Alguns títulos mais icônicos vêm à mente quando se lembra do lendário mangaka de terror Junji Ito, como “Uzumaki”, “Gyo” e “Tomie”, além de diversos contos curtos encontrados em coletâneas. Sua obra, aliás, adotou um aspecto quase místico na internet, uma vez todos seus trabalhos compartilham de algumas características básicas, como a estranheza e o bizarro. Seu estilo de traço, destacando muito o olhar dos personagens e os aspectos grotescos da narrativa, contribuem para que o autor tenha sua identidade bem reconhecida dentre os amantes de terror.
Contudo, existe uma obra de Junji Ito que não costuma ser tão comentada quanto “Uzumaki” e outras. E quando se observa todo o teor do mangá, apesar de talvez ser o melhor do autor, é compreensível. Esta é uma história não só terrível e que eleva o horror cósmico em um nível astronômico. Porém, ela também é uma obra capaz de deixar qualquer um com um gosto ruim na boca devido ao seu niilismo escancarado. Este é o caso de “Hellstar Remina”, que no Brasil foi traduzido como “Planeta Demoníaco Remina” (um caso clássico de falha na tradução de título).

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Contexto
Junji Ito é um mestre do mangá de horror, cuja carreira começou nos anos 1980 com contos perturbadores, consolidando-se como referência internacional do gênero. Nascido em 1963 na prefeitura de Gifu, Japão, ele se destaca não apenas por sua habilidade em criar atmosferas de terror psicológico, mas também pela capacidade de explorar o grotesco e o absurdo por meio de traços detalhados e uma narrativa intensa.
Sua obra “Planeta Demoníaco Remina” (no original, “Jigokusei Remina”, algo que poderia ser traduzido literalmente como “Remina Infernal”), publicada de 2004 a 2005 na revista Big Comic Spirits e compilada em um volume único, é considerada por muitos como sua obra-prima do horror cósmico, variando entre críticas ao comportamento humano e imagens de horror astronômico. A história segue Remina Ooguro, uma jovem cujo pai batiza um misterioso planeta vindo de um buraco negro com seu nome, desencadeando fama instantânea e pânico global quando o objeto revela ser um organismo monstruoso em rota de colisão com a Terra.
Conforme o “planeta-demoníaco” acelera em direção ao nosso sistema solar, ele consome estrelas e planetas no caminho, gerando caos global e histeria. Uma onda de fanatismo se espalha, com seitas e multidões acusando Remina e seu pai como a causa das desgraças, chegando a crucificá-los como sacrifício para salvar a Terra. A arte macabra de Ito, com seus detalhes meticulosos e cenas grotescas, intensifica a sensação de desespero, fazendo do mangá uma experiência claustrofóbica e alucinante. Premiado internacionalmente (como no Eisner Awards em 2021) e considerado uma das melhores obras de Ito, “Planeta Demoníaco Remina” ressoa com os fãs do horror cósmico — se aproximando da atmosfera de H. P. Lovecraft — enquanto amplia a obra do autor para além dos contos curtos, com uma narrativa completa e impactante.

O clichê de uma Tokyo futurista
Chega até ser meio clichê hoje em dia ambientar uma história na capital japonesa no futuro, uma vez que diversas obras fazem o mesmo. E de fato podemos ver aqui uma Tokyo com carros voadores e pessoas passeando com propulsores a jato, além de menções a bases espaciais na Lua e em Marte. Porém, aqui, o avanço temporal e tecnológico é um mero detalhe que apenas ambienta a história um pouco melhor. Além disso, esse elemento é uma mera “piscada” para a ideia de que o ser humano segue sendo uma besta selvagem, mesmo que disponha de diversos avanços e confortos de uma vida moderna.
