Teria o neonazismo virado uma espécie de satanismo moderno?

Insights são coisas estranhas. Às vezes nos lembramos com bastante clareza de como e quando algumas de nossas ideias vieram. Já noutras, não dá para ter qualquer certeza. Parece até que muitas delas existem com a gente desde sempre. Apesar disso tudo, eu lembro com muita clareza da primeira vez que ouvi falar sobre aquele pintor austríaco.

Eu era bem pequeno quando pesquei uma conversa de adultos que falavam sobre Saddam Hussein e Adolf Hitler. Eu já tinha ouvido no noticiário sobre o primeiro, mas o segundo era novidade para mim. Eis que minha madrinha, uma experiente cuidadora de crianças, explicou da forma mais simples possível para que eu pudesse entender: “era um alemão maluco que acreditava que só loirinho de olho azul poderia existir”. Como eu tenho cabelo preto e olhos verdes, já pensei algo do tipo: “ok, esse cara iria querer que eu não existisse, então ele é mau”.

Anos depois, já na escola, aprendemos mais sobre o que era o nazismo. Mas um detalhe estranho dessa minha trajetória pessoal é que, quando eu estava na quinta série, eu tive um colega repetente que se declarava nazista. Ele chegava a desenhar suásticas na carteira, a se vestir quase como um oficial do partido alemão e, não raro, esticava o braço. Sei que nunca aconteceu nada com ele (ao menos não naquele ano), pois todos foram aprovados para a sexta série. Nunca mais o vi depois daquele ano.

Eu só fui relembrar aquela experiência já no ensino médio, já tendo consciência do quão absurdo era um aluno de escola pública fazer aquele tipo de coisa. E pior ainda era o fato de que nenhum professor fez nada a respeito. Se fizeram, ninguém viu, e não deve ter adiantado muito, pois os delírios nazistas de meu colega prosseguiram. Mas, quando refleti de forma mais profunda sobre aquilo, e todos os outros neonazistas, eu cheguei a uma conclusão curiosa: tudo virou uma espécie de satanismo moderno.

Para entender o que eu quero dizer, tente voltar algumas décadas e séculos no passado e se imagine em uma sociedade predominantemente cristã. Seja católica, ortodoxa ou protestante, nenhuma delas acharia tranquilo se visse uma pessoa declarando amor ao demônio e oferecendo sacrifícios e rituais para ele. Por mais que saibamos que cada vertente agiria de uma forma diferente, e a católica foi a mais sensata em sua Inquisição, a verdade única é que, em um contexto de hegemonia cristã, ser um satanista declarado era não apenas loucura como uma sentença de condenação social – e muitas vezes criminal.

Tanto um satanista quanto um neonazista compartilham o ponto em comum de serem subversivos, marginalizados e vistos como malucos com espírito de porco. Além disso, ambos compartilham um paradoxo curioso: no fundo, o satanista e o neonazista sabem que acreditam e fazem coisas absurdas; as pessoas ao redor sabem que ambos sabem que acreditam e fazem coisas absurdas; por fim, o satanista e o neonazista sabem que as pessoas sabem que eles sabem que acreditam e fazem coisas absurdas. Mas, mesmo assim, os dois continuam fazendo, nem tanto por convicção genuína, mas sim por mera insolência.

O ponto central aqui é que tanto o satanismo como o nazismo podem ser vistos como um desejo escrachado de completa inversão do senso comum da sociedade. Não são convicções que movem ambos, mas sim um desejo genuíno de subversão. Mas ambos sabem que nunca serão hegemônicos em suas ideias pelo simples fato de que dependem justamente do senso comum para existirem. Isto é: o cristianismo ainda existiria se não existisse o satanismo (ao contrário do que muitos ateus militantes defendem), e as democracias modernas seguiriam existindo se não existisse o neonazismo. Porém, nem o satanismo nem o neonazismo existiriam se suas “antíteses” não existissem.

