“Round 6” perdeu sua alma ao longo das temporadas

Em 2009, o sul-coreano Hwang Dong-hyuk escreveu o roteiro de “Squid Game”, projeto que seria conhecido no Brasil como “Round 6”. Na época, sua história foi considerada irrealista, brutal e exagerada demais. Com o passar dos anos e o aumento da popularidade de produções sul-coreanas no Ocidente, a Netflix decidiu investir em seu projeto. Assim, em 2021, chegou ao catálogo do streaming o que viria a se tornar a série mais assistida de sua história.

A trama e o protagonista: moralidade em queda livre

Na trama, acompanhamos um grupo de pessoas que participa de jogos infantis. O vencedor ganha um prêmio bilionário, mas os perdedores enfrentam consequências mortais. O protagonista é Seong Gi-hun e, logo no primeiro episódio, entendemos quais temas a série irá explorar. Vemos um dia na vida de Gi-hun: desempregado e viciado em apostas, ele corre atrás de dinheiro para comprar um presente de aniversário para a filha. A intenção pode parecer nobre, mas sua ganância faz com que essa impressão caia por terra.

É possível dizer que Gi-hun não toma uma decisão certa ao longo do episódio. Quando consegue algum dinheiro, gasta tudo em corridas de cavalo. Após vencer uma aposta, tem o azar de encontrar os agiotas aos quais deve. Apesar disso, em meio às suas trapalhadas, vemos que Gi-hun possui intenções genuínas de ajudar as pessoas. Mesmo com dificuldades, consegue levar a filha para jantar no seu aniversário.

Dessa forma, o primeiro episódio é eficaz em apresentar o que a série trará. Além do desenvolvimento do protagonista, que se sustenta pela temporada inteira, já compreendemos desde o início os temas abordados e o posicionamento do roteiro diante deles.

O elenco diverso e as representações sociais

Além de Gi-hun, temos outros personagens marcantes:

Cho Sang-woo, formado em uma boa universidade, aparentemente um homem de sucesso, mas afundado em acusações de corrupção. Algumas das decisões mais questionáveis da série partem dele.

Kang Sae-byeok, desertora da Coreia do Norte, marginalizada e, por isso, fria e fechada. Possui uma das motivações mais nobres: reunir sua família.

Abdul Ali, imigrante paquistanês constantemente explorado no trabalho. O mais inocente de todos, e, por isso, punido com mais crueldade.

Oh Il-nam, um senhor de idade que sofre, aos poucos, com demência, mas que traz um tom filosófico à trama.

Por fim, temos o investigador Hwang Jun-ho, infiltrado para expor o jogo ao mundo. Sinceramente, esse personagem parece uma exigência da Netflix para que o público tenha uma visão externa e compreenda como o jogo funciona nos bastidores. Ainda assim, ele cumpre seu papel na trama.

Quando observamos essa pluralidade de personagens inseridos no mesmo contexto, a ideia que surge é a de igualdade. Não importa sua formação ou status social — todos estão na mesma situação de vida ou morte em nome do dinheiro.

Introduzindo o jogo: regras, violência e crítica social

O jogo é estruturado como a rotina de uma empresa: todos usam roupas iguais, como uniformes, possuem horário para acordar, para comer e vivem sob a ilusão de liberdade de escolha. Afinal, o jogo pode ser encerrado a qualquer momento, mas todos sabem que, ao sair, retornariam à vida miserável de sempre. Além disso, a decisão de fazer os participantes passarem por versões mortais de jogos infantis simboliza a perda da inocência.

Todas essas ideias e conceitos são amarrados pela violência. Constante e chocante, ela nos pega de surpresa da primeira vez, mas logo é apresentada como mais uma consequência das decisões que os levaram até ali.

O verdadeiro jogo por trás do jogo

A primeira temporada é clara em sua proposta: “Round 6” é sobre pessoas, não sobre dinheiro. O roteiro de Dong-hyuk é pautado nessa ideia, desenvolvendo personagens com histórias e motivações plausíveis.

