“Silent Hill”: quando o inferno perde o sentido

Em 2006 chegava aos cinemas aquele que por muitos foi considerado a melhor adaptação de jogos de videogame para as telonas. “Terror em Silent Hill” até hoje é lembrado por este feito e por ter trazido à vida os monstros da franquia japonesa “Silent Hill”. Agora, em 2026, 20 anos depois, o diretor Christophe Gans retorna à franquia com “Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno”.

Na trama, James recebe uma carta de sua falecida esposa que o leva para Silent Hill, cidade onde se conheceram. Lá, ele encontra uma cidade abandonada e repleta de monstros e figuras misteriosas enquanto tenta resolver o mistério de quem teria enviado a carta. É interessante notar que, assim como nos jogos, não estamos diante de uma sequência direta da história do longa original, mas sim de uma nova narrativa no mesmo ambiente.

No entanto, Gans insiste em afirmar a permanência de seu longa anterior no imaginário, tanto dos fãs da franquia quanto dos fãs de terror. O resultado é a adição de elementos narrativos dispersos, que possuem a única função de fazer uma ligação forçada com o longa de 2006. Isso até faria sentido se a história fosse a mesma, mas não é. Estamos diante de uma adaptação do segundo jogo da série, o que torna a presença do culto do primeiro jogo — e longa — jogada e forçada.

Por falar em narrativa, o grande pecado que o longa comete é achar que o clima solitário, quieto e contemplativo do jogo não seja suficiente para sustentar um filme. Tendo isso em vista, o roteiro, também assinado por Gans, faz a “brilhante” saída de incluir uma personagem psicóloga cuja única função é ser um meio pelo qual o protagonista possa expor para o público seus sentimentos e pensamentos da maneira mais fácil e preguiçosa possível.

Tanto isso quanto a presença de um culto maligno reduzem em muito os temas da trama, como luto, trauma e culpa. Porém, para compensar o desmembramento feito com a narrativa, o longa se sustenta em designs de criaturas e ambientes similares aos do jogo. As criaturas acabam sendo ofuscadas pelo mau uso do CGI, que também prejudica a ambientação, pois estamos diante de apenas enormes telas verdes.

“Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno” nada mais é do que um produto vazio. Audacioso ao ponto de achar ter uma narrativa melhor do que o produto original, mas sem inspiração para tal domínio, fazendo dele uma experiência vazia, bagunçada e terrivelmente hilária.

Sobre culpa, luto e o medo de deixar o protagonista errar (spoilers)

No que se refere aos jogos, o longa adapta o segundo da série. As diferenças são notáveis, principalmente na narrativa, mas também em alguns detalhes. No início do jogo, vemos James indo até a cidade, enquanto sua narração em off lê a carta recebida de sua falecida esposa. Enquanto isso, no filme, temos toda uma sequência deles se conhecendo, antes de cortar para James chegando a Silent Hill.

Os inimigos que encontramos no jogo estão bem representados visualmente no filme. Porém, seu sentido subjetivo se perde, enquanto no longa eles são reduzidos a encontros aleatórios para causar jump scare. No jogo, cada um representa um aspecto de como James vê Mary e seu relacionamento com ela.

Esses sentidos ocultos são tratados de forma mais sutil no jogo. Enquanto no longa, o famoso e icônico Pyramid Head, além de aparecer pouco, explicitamente possui o rosto de James por debaixo de sua prisão de metal. Assim como no jogo, personagens como Maria, Eddie, Laura e Angela marcam presença no filme. Eddie parece estar lá apenas pela referência, já que some sem nenhuma explicação e nunca mais sequer é citado, enquanto no jogo ele é mais desenvolvido e chega a ser um chefe a ser derrotado.

As demais personagens até aparecem mais, mas não de forma mais aceitável. Laura cai no clichê da criança possuída, com movimentação bizarra e falas enigmáticas, sendo que, no material original, sua inocência e despreocupação destoante é o que dá sentido à sua jornada na história.

Angela faz a personagem surtada no longa e aparece dando um aviso no início, como se fosse aquele clichê do velho maluco à beira da estrada que avisa para os personagens darem meia-volta. No jogo, é pincelado seu relacionamento abusivo com o pai e isso é materializado no visual icônico do inimigo que enfrentamos, ligado a ela. Tal monstro aparece jogado no longa apenas como referência.

Maria é a que tem mais tempo de tela e, por isso, é a que mais se aproxima de sua contraparte no jogo. Ela é uma versão mais ousada de Mary, sendo uma alucinação de James e sua companheira por boa parte da trama. Poderia ser um dos segmentos de maior acerto do filme, mas a falta de química dos atores põe tudo a perder.

Por fim, as personagens possuem um desfecho enfadonho no filme. Todas elas fazem parte da personalidade de Mary, tendo uma revelação tão preguiçosa quanto o resto do roteiro. O filme preferiu tirar a individualidade de cada uma, em seus próprios traumas e desenvolvimento, em nome de uma reviravolta que apenas prejudica a trama.

Essa decisão do roteiro de Gans, e a seguinte, contribui para a visão de que a narrativa do jogo não era suficiente, então precisou inserir mais elementos nela. O elemento totalmente novo é o tal culto. O pai de Mary, no filme, era líder de um culto em que seus membros lentamente envenenavam Mary, o que fez com que ela ficasse doente e eventualmente falecesse.

Essa decisão é a pior possível e a que consagra o longa como uma das piores adaptações já feitas. Originalmente, o próprio James é o assassino de Mary, algo nos revelado nos momentos finais do jogo.

“Silent Hill” possui uma história simples, mas uma narrativa excelente. Toda a jornada de James, os obstáculos e sua obsessão por encontrar sua falecida esposa em uma cidade abandonada são motivados por uma culpa que o personagem carrega: a culpa de ser um assassino que, por mais que ela estivesse doente e pedindo por isso, gostou de ter posto fim à vida de sua amada.

Gans joga terra por cima disso ao desviar a culpa de cima de seu protagonista. O culto no filme se faz presente por uma deficiência narrativa no mercado hollywoodiano, onde seus protagonistas precisam ser heróis incontestáveis.

“Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno” falha justamente onde o jogo sempre foi mais poderoso: na coragem de encarar o desconforto. Ao substituir a culpa íntima de James por uma conspiração externa, o filme transforma um estudo profundo sobre luto, repressão e responsabilidade em um produto genérico, preso a convenções narrativas que se recusam a confiar no público. O resultado é um longa que até entende a estética de Silent Hill, mas ignora completamente sua alma. No fim, não é a névoa, os monstros ou o inferno pessoal que assustam; é perceber que Hollywood ainda tem medo de protagonistas falhos, de finais amargos e de histórias que não pedem absolvição.

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