Nas primeiras páginas somos apresentados a uma cena chocante de uma garota sendo crucificada com uma multidão furiosa ao redor dela, em uma cena macabra e bizarra (que lembra um pouco uma das partes mais tristes de Devilman, de Go Nagai). Isto, por si só, já é o bastante para chamar atenção de qualquer leitor que se depara com algo de tamanha bizarrice. A técnica de “in media res” costuma ser muito útil para “vender” uma boa história cujo o início é mais lento ou desinteressante.
No primeiro capítulo, assim como é de praxe em muitos mangás, o desenvolvimento é ágil e dinâmico, pois o autor deseja chegar logo no “ponto central” da trama. Esta é uma característica frequente mais por uma questão mercadológica do que artística, uma vez que mangás na maioria das vezes são feitos para serem vendidos e consumidos em uma lógica de capitalismo selvagem. Assim, o quanto antes um mangaka “mostrar a que veio” melhor, pois existem mais chances de que a obra seja acompanhada e apoiada por editores e leitores. Afinal de contas, mesmo sendo o mangaka de terror mais famoso e conceituado do mundo, Junji Ito ainda está sujeito a exigências editoriais e aos boletos e impostos. Mas vale o destaque para o fato de que esta “rapidez” é apenas no primeiro capítulo, pois logo em seguida o autor tira o pé do acelerador e desenvolve a trama em um ritmo menos apressado. E aqui, ele faz o que sabe fazer melhor: compor uma história bizarra e com quadros desconfortáveis.
Junji Ito é um mangaka que conhece bem suas qualidades e limitações artísticas. Sua capacidade de criar cenários hipotéticos assustadores, que são traduzidos pela sua arte bizarra e de traços fortes, é a marca registrada de suas obras. Além disso, é notório o quanto ele observa a realidade social japonesa e humana e a compreende com notória clareza. Contudo, como “contador de histórias”, ele costuma penar em diversos momentos, mostrando dificuldade em desenvolver de forma mais refinada muitas de suas ideias narrativas. E quando falamos de construção de personagens, aqui ele mostra sua maior fragilidade, uma vez que todos parecem os mesmos que não possuem quase nenhuma personalidade. Chega até ser meio “engraçado” quando se pensa a respeito, uma vez que esta é uma característica recorrente na população japonesa “normal”, então pode se pensar que esta é uma licença poética pra retratar a “pessoa comum”. Mas ainda assim isso tem um limite.
Em “Planeta Demoníaco Remina”, temos uma das (senão a) narrativas de Junji Ito melhor construídas, como se ele soubesse melhor desde o início qual seria o desenvolvimento dela como um todo. Ele demonstra muito bem o domínio dos conceitos centrais do dito “horror cósmico”, tendo atingido um nível que nem mesmo H.P. Lovecraft atingiu em seus contos. Contudo, talvez este nível tão alto tenha custado caro e falaremos disso mais adiante.

Remina planeta X Remina “estrela”
Lembra o que havia dito a respeito da tradução imprecisa ao chamar Remina de “planeta demoníaco” no título? Então, aqui entra o jogo de palavras que faz com que a história tenha o “molho” que dá o gosto de alfinetada que Junji Ito traz neste mangá. A “estrela” pode ser tanto a pessoa quanto o corpo celeste. Deu para entender o trocadilho, não é?
Não é de hoje que o autor tece críticas sociais em suas obras, sendo que em algumas vezes ele sequer faz questão de ser sutil e transforma um incômodo latente em algo grotesco e exagerado. E aqui, seu principal objeto de paralelo é mostrar como o ser humano pode ir de idólatra para selvagem em um piscar de olhos. E mais: o objeto de tal comportamento, de forma estranha, é o mesmo.