Gi-hun possui uma simpatia natural que, graças a ela, reúne um grupo improvável de aliados. Mas, conforme avança no jogo, essa simpatia — e talvez sua inocência — se esvai, obrigando o grupo a se separar em cenas de traição dolorosas de assistir.

Ao final da temporada, temos a revelação que escancara todas as críticas da série: tudo não passa de um espetáculo, no qual pessoas ricas apostam e se divertem assistindo os jogos. Se os participantes representam funcionários correndo atrás de seu sustento, os ricos são as engrenagens que movimentam o sistema. Observando de longe, convencem-se de que as conquistas dos participantes são fruto apenas de mérito.

Mesmo após tudo, Gi-hun sai vencedor, mas profundamente traumatizado. Apesar do dinheiro na conta, não mexe no prêmio por meses, corroído pelo sistema. Apenas ao resistir a isso é que consegue voltar à realidade. Quando está prestes a seguir sua vida, decide voltar e tentar destruir o sistema de dentro para fora. Com um final em aberto, mas não inconclusivo, “Round 6” completa um ciclo perfeito entre crítica, trama e personagens — deixando claro que o foco está nas pessoas e na importância de manter a alma pura.

Mais temporadas, menos essência

Porém, a Netflix queria mais. Impulsionada por seu modelo de negócios — no qual quantidade importa mais do que qualidade — não demorou para encomendarem mais temporadas, por mais desnecessárias que fossem. Considerando que o roteiro da primeira temporada estava pronto desde 2009, e que sua história se fecha com clareza quanto às críticas e temas, é seguro dizer que a segunda e a terceira temporadas não estavam nos planos originais.

Na segunda temporada, descobrimos que Gi-hun passou anos investindo seus recursos para encontrar o recrutador dos jogos. Com o objetivo de desmantelar o sistema de dentro, acaba preso novamente em outro ciclo de jogos mortais.

A segunda temporada começa abordando os mesmos temas, mas com novos argumentos. O foco recai sobre o recrutador, figura que aparecera pouco anteriormente, mas que agora tem seu sadismo amplamente explorado. Em uma cena marcante, ele faz um grupo de moradores de rua escolher entre pão e loteria, reafirmando a crítica ao entretenimento baseado no sofrimento e na falsa sensação de escolha. Além disso, ele protagoniza um dos momentos mais tensos da temporada, ao conduzir seu próprio jogo mortal — mais íntimo e, por isso, mais angustiante.

O primeiro episódio da temporada é muito bom, mas tudo termina do mesmo jeito: com Gi-hun preso nos jogos. Apesar da repetição da fórmula, a maior qualidade do roteiro ainda está presente — os personagens. Novas figuras são introduzidas com pontos de vista distintos, ganhando mais destaque que o próprio Gi-hun em muitos momentos.

No entanto, a dificuldade de Dong-hyuk em estender a trama é visível. Há, no mínimo, o dobro de subtramas em relação à primeira temporada, além de um final inconclusivo que mais parece uma interrupção do que um gancho para a terceira temporada.

A terceira temporada e o colapso da narrativa

Quando ela chega, temos um cenário bagunçado. Com a história se aproximando do fim, as subtramas se acumulam e parecem não ter fim — tampouco importância.

Gi-hun mal fala, pouco faz e cede a impulsos violentos. Isso poderia ser interessante se fosse desenvolvido com mais seriedade. Em uma das provas, ele mata um personagem que era seu companheiro — algo que o antigo Gi-hun jamais faria. Porém, mais à frente, hesita em matar um adversário direto. Tal decisão soa incoerente com a anterior e, se fosse melhor explorada, poderia retomar a discussão central da série: manter a alma pura diante da crueldade.

Com isso, a segunda e a terceira temporadas se revelam, de fato, redundantes e desnecessárias.

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