Existe um consenso dentro da comunidade otaku quando se pergunta qual é o maior de todos os vilões criados em um anime. Essa resposta está longe de ser Kira ou então algum antagonista de um shounen mais famoso, por mais que estes também sejam bons exemplos. Nenhum deles expõe com tanta maestria a maldade humana de forma mais pura e absoluta como Johan Liebert, o grande fio-condutor da narrativa de “Monster”.
E, ao se falar em “o maior vilão de todos os animes”, imagina-se alguém cuja aparência seja animalesca e diabólica. De fato, existe um personagem que o vê assim por algum motivo. Contudo, todos os outros o veem da mesma forma que Lúcifer é descrito: um homem belo, cordial, carismático e inteligente. É até difícil imaginar que alguém assim seria capaz de atos tão macabros.
Mas não é apenas sobre o mais absoluto mal humano que “Monster” fala. Esta é uma história relativamente longa para o padrão da maioria dos animes e que não possui nenhum apelo sensorial muito grande. Em outras palavras, não é raro que esse seja considerado um “anime cult”. E, de fato, se colocada em comparação com a maioria dos que se encontram no mercado, até pode ser. Só que não dá para negar que acompanhar uma narrativa dessas é uma experiência única.

Contexto
“Monster” é um thriller psicológico que marcou o público adulto ao apostar em uma narrativa densa, realista e moralmente complexa. A série foi exibida originalmente no Japão entre abril de 2004 e setembro de 2005, totalizando 74 episódios produzidos pelo estúdio Madhouse. Ambientada na Europa, entre a Alemanha, República Tcheca, Itália e Franca, a história acompanha o neurocirurgião Kenzo Tenma, que se vê diante da responsabilidade de ter salvo a vida de um “monstro” que espalhou morte e tragédia por diversos lugares.
Antes de ganhar sua adaptação animada, “Monster” nasceu como mangá, publicado entre 1994 e 2001 na revista Big Comic Original. A obra contou com 18 volumes encadernados e rapidamente se destacou pelo rigor de pesquisa, pelo ritmo de romance policial e pela construção minuciosa de personagens. O sucesso do mangá foi fundamental para que a adaptação em anime fosse feita de maneira fiel, praticamente quadro a quadro, algo raro no mercado japonês.
O responsável por “Monster” é Naoki Urasawa, um dos autores mais respeitados da história dos mangás. Conhecido por seu estilo narrativo sofisticado, Urasawa construiu uma carreira marcada por histórias que combinam suspense, drama humano e crítica social. Seus trabalhos frequentemente exploram o impacto das escolhas individuais e coletivas, além de questionarem conceitos absolutos de bem e mal. Além de “Monster”, Naoki Urasawa é autor de outras obras amplamente aclamadas, como “20th Century Boys”, uma saga sobre paranoia, memória e autoritarismo, e “Pluto”, releitura adulta de um arco clássico de Astro Boy. Juntos, esses títulos consolidaram Urasawa como uma referência mundial em narrativas gráficas complexas, influenciando não apenas o mangá, mas também o cinema e a literatura contemporânea.

Silêncio e cores cruas
Como dito acima, “Monster” é um anime que não apela para um público juvenil em nenhum momento. E um dos maiores exemplos dessa “maturidade” é a própria forma como a animação é conduzida, sendo que em nenhum momento são explorados os sentidos do espectador.
Ao contrário da maioria dos animes, nos quais os personagens contam com grandes e expressivos olhos, aqui todos os personagens possuem olhares apertados e que até desaparecem em seus rostos. Em outras obras, apenas figurantes ou personagens terciários são representados dessa forma, mas em “Monster” ninguém é “olhudo”. Isso já demonstra a intenção da história de forçar uma reflexão mais introspectiva em quem assiste, sem estimular alguma forma de empatia por artifícios artísticos mais convencionais.
Outro ponto a se destacar nessa falta de apelos sensoriais é a paleta de cores e os traços da animação. Nenhum dos dois se destaca – e isso é excelente. Nenhum matiz se sobressai e todos os tons são crus, quase como se estivéssemos assistindo a uma obra em preto e branco. A ambientação europeia, com foco na Alemanha e na República Tcheca após a queda do Muro de Berlim e a dissolução da URSS, invoca a sensação de pobreza econômica e riqueza cultural típica da região.
Mas talvez o que mais chame a atenção na direção do anime seja o uso constante do silêncio ou de trilhas sonoras neutras. Até mesmo a abertura possui uma música memorável, mas que conta apenas com um coro similar ao de salmistas de uma igreja. Em grande parte da história, vamos nos deparar apenas com sons ambientes e diálogos, sem qualquer tipo de trilha que ajude na ambientação da situação. E, mais uma vez, isso tudo é um acerto em cheio com o clima maduro e com poucos estímulos sensoriais ao espectador.