Esta característica lembra muito as religiões antigas com conceitos ambivalentes empregados a uma mesma divindade. Um dos maiores exemplos disso é a mitologia grega, na qual, por exemplo, Apolo poderia representar tanto a doença como a fonte de cura. Ou então Poseidon, que poderia ser o responsável por pescas fracas, mas também aquele que entrega a fartura que vem do mar. Os deuses são aqueles que causam o problema, então devem ser acalmados para que também tragam a solução. E qual seria essa? O mais frequente observado era um sacrifício ritual, na qual o termo “bode expiatório” acabou se originando – aquele que acaba pagando pelos erros de outros, ou pelo mero azar do acaso.
Aqui, este paralelo também pode ser observado. A diferença é que Remina “humana” precisa ser sacrificada para que Remina “planeta” poupe a terra, mas o corpo celeste também é uma “estrela”, digamos, a ponto que exista uma fronteira muito turva entre o que é o que na concepção do imaginário coletivo. No fim, a Remina “humana” se aproxima mais do que poderíamos interpretar como um “bode expiatório”, a ponto de que tanto a “causa” do problema também seja a “solução”. Em outras palavras, a história expõe de uma forma muito crua o aspecto macabro de um paganismo inerente ao ser humano. Porém, aí de forma quase involuntária, Junji Ito acaba respondendo qual é a solução para tal situação: aquele que foi sacrificado na Cruz. Mas aqui é seguro dizer que o mangaka não teve qualquer intenção de trazer uma mensagem cristã para sua obra, sendo que talvez até mesmo tinha como objetivo satirizar inclusive o cristianismo, mas de uma forma quase irônica acabou criando uma história que pode ser interpretada dessa forma.
Não obstante, tais questões envolvendo a natureza humana e religião não são o grande ponto de discussão deste mangá, uma vez que o problema central é com relação à idolatria dos ditos “idols”. E aqui, Junji Ito faz um serviço monumental em causar toda a estranheza necessária para que a mensagem faça sentido: Remina era uma bela garota tímida que, por um motivo até mesmo “bizarro”, foi alavancada ao estrelato mesmo contra sua vontade. Vale reparar que em nenhum momento nos é mostrado qual é seu trabalho, podendo ser como modelo, atriz ou cantora. Ela é simplesmente “uma estrela” que sequer entende a si mesma e que acabou sendo objeto de desejo e admiração – mesmo que fosse alguém completamente normal. O jeito tímido e retraído da protagonista até acentua ainda mais seu aspecto de “ovelha”, que é dócil a ponto de aceitar o próprio abate ou sacrifício que viria acontecer na história.
Na época da publicação original do mangá, as redes sociais e a internet ainda não eram tão difundidas como hoje em dia. Dessa forma, é possível afirmar com precisão que Junji Ito estaria se referindo à cultura de massa que ainda era muito mediada pela grande mídia (TV, rádio, imprensa). Imagina se fosse atualmente, quando pessoas comuns são alavancadas para a fama nas redes sociais, muitas vezes pelos motivos mais ridículos possíveis – até mesmo uma cara feia para uma criança birrenta no avião pode te deixar rico.

O niilismo incomoda
Uma das maiores provas de que Junji Ito não tinha qualquer intenção de criar uma história com uma mensagem cristã é justamente o seu final amargo e vazio – literalmente. De uma forma crua e direta, o planeta Terra é destruído e somente um pequeno grupo sobrevive dentro de uma capsula. Contudo, não há qualquer esperança para os sobreviventes, pois todo o Sistema Solar foi destruído e os suprimentos de ar e comida do abrigo durarão apenas um ano, o que os levará a uma morte certa e eventual.
Por algum motivo, este final lembra muito o desfecho do jogo “Soma”, na qual o conceito é quase o mesmo. Um super computador contendo a consciência das pessoas ficará vivendo por milênios em um mundo simulado, sem saber da verdade, enquanto a verdadeira humanidade foi destruída. O desespero do protagonista ao perceber que sua mente não foi “transportada” para a nave, mas sim apenas “copiada”, enquanto ele mesmo foi deixado para “morrer” não é só aterrorizante, como também deprimente.
