Coisas da internet que ninguém mais lembra

Como a coisa toda começa varia bastante, bem como a forma como você toma conhecimento. Às vezes, é tudo bem devagar, com alguns memes tímidos brotando aqui e acolá até que todo mundo está falando sobre aquilo. Noutras ocasiões, você é atingido com força por algo que o joga dentro daquilo tudo. Só que, da mesma forma inesperada que a coisa toda começa, ela também acaba: do nada ou aos pouquinhos. E dura pouco tempo, raramente chegando a um mês — tal como a vida útil de uma mosca ou abelha.

E o que é essa coisa? Bom… qualquer coisa, na verdade. Pode ser uma comida, um brinquedo, um meme, uma paranoia ou um tipo muito específico de conteúdo que pode ser consumido ou até mesmo produzido. O importante é que viralize até ter tempo suficiente para que outra coisa ocupe o lugar. É sempre uma coisa. Qualquer coisa.

Olhando tudo em retrospecto, a situação não é muito diferente das vistas em distopias clássicas nas quais a mídia de massa faz lavagem cerebral na população. A diferença aqui é que não são os grandes veículos de comunicação que fazem isso, mas sim as bolhas (grandes ou pequenas) proporcionadas pelos algoritmos e pela cultura digital. Quem faz tudo isso? Seria leviano apontar tudo para grandes empresas de gerenciamento de redes sociais, como a Mynd8, ou até mesmo para marketeiros menores tentando emplacar trends. Mas eles também têm sua parcela de culpa, sim, apesar de serem apenas sintomas de um sistema maior criado organicamente pela própria internet.

E aqui está a maior de todas as respostas: nós mesmos criamos toda essa lavagem cerebral quase distópica da qual fazemos parte. Tudo começou com CPFs até que, eventualmente, tudo virou uma mistura de pessoas físicas com CNPJs. Mas vale a pena lembrarmos de alguns momentos que proporcionaram descargas de dopamina em um passado recente. Então, aqui, vamos desenterrar algumas coisas da internet que ninguém mais lembra.

Pau de selfie

Vamos começar por algo que parecia que chegou para ficar, mas que não durou tanto tempo. Além disso, o objeto foi alvo de polêmicas. E, olhando em retrospecto, o objeto dá até a impressão de causar uma vergonha alheia em quem olha hoje em dia.

A febre dos selfie sticks, ou “pau de selfie, que dominou o período entre 2014 e 2016, surgiu como resposta direta à explosão das selfies impulsionada por smartphones com câmeras frontais cada vez melhores. O acessório, inicialmente popularizado na Ásia antes de se espalhar globalmente, oferecia uma solução simples: permitir que o usuário registrasse fotos mais amplas, incluindo grupos ou paisagens, sem depender de outra pessoa para apertar o botão. Em poucos meses, o bastão retrátil tornou-se item indispensável para turistas, adolescentes e influenciadores iniciais, sendo vendido em camelôs, aeroportos, lojas de eletrônicos e até em versões “premium” com Bluetooth. A combinação entre praticidade, preço baixo e apelo visual fez o objeto se transformar em um símbolo da cultura digital da época, aparecendo em memes, reportagens e até em debates sobre narcisismo moderno.

Mas o auge não durou muito. A popularização do acessório gerou também problemas: acidentes por distração, danos a obras de arte, tumultos em pontos turísticos e riscos em parques de diversões, o que levou vários museus, zoológicos e atrações, como a Disney e estádios de futebol, a proibirem o uso do item. Por volta de 2016, o pau de selfie já havia saído do centro das atenções, tornando-se quase um símbolo datado da primeira onda de hiperconectividade visual das redes sociais.

O início do Pokémon GO

Esse daqui foi quase uma histeria coletiva quando lançou. Muitas pessoas da época, que não tinham um celular adequado para jogar, acabaram baixando emuladores em computadores como uma forma de solucionar o problema. Já outras desistiram de jogar quando se deram conta que precisariam se deslocar fisicamente até os locais para jogar.