O mal só faz sentido perante o bem
Em contrapartida, o que o anime não traz em sensações, ele capricha em construções narrativas e de personagens extremamente complexos e carismáticos. Se precisasse explicar a ideia geral de “Monster” em poucas palavras, seria que esta é uma história que trabalha de forma magistral com contrastes. E essa diferença se observa justamente quando colocados esses dois elementos em comparação.
Mas “Monster” vai muito além disso. Quando Johan Liebert é colocado como “o maior vilão dos animes”, isso só faz sentido dentro do contexto em que ele foi inserido na obra. Em outras palavras, a maldade extrema do vilão só é compreendida porque os demais personagens possuem bondade e virtudes genuínas.
A começar pelo protagonista, Kenzo Tenma é um homem essencialmente bondoso e ético. E suas virtudes são tão grandes que ele se sente mal por ter cumprido o seu dever de médico e ter salvado a vida de Johan, mesmo que ele não soubesse o “monstro” que aquele garoto de 12 anos era e ainda viria a ser. Sua atitude salvou uma vida, mas com certeza também tirou várias outras por consequência. Desse modo, ele abandona sua carreira com o objetivo de ir atrás de Johan e corrigir seu erro. E mesmo no final, quando ele poderia simplesmente abrir mão de salvar a vida do vilão, ele mais uma vez escolhe cumprir seu dever de médico. Todo o drama de Tenma se torna ainda mais trágico quando paramos para pensar com cuidado nas circunstâncias.
Ele tinha ordens expressas do seu chefe para operar e salvar o prefeito da cidade, mas, como Johan chegou ao hospital baleado na cabeça primeiro, ele deveria obedecer à ética médica da ordem de chegada dos pacientes. Assim, ele desobedece e faz o que acha certo, mas o prefeito acaba morrendo e, por isso, Tenma é rebaixado na hierarquia do hospital e tem sua carreira arruinada. Não só isso, como toda essa situação faz com que seu noivado com a filha de seu chefe acabe, pois ele “não poderia mais dar uma vida boa” para ela – uma das cenas mais asquerosas de se ver.
Destruído, Tenma chora diante de Johan (aparentemente em coma) e fala como o mundo seria melhor sem pessoas como aquelas. Em um ato de “agradecimento”, o vilão, que naquele momento era só uma criança de 12 anos, decide causar a morte dos algozes do seu salvador com balas envenenadas. Por algum motivo, após isso acontecer, a vida de Tenma volta a se endireitar, e sua carreira no hospital é restaurada. Tudo parecia normal novamente, mas aí a trama de “Monster” começa de fato.
Será que não seria melhor se o protagonista tivesse seguido as ordens de seu chefe? Mas ele estaria sendo um médico de verdade se abandonasse sua ética? Porém, será que essa sua ética não foi responsável pela morte de muitas pessoas no futuro? Será que o “fazer o bem sem olhar a quem” é um princípio que deve ser levado ao pé da letra? São questões que o anime deixa implícitas, sem uma resposta definitiva. Porém, o que entendemos ao final de “Monster” é que pessoas boas vão seguir sendo boas, não importa o que de ruim aconteça, bem como pessoas más vão seguir sendo más, não importa o que de bom ocorra. E também, é claro, que atitudes ruins não necessariamente tornam uma pessoa boa em má, pois o arrependimento é algo real e alcançável para quase todas as pessoas.

