Explorando os gêneros do terror: a versatilidade do slasher

Diferente do que se possa imaginar, o terror é um gênero composto por diversos elementos. Esses elementos formam o que chamamos de subgêneros. Talvez você goste de vários, ou apenas de um tipo de terror. Mas hoje, vamos explorar suas diferenças, entender como funcionam e conhecer seus principais aspectos. Vamos falar de um dos subgêneros mais versáteis: o slasher.

A fórmula aqui é simples: um assassino mascarado e um grupo de vítimas — na maioria das vezes, jovens. Mas o mais notável no slasher é ver como ele sobreviveu e se adaptou ao longo das décadas. Há uma discussão sobre qual teria sido o primeiro longa do subgênero. Apesar de já existirem filmes focados em assassinos, como “Psicose” (1960), a figura do perseguidor mascarado, que é a essência do slasher, surgiu com dois filmes de 1974: “Massacre da Serra Elétrica” e “Noite do Terror”.

Apesar de mais memorável que seu rival, “Massacre da Serra Elétrica”, visto em retrospecto, possui menos elementos do slasher tradicional do que os filmes seguintes. Sim, Leatherface tem um visual marcante, usa máscara, as vítimas são jovens inconsequentes e as mortes são memoráveis. No entanto, o longa vai além disso — e o personagem que ficou conhecido como o grande vilão, na verdade, é vítima da tortura psicológica imposta por sua própria família.

Já em “Noite do Terror”, acompanhamos membros de uma irmandade feminina perseguidas por um assassino na noite de Natal. Aqui, temos mais elementos típicos do slasher, como a perseguição noturna, o grupo de jovens e a revelação final do assassino. Dirigido por Bob Clark, o filme moldou as bases do gênero.

Porém, é em 1978 que John Carpenter redefine tudo com “Halloween”. Embora não tenha sido o primeiro slasher, foi ali que a fórmula foi consolidada. A figura mascarada, os clichês da “final girl”, a punição pelo sexo — todos os elementos clássicos estão presentes no longa de Carpenter. Esses clichês se perpetuam até hoje, mesmo com as transformações culturais de cada época.

Um dos maiores exemplos disso é a necessidade do vilão parecer sobrenatural. No final dos anos 1970 e início dos 1980, o chamado “pânico satânico” era popular. O sucesso estrondoso de “O Exorcista” e outros filmes com essa temática fez com que o sobrenatural se tornasse tendência. Assim, Michael Myers foi concebido como uma entidade — um bicho-papão invencível, sempre à espreita.

Esse padrão se repetiu por um bom tempo. Assassinos apareciam pouco, criando um ar de mistério monstruoso, ou eram literalmente seres sobrenaturais. Jason Voorhees e Freddy Krueger se encaixam perfeitamente nisso. Aliás, vale lembrar que, no primeiro “Sexta-Feira 13”, a vilã era Pamela Voorhees, mãe de Jason. Mas a franquia se tornou célebre quando adotou o assassino sobrenatural.

Em 1984, Wes Craven decide desvirtuar essa imagem com “A Hora do Pesadelo”. Freddy Krueger não era silencioso nem se escondia atrás de uma máscara. Seu terror vinha do carisma, das provocações e de uma vantagem única: atacava através dos sonhos. Freddy era tagarela, estranhamente alegre, e claramente se divertia torturando suas vítimas.

Nos anos 1970 o slasher nascia, nos 1980 ele se estabelecia, e nos 1990 vinha a renovação. “Sexta-Feira 13” estava morrendo, com Jason literalmente sendo enviado ao inferno; Halloween se reinventava, e “A Hora do Pesadelo” passava por reformulações ousadas.

Em meio a essa transição, surgem propostas mais maduras, como “Candyman” (1992), que apesar do vilão sobrenatural, traz uma trama investigativa com forte cunho social. Outros filmes apostaram no humor. A franquia “Brinquedo Assassino” começou a rir de si mesma em “A Noiva de Chucky”. Vilões improváveis surgiram, como o boneco de neve de Jack Frost.

Mas a virada de década exigiu mudanças. Assassinos precisavam ser mais humanos. Os clichês já não faziam tanto sentido.

Halloween teve um reboot onde a motivação de Michael Myers foi mais explorada, focando na perseguição à sua irmã. Em 1994, Craven lançou “Um Novo Pesadelo: A Volta de Freddy Krueger”, um filme metalinguístico onde Freddy escapa do roteiro e ataca os membros da produção. A abordagem ousada rendeu uma parceria com o roteirista Kevin Williamson, que resultaria em uma franquia revolucionária.

Se a revitalização do slasher nos anos 1990 tivesse um nome, seria Kevin Williamson. Ele escreveu “Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado”, com protagonistas moralmente ambíguos, e “Pânico”, dirigida por Craven.

“Pânico” (1996) mudou tudo. Desde a icônica morte de Drew Barrymore na cena inicial, até a autoconsciência dos personagens, o longa subverte os clichês. O vilão é humano, comete erros, e sua motivação vem de outros filmes do gênero. Não à toa, “Pânico” sobrevive até hoje, atualizando suas críticas e se adaptando às tendências, inclusive zombando de seus próprios fãs.

Nos anos 2000, o gênero passou por uma fase sombria. Tirando exceções como “Premonição” e “Pânico na Floresta”, o slasher mergulhou em uma onda de remakes. Foi salvo novamente por “Pânico 4” (2011), que satirizou essa moda e ajudou a encerrá-la.

Hoje, com a internet e a facilidade de informação, o modelo de “vítima isolada” não convence tanto. Misturas de gêneros são comuns, trazendo obstáculos novos e protagonistas mais complexos. Filmes com comédia, como “A Morte Te Dá Parabéns”, ou que subvertem clichês, como “X – A Marca da Morte”, ganham espaço. Outros, como “Isolamento Mortal”, ambientado na pandemia de COVID, talvez envelheçam mal pela sua contextualização muito específica.

O fato é que o slasher passou por muitas mudanças. De assassinos sobrenaturais a jovens surtados, de protagonistas inocentes a personagens com culpa. Mas o medo da perseguição e do desconhecido sempre esteve lá.

Entre mortes inventivas e visuais icônicos, fica aqui uma lista para entender o slasher ao longo das décadas:

  • Estabelecimento do gênero: Halloween, Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo
  • Mudanças e reformulação: Candyman, Pânico, Premonição
  • Atualizações e subversões modernas: X – A Marca da Morte, A Morte Te Dá Parabéns, Feriado Sangrento

No fim das contas, o slasher é uma salada de elementos — e talvez por isso seja o mais versátil dos subgêneros do terror. O futuro? Difícil prever. Mas uma coisa é certa: ele sempre encontrará um jeito de voltar.

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