de quinze minutos antes da aula encerrar e outras vezes o tempo fechava. Parecia que a professora havia cronometrado tudo, deixado quinze minutos para os alunos tirarem dúvidas nos espaços de tempo certo.

As explicações de Dannielle eram muito boas, mas um tanto peculiares. O fato era que ela explicava muito bem, mas apenas de uma maneira. Ela não tinha outras maneiras de transmitir a lição e caso algum aluno não entendesse, ela repetia tudo de novo. Chegava ser um pouco cômico.

A professora chegava sempre na escola na mesma hora e estacionava seu carro na mesma vaga, mas Cristina logo percebeu que as vagas eram reservadas para cada professor. Dannielle fazia parte dos professores não-fumantes, mas aparentava não se importar com a fumaça dos cigarros.

Para cada dia da semana, ela tinha uma roupa diferente, que sempre se repetia. Algumas pessoas já deviam ter se dado conta disso, mas esses fatos estavam cada vez mais assustando a menina, pois se lembrava que Cassandra fazia algo parecido.

As anotações de Cristina sobre a professora já ultrapassavam as páginas que ela usara para estudar e sua vigília já durava algumas semanas. O pior de tudo era passar a limpo todas suas considerações quando chegava em casa. Haviam várias evidencias. Eram muitos padrões, tudo em Dannielle seguia muita lógica, além de suas características físicas muito intrigantes. Mas se ela de fato fosse um robô, o que Cristina faria?

No meio disso tudo, o final do segundo trimestre veio como um soco na barriga da menina.

Pela primeira vez seus pais foram chamados na escola e Cristina estava desesperada. Suas notas haviam despencado de uma maneira que ela havia ignorado por completo. Não estava tão preocupada em si com as provas e com o ano letivo, mas sim com a reação dos seus pais, que não fora nada boa. Nunca a menina tinha ouvido tantos gritos deles como naquele dia e se sentia a pior pessoa do mundo. Tentava se defender, mas era desarmada em menos de um grito de sua mãe.

Nunca tinha se sentido tão impotente em sua vida inteira. O ápice de seu desespero fora quando seus pais lhe ameaçaram não fazer sua festa de quinze anos caso ela reprovasse.

Por um momento, Cristina olhou todas suas anotações e quis jogá-las no fogo. Em seu interior, estava com uma mistura de repulsa e vergonha de si mesma. Nos dias que se passaram, percebeu que não tinha mais nenhum amigo na escola. Sua única companhia era a paranoia ridícula que sua professora era um robô e porque Cristina ficou tão obcecada por isso? Após algumas horas de exame de consciência descobriu o motivo.

Não havia um dia em que ela não se lembrasse de Cassandra – de nenhuma das duas. Tinha sido colega não somente do robô, mas da humana também e assistiu em silêncio enquanto aqueles monstros lhe tiravam aos poucos a razão de viver. Não deu uma palavra nem mesmo quando eles fizeram a barbaridade de queimar as solas dos pés dela com uma tocha… Ela ficou de longe vendo tudo como uma covarde. Igual ela estava fazendo agora, assistindo os passos de sua professora, querendo alguém para colocar a culpa. Mas assim como suas notas, Cristina percebeu que a única culpada de tudo isso era ela mesma.

“Já está na hora de consertar as coisas.”

Ainda não estava reprovada e decidiu que iria correr atrás do tempo que perdeu. Matriculou-se em todas as aulas de reforço que a escola oferecia e passava até tarde estudando. Não demorou muito para ela colher os frutos de seu esforço, mas havia ainda a matéria que ela estava pior que todas as outras: física. O ano estava quase acabando e ela não sabia praticamente nada sobre o conteúdo, apesar de saber que se pegasse e estudasse, iria se recuperar nessa matéria também.

Estava em uma aula de recuperação, perto das vinte horas, quando ainda matutava sobre isso. Ela nunca havia feito o que estava prestes a fazer e tinha quase certeza da resposta. Precisava ir até a Mulher-Robô e pedir pessoalmente por uma oportunidade de fazer mais uma prova. Seu coração estava disparado só de pensar nisso, mas não havia alternativa.