Aqui, o “sabor” é praticamente o mesmo. É um desfecho niilista, sem qualquer tipo de esperança, que está intrinsecamente conectado com a ideia de horror cósmico – aliás, é seguro afirmar que este gênero literário não existiria sem o próprio niilismo. Contudo, nas obras lovecraftianas, ainda existe a possibilidade de especular alguma chance de esperança, devido ao fato de os contos serem mais “abertos”. Vale lembrar que toda a conexão do universo de Lovecraft foi feita após sua morte, uma vez que os contos por si mesmo, quando colocados em comparação, possuem algumas contradições narrativas – o que não diminui a qualidade de sua obra, veja bem. O ponto aqui é parece existir um certo “limite” no quanto o niilismo de uma obra de terror pode chegar antes que ela se torne deprimente ao ponto de desmoralizar a sensibilidade.
Isso se observa pelo próprio fato de que “Planeta Demoníaco Remina” é a história mais bem construída de Junji Ito, mas ainda assim costuma ser vista como uma espécie de tabu pelos fãs. Até mesmo outros mangás de menor qualidade narrativa, como “Uzumaki”, que se apoia apenas no seu conceito bizarro, costuma ser mais apreciado. E o motivo disso é que se tirar totalmente o sentido “edificante” de uma obra, ela acaba perdendo seu sentido por si só. Ela pode trazer uma experiência? Sim, pode. Mas qual é o sentido da própria experiência niilista de uma narrativa se o sentido é niilista? Parece haver uma contradição na própria ideia e, por isso, a própria reação das pessoas em olharem tais narrativas com certa “reticência” expõe isso muito bem. Acredito que Junji Ito deva ter se dado conta disso quando estava concluindo o mangá e tentou dar uma ligeira amenizada, fazendo um dos personagens dizer que “pode acontecer outro milagre em um ano”, mas ainda assim foi uma tentativa falha.
No fim, o que faz “Planeta Demoníaco Remina” ainda ser lembrado, editado e imprimido é o fato de compor o trabalho de um autor renomado e possuir qualidades técnicas que se distanciam dos outros títulos do mesmo artista. Porém, talvez este fosse um mangá obscuro e eventualmente esquecido caso não tivesse algum destes elementos. O que, ironicamente, corroboraria com o próprio niilismo contido na obra.

Situações absurdas
É impossível não ter vontade de rir em alguns momentos da leitura do mangá devido ao absurdo da situação. No final, um simples mendigo acaba sendo o salvador não só de Remina como também dos últimos sobreviventes da humanidade dentro da capsula antinuclear. Sabemos nas últimas páginas que aquele é o filho perdido do bilionário que patrocina a protagonista, que “havia saído de casa para virar astronauta”. A revelação explica como um morador de rua acaba tendo tanto conhecimento sobre física e astronomia, além de não falar e agir como um indigente em muitos momentos.
Mas o tom cômico, que ajuda a “aliviar” um pouco o tom pesado da obra é quando no final, tanto Remina quanto o seu salvador acabam dando várias voltas ao redor da Terra com uma multidão voando atrás deles. Isto acontece porque o planeta Remina estar “lambendo” o globo, aumentando a rotatividade e fazendo a gravidade ficar mais leve. E sim, o tom absurdo da cena acaba ficando estranhamente engraçado.
Pouco antes do fim do mangá também somos revelados que o “mascarado”, o cultista que estaria incitando que Remina deveria ser sacrificada, é na verdade o presidente de seu fã-clube que se sentia incomodado pelo fato de ser rejeitado. Aqui talvez seja questão de ponto de vista, mas tal revelação pode soar tanto cômica quanto trágica ou até mesmo irrelevante – ou tudo isso ao mesmo tempo. Além disso, é óbvia a mensagem por detrás de tal fanatismo, dentro do contexto bizarro da narrativa de Junji Ito, mas ainda assim é algo que não tem qualquer serventia no fim das contas.