A febre do Pokémon Go, no lançamento em julho de 2016, foi um fenômeno global sem precedentes. Desenvolvido pela Niantic em parceria com a Nintendo e a The Pokémon Company, o jogo trouxe a tecnologia de realidade aumentada para as ruas, permitindo que jogadores “capturassem” Pokémon no mundo real usando seus smartphones. A proposta era simples: caminhar, explorar a cidade e interagir com pontos de interesse, aliada à nostalgia de uma das franquias mais populares do planeta. O app alcançou dezenas de milhões de usuários em poucos dias e cidades inteiras registraram aglomerações espontâneas em parques e praças, pessoas conhecendo vizinhos, caminhando quilômetros por dia, e até bloqueando avenidas para caçar criaturas raras.

Porém, com o tempo, o entusiasmo inicial perdeu força. Problemas técnicos, limitações do aplicativo, falta de recursos no lançamento e repetição das mecânicas fizeram muitos jogadores abandonarem o jogo pouco tempo depois. Além disso, acidentes envolvendo distração e uso do celular em locais perigosos geraram manchetes negativas e algumas restrições. Embora Pokémon Go continue ativo e tenha hoje uma base de jogadores fiel, o auge daquelas poucas semanas de 2016 nunca mais se repetiu e a maioria das pessoas nem lembra mais que esse jogo existe.

O desafio do manequim

Aqui tem um que foi mais famoso lá na gringa do que em terras tupiniquins. Contudo, ainda era possível ver algumas pessoas fazendo esse desafio por aqui nas poucas semanas que ele existiu.

A ideia surgiu como uma brincadeira entre estudantes da Edward H. White High School, em Jacksonville, na Flórida. A ideia era simples e visualmente impactante: um grupo de pessoas permanecia completamente imóvel, como manequins, enquanto a câmera passeava pelo ambiente ao som da música “Black Beatles”, de Rae Sremmurd, que rapidamente se tornou a trilha oficial do fenômeno. A estética era irresistível para as redes sociais e celebridades, atletas, políticos e até instituições públicas começaram a participar. Em pouco tempo, o desafio se tornou uma febre global.

Como tudo que estamos abordando aqui, o desafio do manequim desapareceu quase tão rápido quanto surgiu. Mesmo com milhões de visualizações e adesões de grande impacto, o viral não encontrou formas de se reinventar e acabou sendo engolido pelo ciclo acelerado da cultura online.

Harlem Shake

Esse daqui talvez tenha sido o principal viral de 2013 e até mesmo várias escolas ao redor do mundo estavam participando – inclusive a minha própria na época fez sua própria versão. Passados tantos anos, quase ninguém lembra.

O Harlem Shake, que explodiu como fenômeno global em fevereiro de 2013, teve origem a partir de um vídeo criado pelo youtuber Filthy Frank. No vídeo, um grupo aparece parado ou realizando ações comuns enquanto uma pessoa mascarada dança sozinha ao som da música “Harlem Shake”, de Baauer. Após o drop da música, a cena corta abruptamente para um caos total, com todos dançando de maneira frenética e absurda. A fórmula simples, repetível e absurdamente engraçada se espalhou de maneira explosiva: milhares de grupos começaram a fazer suas próprias versões. Em questão de dias, o Harlem Shake dominou o YouTube e impulsionou a música de Baauer ao topo das paradas, incluindo o primeiro lugar na Billboard Hot 100.

No entanto, a febre durou pouco. A repetição do formato rapidamente levou ao esgotamento criativo, e a avalanche de vídeos semelhantes reduzira o impacto humorístico que tornara o meme tão popular. Além disso, críticas começaram a surgir apontando que o desafio não tinha relação com o verdadeiro “Harlem Shake”, uma dança originada no Harlem nos anos 1980, levando a debates sobre apropriação cultural.