A menina perambulou pela escola, procurando a professora, mas não a encontrou. Perguntou na secretaria onde ela estava e lhe fora informado que ela estava indo para o estacionamento. Correu pelo pátio da escola, torcendo para que conseguisse chegar a tempo, pois não sabia se iria conseguir ter coragem de pedir em outra ocasião.

Dobrou uma pequena esquina do prédio da escola e parou logo em seguida.

Dannielle estava conversando perto de seu carro com a professora Clarisse, a mesma com quem ela falara no dia em que começou sua paranoia por causa de sua risada – naquela época não sabia o nome. A menina não teve coragem de prosseguir, pois queria falar com ela sozinha. Quando Clarisse fosse embora, iria até lá.

As professoras falavam de uma maneira tensa, quase como se estivessem discutindo. Cristina se sentiu pouco intrigada com aquilo. Podia jurar que pela primeira vez vira Dannielle demonstrar alguma emoção genuína em seu rosto. Clarisse falava com um tom firme, mas ao mesmo tempo cauteloso. Estavam muito longe para que a menina pudesse ouvir, então apenas observou.

Em um dado momento, Dannielle virou o rosto e deu um sorriso, mas dessa vez não era assustador e sim encantador. Parecia ser outra mulher e Cristina ficou fascinada. Seu rosto se tornou algo maravilhoso de se apreciar com aquela expressão. “Como eu fui idiota!”, pensava Cristina.

Em um movimento rápido, a Mulher-Robô enfiou a mão em sua bolsa, puxou uma arma de choque e a pressionou contra o pescoço de Clarisse. A mulher caiu no chão logo em seguida, mas Dannielle continuou o ataque por vários segundos. Depois ver que Clarisse não reagia mais, Dannielle abriu o porta-malas do carro e acomodou o corpo com uma facilidade anormal.

Cristina só voltou à realidade quando ouviu o som da porta batendo. Assim, ela saiu a passos rápidos pela escola, tentando se conter o máximo possível. Nem mesmo sabe como conseguiu chegar em casa naquela noite, pois sua mente estava atordoada.

Passou a madrugada em claro, intercalando entre ficar deitada e no computador. Em seus raros cochilos, via aquela cena horrenda de Dannielle e Clarisse. Para sua sorte, no dia seguinte era sábado. Achava que podia ser tudo um sonho, nada daquilo era real.

Mas então veio a noticia nas redes sociais. A professora Clarisse havia sido encontrada morta em seu apartamento, aparentemente vítima de um ataque cardíaco. Foi uma surpresa para todos, mas não para a menina.

Seu estado de choque passava lentamente conforme as horas corriam. Pegou todas suas anotações e as leu várias vezes.

Ela não deveria ter sido a única a presumir que Dannielle era um robô, pois mais cedo ou mais tarde alguém se daria conta de toda a esquisitice. Clarisse certamente deve ter suspeitado disso, e além de seus objetivos, o motivo pelo qual Dannielle foi criada, mas seu erro estúpido foi não ter achado que ela não reagiria a isso. Depois tinha dado um jeito de parecer que a morte de Clarisse fosse natural.

Cassandra também tinha escondido os corpos de seus colegas com uma eficiência assustadora, além de tê-los executado com o máximo de cautela, exatamente como a professora. Mas Cristina tinha quase certeza de que Cassandra havia os matado por vingança, embora não entendesse muito bem como isso havia sido feito. Dannielle havia matado Clarisse porque fora descoberta e a menina sabia de seu segredo.

Devia contar à policia? Não seria a melhor opção, pois ela era esperta demais e conseguiria ludibriar a todos. Depois disso, era somente uma questão de tempo até a Mulher-Robô descobrir quem estava desconfiando dela para então neutralizar o elemento, que no caso era Cristina. A ideia de morrer eletrocutada, ou de uma maneira pior, pelas mãos de um robô lhe causava terror. Lembrava-se de como o corpo da professora se debatia violentamente no chão enquanto a poderosa descarga elétrica lhe percorria o corpo.