Johan não é fruto das circunstâncias
Conforme os capítulos avançam, é comum pensar que Johan Liebert seria apenas mais uma vítima das inúmeras circunstâncias que vieram antes mesmo de seu nascimento. Até mesmo o relacionamento de seus pais, apesar de puro e genuíno, era “proibido”, e todos sofreram por conta disso. Depois, o vilão foi enviado para o terrível Kinderheim 511, o orfanato experimental da Alemanha Oriental com o objetivo de criar “seres humanos perfeitos”. Também ocorreram os fatos da Mansão da Rosa Vermelha, que também seriam traumáticos para qualquer pessoa.
Porém, existe um detalhe que o anime deixa implícito o tempo todo: se tudo isso tivesse moldado Johan a ponto de ele se transformar em um “monstro”, por que sua irmã gêmea, Anna/Nina, não virou uma assassina em série manipuladora como ele? Ambos tiveram experiências muito parecidas, nasceram no mesmo dia e dos mesmos pais, sendo até mesmo fisicamente muito parecidos. Então, se as experiências bastassem para a formação de uma personalidade maligna, Nina também deveria ser tão monstruosa quanto o irmão. Mas não é isso que vemos: ela é uma pessoa de bom coração e segue sendo assim até o final do anime, mesmo com muitas coisas horríveis acontecendo com ela.
E Nina não é a única personagem na obra que deixa isso claro. Para falar a verdade, ela é só mais uma. Mais adiante, somos apresentados a Grimmer, um jornalista freelancer que também foi vítima do Kinderheim 511. Essa experiência tirou sua capacidade de ter emoções, sendo que seu sorriso no rosto é sempre algo forçado e que ele aprendeu com muito esforço. Mas, mesmo assim, conseguimos perceber que suas péssimas experiências de vida, apesar de terem deixado sequelas, não o transformaram em uma pessoa maligna.
Até mesmo um dos personagens mais desprezíveis da obra, do qual deveríamos sentir uma grande repulsa, nos mostra aquilo que foi dito acima: às vezes, atitudes malignas podem ser fruto de inocência ou ignorância, e não de uma vilania fria e deliberada. Franz Bonaparta, ou Klaus Poppe, nos é apresentado primeiro como um misterioso autor de livros ilustrados que traz diversas alegorias enigmáticas. Posteriormente, é revelado que ele foi o grande culpado pelos experimentos de tentar produzir um ser humano perfeito. Quando o encontramos, já velho e vivendo em uma cidade isolada, o que nos deparamos não é com um monstro tal como Johan, mas sim com um idoso atormentado pela culpa e arrependimento das coisas horríveis que fez. Ele até mesmo demonstra aceitar qualquer tipo de punição e castigo que pudessem vir por suas atitudes.
É claro que a obra nos apresenta outros personagens que possuem caráter duvidoso ou que também são malignos, como os dirigentes de um partido neonazista, que são responsáveis por diversos atos perversos contra imigrantes na Alemanha. Até mesmo o Inspetor Lunge, que foi um dos antagonistas secundários por sua obsessão por Tenma, possui uma moralidade mais cinzenta do que qualquer outra tonalidade – apesar de sua redenção ao final. Mas o que tudo isso nos diz é bastante claro: Johan não é fruto do seu entorno, mas sim uma criatura naturalmente maligna e perversa. Nem mesmo a “maldição” que sua mãe colocou em Klaus Poppe justifica sua maldade, pois Nina é bondosa.

Um monstro com rosto angelical
Johan raramente é visto sujando as mãos na obra, sendo que, na maioria das vezes, conduz as pessoas a fazer isso por ele. E, sendo um homem belo, educado e inteligente, é quase impossível que as pessoas não façam o que ele quer. Mas é difícil classificar qual foi seu maior ato de vilania ao longo da obra, pois cada um parece pior do que o outro quando colocados em comparação.
No entanto, uma das ações mais marcantes e macabras é quando o vilão convence crianças a andarem no topo de prédios. Se elas caírem e sobreviverem, significa que são escolhidas pelo destino para serem pessoas diferenciadas. Em outra atitude cruel, no episódio 49, ele convence um órfão a passear em um distrito de prostituição para “procurar sua mãe”, mas o que ele encontra lá são cenas horríveis que o convencem de que “ninguém o quer”.
E, por mais que se pense que Johan tem algum grande objetivo por detrás de tudo isso, a verdade é que não existe nada que ele busque de fato. Naturalmente, a trama é complexa e revela uma rede de acontecimentos passados e presentes que enriquecem o pano de fundo do universo do anime. Mas o vilão, em si, parece querer apenas causar o maior estrago possível no mundo para, então, depois, morrer e sumir da mente das pessoas. Sua maldade é tamanha que ele sequer se importa com o que pode acontecer com ele mesmo.
