“Os Estranhos”: a pior trilogia do terror

Em 2008, era lançado o clássico “Os Estranhos”. O longa, dirigido por Bryan Bertino, é um terror de invasão domiciliar com uma proposta simples, mas perturbadora: a aleatoriedade. Na trama, um casal tem seu sossegado fim de semana em uma cabana no campo interrompido quando três figuras mascaradas invadem a casa. A tensão é crescente e o medo se instaura. Além disso, há a reviravolta impactante na simples revelação de que o motivo para a tal noite de terror era o fato de que os dois estavam em casa.

O longa foi bem recebido na época, e diversas tentativas de transformá-lo em franquia foram feitas. Eis que, em 2024, o diretor Renny Harlin, conhecido por “O Exorcista: O Início”, filmou três produções consecutivamente, com o intuito de lançar uma por ano. Assim, com a produção da Lionsgate, tivemos “Os Estranhos: Capítulo 1”. Como a ideia é de um reboot, a história seria praticamente a mesma. Um jovem casal, interpretado por Madelaine Petsch e Froy Gutierrez, é forçado a passar a noite em uma cabana isolada quando seu carro quebra. No local, o pânico se instaura quando três mascarados começam a persegui-los.

Logo no início, somos apresentados ao nível de pretensão do longa: ele começa com uma estatística que mostra que um crime acontece a cada 26,3 segundos nos Estados Unidos e que estamos diante de um dos mais violentos de todos. O fato é que, enquanto nos preparamos para assistir a esse acontecimento impactante, o diretor Renny Harlin precisa nos contextualizar com alguns conceitos. Sendo assim, o que no longa original não precisava de explicação aqui ganha contexto. Ele preenche essas “lacunas” com clichês de caipiras malucos, olhares desconfiados e personagens suspeitos.

Não é exagero dizer que Harlin está perdido no longa. É necessária muita boa vontade para se convencer de que há conteúdo para uma hora e meia de filme. Assim, ele é preenchido com longas tomadas e decisões redundantes e pouco inteligentes.

Decisões questionáveis e sem sentido até não seriam um problema tão grave se fôssemos recompensados por elas. Mas não somos, pois não existe qualquer senso de progressão no filme. Portanto, o que deveria ser mais tenso, a principal força do terror do longa, torna-se vazio, gerando irritação, pois percebemos que as situações vão se repetir, sempre recaindo nas mesmas decisões ruins e em diálogos péssimos.

Sendo assim, “Os Estranhos: Capítulo 1” é o primeiro ato de uma história esticada até a exaustão para chegar à duração de um longa. Tudo piora ainda mais com a falta de dinâmica do casal. No longa original, havia uma questão envolvendo problemas no casamento que acabavam sendo superados pela necessidade de sobrevivência; como aqui não existe nada disso, o que nos resta é aguardar o surgimento dos assassinos.

Quando eles finalmente aparecem, chega um ponto em que o longa beira o teletransporte ao situar personagens em cantos e lugares impossíveis de alcançar apenas para facilitar o uso do jump scare. E então, ao fim da projeção, após um ciclo de repetição para que o longa consiga atingir o tempo de duração, temos finalmente o prometido no início: “um dos crimes mais violentos da história”. Amarrado cada um a uma cadeira, o casal protagonista recebe uma facada e cai ao chão, encerrando de forma inconclusiva o tal crime mais violento da história.

Partimos então para o aguardado “Capítulo 2”, lançado no ano seguinte. Nele, vemos que Maya, a protagonista do filme anterior, sobreviveu e acorda na cama de um hospital, até que o trio de assassinos volta para terminar o serviço. Nessa altura do campeonato, já não é segredo que a essência da aleatoriedade se perdeu. Maya já não é mais uma vítima qualquer fator de maior terror do original e, de repente, a caçada se torna pessoal.

Também não é segredo que a estratégia de filmar três longas seguidos não caminhou com a competência do roteiro. Sendo assim, mais uma vez temos uma história esticada, com a mesma repetição de cenas e perseguições, mas dessa vez tudo dentro do hospital. Para nos convencer de que se trata novamente do mesmo longa, há inserções constantes de pequenos flashbacks ao longo do filme, buscando uma origem para os assassinos. Isso torna a presença deles, que antes beirava o terror cósmico de tão misteriosa, em drama psicológico barato.

Outra decisão “genial” para variar o cenário ocorre quando Maya sai do hospital e corre novamente para a mesma floresta onde o primeiro longa se passa. Sequência que inexplicavelmente culmina em um ataque de um javali em CGI mal recortado. Tudo isso para nos arrastar para mais uma sessão torturante de uma hora e meia e nos mostrar novamente sua inexistente conclusão, pois, afinal de contas, ainda temos mais um longa. Finalmente, agora em 2026, temos o último da trilogia. “Os Estranhos: Capítulo 3” estreou no início do ano, já sem nenhum alarde ou campanha de publicidade por parte da Lionsgate.

Após os eventos do segundo filme, Maya descobre uma conspiração na cidade enquanto confronta o xerife, que se revela o principal vilão, tudo isso enquanto armam um plano para integrá-la ao grupo de assassinos mascarados. Se os capítulos 1 e 2 são uma repetição arrastada e contínua de perseguições, o capítulo 3 joga tudo para o alto e só está interessado em entregar uma conclusão qualquer para quem ainda está interessado.

O mistério dos assassinos já não existe mais. Várias menções a origens, na tentativa de humanizá-los, são jogadas ao longo do filme como nova estratégia para esticá-lo, mesmo sendo o mais curto entre os três, com uma hora e quinze minutos, e ainda assim se torna arrastado. A ideia deste é a mais interessante de todas. Em vez da perseguição constante, dessa vez eles prendem Maya e a torturam até quebrar seu psicológico.

Isso se alonga enquanto temos flashbacks da origem dos assassinos. Até que, no final, Maya mata um deles, foge, e o filme acaba. Exatamente isso que acontece. Com muito esforço, daria para pegar os três longas e, com um bom montador, tentar extrair tudo o que tiver de melhor e, ainda assim, fazer um filme de pouco mais de uma hora.

A sensação é — e provavelmente foi o que aconteceu — que pegaram um roteiro e o fragmentaram em três filmes na tentativa de vender mais ingressos e levar mais pessoas ao cinema. Porém, a falta de tato na estratégia de filmar três longas ao mesmo tempo atrapalhou o que já era ruim, sem dar chance de corrigir o que já havia sido feito e sequer se dar ao trabalho de concluir, na parte 3, pequenas refilmagens feitas na parte 2.

Enfim, estamos diante de uma espécie de esquema de pirâmide cinematográfica, no qual você paga três ingressos pelo que poderia ser apenas um e, ainda assim, não assiste a nada devido à falta de desenvolvimento.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *