Não dá para ter total certeza de quem irá ler nossos textos uma vez que eles são publicados, apesar de termos um público-alvo sempre em mente. Dessa forma, ao ler esse título, dependendo da pessoa que o fez, pode dar as seguintes respostas: “sim”, “não” ou “nunca pensei nisso”. Porém, o tom de tal resposta certamente varia bastante, com alguns sendo mais enfáticos, agressivos ou respeitosos.
Quando tais reações e respostas surgem, podemos tirar uma única conclusão: essa conversa é polêmica e precisa de um maior detalhamento. Tudo que causa murmurinhos, por natureza, significa algo cuja verdade não é tão fácil de se alcançar. Bom, então vamos filosofar um pouco sobre isso.
Antes de tudo, é importante lembrar que prostituição não é a profissão mais antiga do mundo. Só pare para pensar no seguinte: ora, se este fosse o primeiro ofício do mundo, então como os homens conseguiam dinheiro para pagar pelo serviço? Então, por mais que, de fato, seja uma prática tão antiga quanto o próprio ser humano, certamente não foi a “primeira” no sentido literal da palavra. Do ponto de vista prático, a afirmação é muito mais uma espécie de “bravata” ou expressão idiomática que se verifica em quase todas as línguas do mundo. Algumas pesquisas e raciocínios apontam que, por exemplo, a profissão de cozinheiro teria vindo antes mesmo que a prostituição.
Outro ponto muito importante de se pensar é no “porquê” de muitas mulheres recorrerem a alugar o próprio corpo para fins sexuais em troca de dinheiro. E novamente: seria muito leviano apontar um ou poucos motivos que empurram uma mulher para a prostituição, mas é seguro afirmar que a grande maioria é por necessidade financeira ou por serem vítimas de algum tipo de exploração da qual é difícil fugir. É natural que algumas vertentes do discurso feminista afirmam que a prostituição poderia ser vista como uma forma de empoderamento feminino, mas essa visão é polêmica até dentro da própria ideologia. Aliás, a prostituição em si é algo polêmico em qualquer lugar, mas enfim. Não digo que não existam prostitutas que iniciaram tal vida como uma forma de “rebeldia”, mas elas são muito mais raras do que essas correntes radicais do feminismo gostariam que existisse.
Não obstante, quando se pensa em venda de conteúdo adulto na internet, a coisa costuma mudar um pouquinho de figura – mas também depende do ponto de vista. De acordo com o que se vê por aí (e também um pouco de minha experiência pessoal de ter tido a oportunidade de conversar com algumas dessas meninas), a maioria de fato é empurrada para o mundo dos “conteúdos” por necessidade, mas existem determinadas complexidades nisso. Algumas dessas mulheres não necessariamente se viram desesperadas a ponto de ceder a isso, mas sim viram nessa vida uma forma de obter dinheiro rápido e fácil, aproveitando-se do fato de serem bonitas. Dessa forma, é quase como uma visão de “oferta e demanda”, mas vendo muito mais o lado da “oportunidade” do que a “necessidade”. Em outras palavras, apesar de muitas dessas meninas iniciarem nesta vida pelo desespero, uma parcela significativa também parece estar entrando como uma forma fácil de ganhar dinheiro por saberem que têm gente que vai pagar.
Mas é bom reforçar que tal perspectiva de grana e conforto, na maioria das vezes, é ilusória. Até uns anos atrás, era relativamente fácil monetizar em cima de fotos com nudez. Hoje em dia, esse tipo de conteúdo é visto como “fraco” ou “insosso”. Dessa forma, para conseguir alguma relevância, é necessário apelar para vídeos de sexo explícito. E assim, começam os conflitos de interesses (além da degradação), uma vez que os homens raramente aceitam gravar sem receber algum tipo de compensação financeira. Isto é compreensível, pois o rapaz pode estar se sentindo “usado” se a menina está ganhando rios de dinheiro e ele apenas está transando.
E isso que nem entrarei no mérito das agências especializadas em produzir e promover os vídeos de novatas, mas que no final das contas acabam abocanhando a maior parte do dinheiro, a ponto de quase ser um golpe. Isso, no final das contas, acabou se tornando uma espécie de “indústria pornográfica dos anos 2020”, mas esse é um papo para outra hora.
Com isso tudo, voltamos à pergunta que dá título a esta crônica: criadoras de conteúdo adulto podem ser consideradas prostitutas? Bom, se o bicho tem bico de pato, tem asa de pato, anda como um pato, faz “quá quá”, dá para dizer com alguma certeza que, sim, aquele bicho é um pato. Ou seja: dá sim para considerar as meninas que vendem conteúdo adulto na internet como prostitutas.
Eu consigo imaginar o que muitos estão pensando agora.
“Ah, mas as meninas dos conteúdos não vão para a cama com ninguém a troco de dinheiro!” Bom, dizer isso é no mínimo problemático, uma vez que elas estão literalmente transando ou se masturbando em troca de dinheiro. Mas vamos ainda mais além. Prostituição não significa necessariamente transar com alguém em troca de dinheiro, mas sim oferecer o próprio corpo/serviço em troca de alívio sexual do cliente. De uma forma mais simples, o freguês não quer sexo, mas ele quer o orgasmo da ejaculação. Ele quer gozar. Esse é o objetivo final da prostituição se formos observar o aspecto econômico da coisa toda. “O cliente não quer um buraco na parede, mas sim pendurar um quadro na sala.” Entende? Dessa forma, pouco importa se a prostituta deixa que ele penetre seu pênis em sua vagina, ou então que forneça fotos e vídeos para que ele se estimule e goze pensando nela.
“Ah, mas então está dizendo que mulheres que posaram nuas em revistas também são prostitutas?” Não dá pra negar que elas também estavam se prostituindo. É fato. E o mesmo vale para atrizes pornô. Ou acha mesmo que as pessoas compravam revistas Playboy e Sexy pelo aspecto “artístico” da coisa toda? Por favor…
Só que, talvez, uma discussão mais válida envolvendo toda essa questão é o “quanto” a internet facilitou e iludiu a maioria das mulheres e as levou a pensar que este tipo de “atitude” as fará levar vantagem. É óbvio que existem diversos cases de sucesso nas plataformas que ganham muito dinheiro. Porém, elas são apenas uma pequena pontinha de um iceberg muito mais complexo.
De acordo com estatísticas do próprio OnlyFans, revelado em um artigo do Social Rise, 1% das criadoras mais bem pagas ganha 33% da receita total da plataforma, enquanto os 10% mais mal pagos têm dificuldade para ganhar dinheiro. A criadora média do OnlyFans ganha em torno de US$ 150 a US$ 180 mensais, enquanto outras ganham de US$ 100 mil a US$ 1 milhão anualmente.
O que dá para extrair desses dados é uma conclusão bem clara: existe uma massa muito grande de meninas que estão se iludindo com a ideia de ficarem ricas vendendo conteúdo adulto na internet, quando na verdade apenas uma minoria muito exclusiva que está faturando muito. Porém, como a projeção desses cases de sucesso é bem maior do que a maioria anônima de fracasso, a ilusão que se tem é que é muito fácil e rápido ascender social e economicamente dessa forma. Só que com a diferença que tais conteúdos ficarão para sempre na internet e cedo ou tarde alguém surgirá para relembrar o passado dessas meninas. E muitas delas sequer ganharam algum dinheiro dessa forma e apenas se expuseram de forma degradante.
Sei bem que a maioria das pessoas não quer ter filhos hoje em dia, mas os filhos virão de um modo ou de outro, querendo ou não. E esses filhos virão até mesmo para essas criadoras de conteúdo adulto. Cedo ou tarde os coleguinhas maldosos da escola irão descobrir quem a “milf” é, então como será para essa criança caso chegue até ela um vídeo da própria mãe fazendo sexo? Gostaria de que tivesse um estudo em reportagem que investigasse os filhos de ex-atrizes pornô só para ver uma coisinha… Ah, e se eles tiveram uma criação achando que esse tipo de coisa é “normal”, daí temos um outro problema tão grande quanto ou até mesmo maior.
Em suma, as meninas dos Privacy da vida são, sim, prostitutas. Virtuais, mas são. E não venha com o papinho gourmet de que elas são “sex workers” porque isso é dourar a pílula. Talvez não seja esse o problema, pois como já detalhado, a maioria das prostitutas entram nessa vida por necessidade ou vulnerabilidade. A grande questão é quanto a internet está levando muitas meninas a pensarem que este é o caminho mais fácil, quando na verdade, na maioria das vezes, elas só estarão se expondo e sequer vão ganhar muito dinheiro por isso. E talvez isso também revele um aspecto feminino ainda mais trágico.