Os neonazistas e satanistas mais espertos agem na surdina, com encontros secretos (presenciais ou online), mas com um constante desejo de serem descobertos e expostos ao mundo como detentores do espírito de porco que possuem. E a razão disso é simples: se não fosse assim, eles sequer seriam o que são. Seria mais fácil, nesse contexto, se declararem comunistas, que são tão diabólicos e macabros quanto, mas com uma aceitação social mais tolerável – infelizmente.

Porém, assim como aconteceu com o satanismo (que hoje em dia é mais relativizado e tolerado), eu não me surpreenderia se, no futuro, o próprio neonazismo passasse a ser também visto como algo “menos pior” do que é. E sim, pode soar absurdo, mas esse risco existe e nós já tivemos vários exemplos disso.

O famoso caso do “Monark Day”, que foi um divisor de águas no Flow Podcast, foi um exemplo bem claro disso que quero dizer. A ideia de Bruno Aiub de que deveria ser permitido ter um partido nazista não foi algo isolado que só ele falou em um momento de alteração mental por conta de maconha e álcool. Ponho minha mão no fogo que tem mais gente que pensa nisso do que se imagina. O maior problema aqui não é exatamente a ideia, mas as consequências enfrentadas por alguém que expõe essa ideia.

Explico.

Um movimento marginalizado não tem nada a perder, pois ele já é visto como algo asqueroso. Porém, isso acaba gerando, do ponto de vista da narrativa pública, uma ideia de “nós contra eles”, e o maior perigo aqui não são os beligerantes, mas sim quem assiste de fora.

Acaba chegando um momento em que a situação do Monark, que acabou tendo sua vida destruída por causa de uma fala de menos de 5 segundos, assusta outras pessoas. Só que não do ponto de vista de “cuidar o que se fala”, mas sim de “temos menos liberdade de expressão do que se imagina”. E, de fato, não existe “meia liberdade”, assim como não há “meio buraco”. Infelizmente, a verdade é que ou se aceita que não temos liberdade perante o Estado, ou então se permite que esse tipo de absurdo seja dito. Na esfera privada, seria mais fácil simplesmente “cancelar” alguém como o Monark, mas quando chega ao ponto de haver mando e desmando jurídico em cima dele por conta disso, aí esse mal-estar com as instituições públicas emerge.

E é nesse contexto que quem observa de fora pode acabar pensando que “talvez o nazismo não seja tudo isso”. Sim, ele é tudo isso. Mas toda a situação que se apresenta ao redor do tema acaba criando a sensação de que, quem sabe, um absurdo desses precise ser “permitido” de ser dito, pois, do contrário, a liberdade de expressão não existe em sua plenitude – do ponto de vista estatal.

Em outras palavras, o problema aqui não é exatamente o tema “nazismo” ou “neonazismo”, mas sim o quanto de poder o Judiciário acaba tendo dentro desse contexto de narrativa política. Ironicamente, esse tipo de “perseguição” pode acabar fazendo com que, futuramente, o próprio neonazismo seja relativizado. Assim como o satanismo foi ao longo do tempo.

Pessoalmente, sempre achei que a melhor forma de combater ideias idiotas é deixar que o idiota fale, pois suas próprias palavras costumam traí-lo. É como uma doença virulenta: a vacina acaba sendo o tratamento mais adequado. As pessoas precisam ser previamente vacinadas contra pensamentos tóxicos, mas, quando o próprio Estado usa sua força para “esmagar” um indivíduo por conta de suas palavras, daí, a longo prazo, o efeito é que suas ideias podem acabar fazendo sentido para quem está de fora.

Dá para dizer que o nazismo está para a sociedade moderna assim como o satanismo estava no passado para uma sociedade mais influenciada pelo cristianismo. Hoje os satanistas ainda são vistos como malucos pela maioria, mas dificilmente são perseguidos, e muitos viram até celebridades. Quem não garante que daqui a algumas décadas não veremos nazistas estrelando filmes ou despontando entre os mais ouvidos do Spotify? E a culpa disso será justamente da perseguição estatal que acontece hoje.

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