Dentro da comunidade de escritores e leitores, uma piada bastante recorrente é a de que um livro é a única forma de entretenimento que (ainda) não bombardeia o consumidor com publicidade invasiva. E, realmente, quando colocado em perspectiva como alguns conteúdos eram apresentados até alguns anos atrás e como são hoje, dá para ver que a tendência natural é que cada vez mais anúncios sejam colocados.
Quando o YouTube começou com a publicidade em seus vídeos, era apenas um anúncio por vídeo (no início de cada um) e dava para pular após cinco segundos. Permaneceu assim por um tempo, até que começaram a ser colocados mais anúncios no meio de cada vídeo. Depois vieram os anúncios duplos no início e durante boa parte dos vídeos. Alguns específicos nem dão para pular, sendo obrigatório assistir aos 15 segundos completos.
Um belo dia comecei a me questionar quanto tempo estava gastando por dia/mês/ano só assistindo à publicidade no YouTube. Como é uma das minhas formas de entretenimento no meu tempo livre, isso começou a me incomodar. Principalmente porque eu nunca comprei ou usei nenhum serviço veiculado nesses anúncios (ou pelo menos nunca por causa deles). E, para surpresa de zero pessoas, não existem estudos e dados estatísticos precisos que meçam uma média de quanto tempo alguém passa só vendo esse tipo de conteúdo não solicitado. Mas, fazendo algumas pesquisas e ligando alguns pontinhos, foi possível chegar a uma estimativa.

Segundo a Meltwater, uma das principais empresas de monitoramento de mídias digitais, existem alguns dados que podemos extrair do comportamento dos usuários com relação ao YouTube. De acordo com as informações da plataforma, um usuário costuma passar, em média, 49 minutos todos os dias assistindo a vídeos, o que dá uma média anual de 17.885 minutos — cerca de 12 dias em um ano. Aqui temos nosso pontapé inicial.
A quantidade exata de anúncios que o YouTube mostra por vídeo não é certa, pois esses dados não são públicos e costumam variar de usuário para usuário conforme o algoritmo vai “aprendendo” sobre cada um. Porém, dentro de alguns consensos nas métricas de marketing digital, estipula-se que são veiculados pelo menos 23 anúncios para cada hora de conteúdo assistido, o que equivale a cerca de 0,38 anúncios por minuto de conteúdo. Os anúncios no YouTube variam bastante, podendo ser de seis segundos, 15 segundos, 30 segundos ou até mais longos. Um valor médio razoável para um anúncio que é parcialmente visto ou pulado pode estar em torno de 20 a 30 segundos, segundo essas métricas.
É aqui que entram os nossos cálculos.
Se um usuário pode assistir a cerca de 17.885 minutos de vídeos por ano no YouTube, considerando uma média aproximada de 0,38 anúncios por minuto de vídeo, isso resultaria em cerca de 6.796 anúncios exibidos ao longo de um ano. Se cada anúncio tiver duração média de cerca de 25 segundos (aproximadamente 0,42 minuto), o tempo gasto assistindo à publicidade chegaria a cerca de 2,8 mil a 3 mil minutos anuais, o que equivale aproximadamente a 47 a 50 horas por ano vendo anúncios. Em outras palavras, um usuário pode passar até dois dias inteiros por ano assistindo apenas a anúncios no YouTube.
Mas aqui preciso ressaltar uma coisa: esse cálculo deve ser entendido apenas como uma estimativa, já que a quantidade real de publicidade pode variar bastante conforme o país, o perfil do usuário, o tipo de conteúdo consumido e o uso de serviços como o YouTube Premium, que elimina anúncios da plataforma. Portanto, a quantidade real de tempo gasto em média por um usuário pode ser bem diferente, mas são as informações que se conseguem obter com base nos dados que temos disponíveis.
Não dá para ser leviano e condenar essa situação como sendo deplorável ou qualquer outro adjetivo pejorativo. Sou jornalista e sei que minha profissão tem muita dificuldade de se manter sem publicidade (para não dizer que é impossível). Então, no final das contas, esses dois dias inteiros assistindo a anúncios no YouTube parecem ser um preço inevitável a se pagar para ter esse tipo de plataforma de entretenimento, cultura e informação.

Talvez a maior crítica seja o quanto o YouTube veicula anúncios que estão desalinhados com os gostos e comportamentos de cada usuário. Quer dizer: se o algoritmo é tão poderoso como dizem, como é que ele ainda não percebeu que existe uma parcela considerável de usuários que não tem interesse em tigrinho, ferramentas (falhas) de criação com IA e outros serviços corporativos aleatórios? Dá para contar nos dedos quantas vezes eu achei algum produto ou serviço minimamente interessante através desse tipo de publicidade. E não consigo me lembrar de quando consumi algo influenciado por tais anúncios. Aliás, posso dizer que é mais frequente o oposto.
Enfim, talvez a forma de resolver esses problemas seja pagar para não ver anúncios. Quer dizer: as empresas pagam para que as pessoas vejam seus produtos, e o usuário está pagando para não ver esses produtos. Chega a ser insano quando se coloca nessa perspectiva. Ou então, outra forma mais simples seja simplesmente continuar lendo bons livros. Eles, ao menos, já são o produto em si.