Vídeos de “massagem cerebral”

Não sei outra forma de definir esse tipo de vídeo viral dos últimos anos, mas eles parecem ser exatamente isso: uma massagem no cérebro. Cada “trend” do momento faz com que cada “fase” tenha uma vida tão curta quanto os outros virais, mas a ideia por detrás dos vídeos é sempre a mesma.

Exemplo: já viu aqueles vídeos que fizeram sucesso em 2023 de artistas misturando tintas de diferentes cores até conseguir um matiz diferenciado? Pois é: aquilo causa uma descarga de dopamina devido à estética, simplicidade e curiosidade que o conteúdo tem. Mas esse é só um tipo, pois têm outros semelhantes, como por exemplo a prensa hidráulica esmagando coisas aleatórias, a bola de metal incandescente versus qualquer coisa (gelo, objetos do cotidiano, etc.). Mais recentemente, uma das modas emergentes neste sentido são os shorts e reels de trabalhadores da Ásia extraindo e colhendo látex de seringueiras.

Não tem muito o que dizer e talvez esse seja o viral mais duradouro dos últimos anos. Porém, como dito: cada pequena “fase” desse tipo de vídeo tem vida curta e rapidamente acaba sendo esquecido.

Spinners

Aqui tem uma polêmica entre os amantes de Beyblade. Os fidget spinners, ou simplesmente spinners, tornaram-se uma sensação global por volta de 2017. Sua origem fosse mais antiga e menos glamourosa: o brinquedo começou como uma ferramenta terapêutica, supostamente criada nos anos 1990 para ajudar crianças com ansiedade, TDAH e dificuldades de concentração. Com o tempo, versões baratas passaram a ser produzidas em massa, e o spinner foi redescoberto por youtubers e influenciadores, que transformaram o objeto em um fenômeno visual irresistível: pequenos giros hipnotizantes, truques, competições improvisadas e coleções com designs variados. Em poucos meses, as vendas explodiram.

Mas o auge foi tão rápido quanto a queda. À medida que spinners inundavam o mercado, escolas começaram a bani-los por distração e barulho, enquanto especialistas contestavam sua eficácia terapêutica. A superexposição e o excesso de versões baratas acabaram saturando o público, e o interesse diminuiu drasticamente ainda em 2017. Em pouco tempo, o que havia sido um símbolo universal de moda e passatempo virou item esquecido em gavetas e caixas de brinquedos.

Morango do amor

Não sei quando o leitor vai se encontrar com o presente texto, nem mesmo se ele vai chegar até o final. Porém, se estiver lendo no início de 2026, deve se lembrar que em meados de 2025 essa sobremesa acabou virando uma febre sem precedentes aqui no Brasil. E essa é uma prova de que as coisas de internet raramente foram feitas para durar muito tempo.

A febre do “morango do amor” surgiu como um fenômeno espontâneo das redes sociais brasileiras, especialmente no TikTok e no Instagram, quando vídeos mostrando o tradicional morango coberto por açúcar caramelizado, típico de festas juninas e parques, começaram a ganhar enorme atenção. A estética vibrante, a textura brilhante e o apelo nostálgico do doce fizeram com que influenciadores passassem a criar conteúdos variados: desde receitas caseiras até vídeos humorísticos, transições e desafios envolvendo o doce. Em pouco tempo, o morango do amor virou protagonista de trends, filtros e até produtos temáticos, impulsionado pela mistura de nostalgia e espetáculo visual que costuma viralizar facilmente.

Com o passar das semanas, porém, o interesse diminuiu. A febre não deixou grandes desdobramentos culturais duradouros, mas permanece como um exemplo de como elementos simples do cotidiano podem, repentinamente, dominar a internet. Talvez o exemplo mais antigo que temos de sobremesa que viralizou e depois sumiu foram os “ovos de colher”, que se tornaram uma alternativa para quem não queria ovos de Páscoa convencionais e mais recheados. Porém, atualmente, a moda passou e não são todos que lembram dessa trend.

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