A menina passou os dois dias inteiros fazendo mais pesquisas e não conseguia ver alternativa para o problema. Não podia contar para seus pais, já estavam furiosos com ela. E mesmo que acreditassem, Dannielle os mataria. Provavelmente o robô começaria a se complicar depois de suas mortes, a ponto de ser desmascarado, mas a menina viu com os próprios olhos o que ela pode fazer. Não queria morrer para aquela coisa, mas se Cristina conseguisse provar que ela era uma máquina, isso iria acabar. No entanto, não tinha nenhuma maneira simples de fazer isso, pois fisicamente Dannielle era um ser humano normal.

Mas não por debaixo daquela pele.

Robôs possivelmente não saberiam reagir a uma surpresa muito grande, como um avião caindo do céu, um ataque terrorista ou algo assim. Se ela fosse rápida, ela poderia conter aquela coisa e a desmascarar logo em seguida, sem dar tempo dela se defender. E não poderia falhar, pois se isso acontecesse, sabia as consequência. Cristina foi até a caixa de ferramentas de seu pai, pegou uma marreta e um par de luvas de borracha e os escondeu em sua mochila. Estava nervosa, então roubar um relaxante muscular de sua mãe e ir dormir cedo. Precisava de toda a sua disposição naquele dia seguinte.

Foi a primeira a chegar à escola. Sabia perfeitamente a hora que Dannielle iria estacionar o carro, que roupa iria vestir, que trajeto iria tomar. Atravessou o pátio e se escondeu atrás de um muro baixo em que ficava do lado da vaga.

Olhava o relógio do celular compulsivamente.

Quando faltavam dois minutos, Cristina calçou as luvas e sacou a marreta. Ela era bastante pesada e esperava que não se atrapalhasse na hora de usar.

O carro chegou. A maldita Mulher-Robô desceu.

A passos rápidos, ela seguiu Dannielle com o martelo acima da cabeça. O primeiro golpe foi mais fraco do que Cristina gostaria que fosse e isso a desesperou – mesmo que a professora tivesse caído no chão.

A menina golpeou sua cabeça mais duas vezes, fazendo o som de uma melancia madura. Um líquido vermelho escorria por entre os cabelos roxos da mulher, que Cristina julgou ser algum tipo de óleo ou graxa.

Então, depois de mais alguns golpes, Cristina já não conseguia mais parar de bater, nem mesmo quando já estava completamente suja e mal sobrava restos do que um dia foi uma cabeça. Com sua visão periférica, notou pessoas correndo em sua direção e quando todos conseguiram contê-la, a mesma gritava:

– Ela é uma mulher-robô!

Nota do autor: esta é uma “continuação” do conto “Cassandra” que publiquei aqui semanas atrás. Eu não planejava expandir esse universo, mas fiz de forma involuntária também em 2015. O motivo? Eu tive uma professora de curso para concurso (que minha mãe me obrigou a fazer) que era exatamente como Dannielle. Até mesmo o apelido de “mulher-robô” era o mesmo. Daí conectei com o fato de ter escrito “Cassandra”, em uma daquelas chatíssimas aulas, a ideia do conto veio. O que me incomoda um pouco em “Dannielle” é o fato de ser uma história que não funciona tão bem sozinha, mas revisitando esse conto, confesso que ainda me surpreendo com o “Gabriel Mattos do Antigo Testamento”. Talvez eu teria feito algumas coisas de forma diferente hoje em dia, mas ao menos foi uma história divertida de revisitar. Mais até que “Cassandra”. E uma curiosidade: era para ser uma trilogia de contos, sendo que o último se chamaria “Valquíria” que também abordaria o tema de androides, mas de uma forma bem diferente. Só que nunca consegui terminar de escrever esse conto e ele não existe. Quem sabe, no futuro, ele venha a existir.

Leia “Anos Inférteis”, disponível na Amazon.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *