A influência soviética no Brasil durante a Guerra Fria

Quando se pensa a respeito da Guerra Fria, muitas imagens são evocadas no imaginário popular. Particularmente, um dos momentos culturais mais intensos da época foram as diversas obras distópicas e que abordavam temas envolvendo guerra nuclear. Afinal de contas, este foi o maior medo mundial durante o conflito não-declarado entre Estados Unidos e União Soviética.

Raramente se pensa no Brasil envolvido em qualquer questão envolvendo a Guerra Fria, mas este é um engano. Basta lembrar que, naquele tempo, durante 21 anos, o país esteve sob o Regime Militar que, de certa forma, foi um dos desdobramentos do contexto mundial que se vivia. Somente em tempos mais recentes que começou a se descobrir a respeito da influência estrangeira em terras tupiniquins naquele tempo. E de fato, muita coisa interessante pôde ser revelada a partir disso.

Uma das leituras mais elementares para que se entenda tais questões é “1964: O Elo Perdido – O Brasil nos arquivos do serviço secreto comunista”, dos autores Mauro “Abranches” Kraenski e Vladimír Petrilák e publicado em 2017. Tal como os idealizadores da obra apontam, o objetivo não é trazer qualquer nova perspectiva a respeito do que já se sabe a respeito do Regime Militar. E, de fato, isso se constata ao longo da leitura, uma vez que nada do que “já sabemos” nos é revelado. Não obstante isso, é possível ter acesso a muitas informações a respeito de como o serviço secreto da Tchecoslováquia operou no Brasil entre os anos de 1952 e 1971. Também é possível tirar algumas conclusões bem claras sobre os objetivos soviéticos por aqui, além das inúmeras limitações técnicas dos agentes.

Talvez um dos pontos mais negativos do livro seja a ideia geral que o título nos entrega. Isto porque nós podemos imaginar que a antiga União Soviética teve um papel mais sólido no Golpe de 1964, quando na verdade é até o oposto: o próprio serviço comunista no Brasil foi pego de surpresa com o que aconteceu. Além disso, em diversos momentos da leitura, o tom sensacionalista de alguns fatos “menores” pode deixar a experiência enfadonha. Os últimos três capítulos também parecem “jogados” e quase deslocados com o tema central do livro, agregando pouco nas informações apresentadas até então. Contudo, apesar destas falhas pontuais, este é um livro que vale muito a pena para entender melhor questões históricas envolvendo o Brasil e a Guerra Fria. Por mais que aqui tragamos um resumo e algumas interpretações da leitura, nada substitui a experiência plena de consumir o material original.

Algumas especulações podem ser feitas a partir da leitura. Uma delas é que alguns acontecimentos narrados nos levam a crer que a inteligência norte-americana tinha uma noção bem clara do que os tchecos e que, muito provavelmente, providências foram tomadas. Além disso, é possível concluir o grande foco do serviço soviético era, essencialmente, na desinformação e propaganda do que em outros setores mais convencionais dos serviços secretos, como assassinatos, sabotagem, dentre outros. O próprio Ion Pacepa, da Romênia, apontava isso em seus artigos e livros e podemos ter ainda mais certeza disso com a leitura de tal obra.

A “rezidentura” e o plano soviético

As informações contidas na obra se tornaram de conhecimento público através dos arquivos da Tchecoslováquia, que foram disponibilizados ao público a partir de 1989 e até hoje estão disponíveis para que qualquer um acesse. Os autores destacam que algumas informações obtidas por tais documentos não puderam ser verificadas através de outras fontes, mas a maior parte do conteúdo do livro é verificável.

É destacado que muitos dos documentos que poderiam complementar as informações e preencher lacunas foram destruídos ou não preservados. Além disso, os autores reforçam que outros espaços em branco na narrativa poderiam ser preenchidos caso fossem revelados documentos em posse da KGB, mas sabemos bem o quanto tais arquivos são protegidos – isto se a maioria não foi destruída há muito tempo.

A um grosso modo, o antigo Bloco Soviético acessou o Brasil através da Tchecoslováquia em agosto de 1952, uma vez que este era o único país comunista que o Brasil ainda tinha relações diplomáticas amigáveis. O principal objetivo da operação, a grosso modo, era avaliar a influência norte-americana no Brasil. Dessa forma, era uma maneira de o governo central do Bloco Soviético ter alguma noção do que acontecia em terras tupiniquins. Mas isso naquele primeiro momento, vale dizer. O serviço no Brasil era chamado de “rezidentura”.

Operações

O primeiro agente designado ao Brasil tinha o codinome Honza, que se passava por um funcionário da embaixada tcheca, mas na verdade ele era um ex-barbeiro que tinha só dois meses de curso em espionagem e não falava quase nada de português. Ele permaneceu no Brasil até meados de 1955 e teceu diversos relatórios para Praga, mas seus esforços para recrutar agentes e coletar informações renderam poucos frutos.

Os próprios superiores de Honza admitiam que, apesar da coragem e patriotismo, ele carecia de habilidades para a tarefa. Honza até lamentava que precisaria aprender “uma língua infernal”, apesar de ter traçado um plano de estudos intensos para aprender o idioma em três meses. Além disso, ele reclamava das condições do seu apartamento, do calor, ele apontava a falta de segurança pública e o fato de que os trabalhadores brasileiros tentavam “parecer” mais ricos do que de fato eram.

É explicado pelos autores que a inteligência tcheca identificou uma fragilidade na cultura nacional que foi explorada em prol do serviço soviético: o nacionalismo brasileiro, que foi chamado de “burguesismo nacional”, sendo esta uma arma mais eficiente do que a mídia ou a política. Também chamam atenção para o fato de que as operações de desinformação eram importantes para a estratégia da inteligência tcheca no Brasil e no mundo. Porém, os autores destacam que os documentos internos do bloco socialista na URSS eram bastante sóbrios e realistas sobre os regimes democráticos do Ocidente, ao contrário das mentiras espalhadas para o público interno e externo. E isso se observa nos próprios documentos.

Os autores destacam que durante 1952 e 1959, o clima antiamericano era bastante predominante no Brasil, mas isso viria a mudar após a Revolução Cubana, que acabou modificando os humores nacionais neste sentido. Em dado momento, é destacado o recrutamento de um figurante que se tratava de um jornalista que entrou na mira da polícia brasileira principalmente após a renúncia de Jânio Quadros. Tal “figurante” era bastante valioso para o serviço tcheco devido aos seus contatos, apesar de não ser exatamente aquela fonte suculenta de informações que tanto queriam. As autoridades de Praga afirmaram que a inteligência não deveria mais entrar em contato com ele por pelo menos cinco meses antes de a “poeira abaixar”. Dessa forma, é notório quanto haviam pessoas com alguma relevância no Brasil que eram simpatizantes ao regime soviético.

Mais adiante, os autores falam a respeito do interesse soviético mais direto na política brasileira e que tudo isso se iniciou através de elementos multifatoriais. Um deles foi a visita de Jânio Quadros, em 1959, a Moscou, onde expressou admiração pela URSS. Aliado a isso, ele fez uma amizade pessoal com um homem chamado Alexeyev que atuou como tradutor. Jânio Quadros, inclusive, garantiu que o amigo teria o visto brasileiro quando se tornasse presidente. A verdade é que Alexeyev apenas se apresentava como jornalista e tradutor, mas ele foi um dos personagens centrais na crise do Caribe, sendo a principal ponte inicial entre Fidel Castro e o governo da URSS, servindo de intermediador nas relações entre o bloco soviético e a ilha.

Moscou rapidamente viu a oportunidade que a relação dele com Jânio Quadros representava para, talvez, replicar o sucesso da Revolução Cubana, utilizando desta amizade como ponto inicial. Porém, o regime soviético não queria apenas se firmar nessa relação para dar início às suas operações, então foi aí que o serviço já iniciado pela inteligência da Tchecoslováquia entrou em jogo. Os autores ainda destacam que foi graças a tais documentos que se sabe dessa história, mas que maiores detalhes seguem desconhecidos porque os documentos de Moscou não foram disponibilizados ao público.

Foi apenas em 1959, segundo os autores, que o serviço de inteligência começou a se dar conta da necessidade de maior profissionalização tanto de seus agentes quanto de suas metodologias. Somente a partir deste período que eles se deram conta, por exemplo que era inútil tentar se infiltrar em grupos comunistas ou tchecoslovacos nacionais, pois estes já eram alvos de atenção. A ideia mais sensata era se infiltrar em grandes círculos da sociedade e da política, definindo melhor quais pessoas poderiam virar figurantes, principalmente os mais vinculados ao nacionalismo e com rejeição ao americanismo.

Em dado momento, antes da metade do livro, os autores destacam a viagem de João Goulart à Tchecoslováquia em 1960, na qual teve conversas com representantes diplomáticos. A conclusão que foi tirada, extraída de um relatório, é que Jango não era um comunista, mas ainda assim “deveria se apostar nele pela postura antiamericana”. Foram observados, pelo serviço de inteligência, a comitiva levada por Jango, uma vez que rapidamente se identificou em algumas pessoas oportunidades.

Após a renúncia de Jânio Quadros, com Jango já na presidência, Praga recebeu um relatório de uma conversa que o presidente brasileiro teve com um círculo interno. A grosso modo, o Brasil estava se encaminhando para uma crise econômica que havia se iniciado ainda no governo de Juscelino Kubistchek e que haviam apenas algumas poucas opções disponíveis para resolver a situação. Porém, todas essas alternativas eram difíceis de adotar, uma vez que envolviam pegar dinheiro emprestado nos EUA ou nacionalizar os lucros de negócios estrangeiros no país. Também é destacado que o político Raul Francisco Ryff, muito próximo de Jango, seria o principal conselheiro do presidente, quase como se ele fosse quem realmente decidia as coisas no governo.

“O Semanário”

No livro, é destacado que a operação da inteligência tcheca no Brasil era desorganizada, custosa e renderam pouquíssimos frutos na maior parte do período que atuou. Alguns relatórios apontam reclamações até triviais de alguns agentes no Brasil, como o fato de “não poderem levar figurantes até seus apartamentos, pois não tinha tapeçaria nova”. Praga também costumava repreender seus agentes por “presentearem pessoas sem importância” com vodcas de ameixa, o que gerava custos sem qualquer retorno. Inclusive, nesta parte do livro, é mencionado que em 1961 o escritor Jorge Amado passou a integrar o Instituto Brasileiro de Amizade Brasileiro-Tchecoslovaco, além de alguns outros políticos e jornalistas. Porém, os relatórios apontavam que tal grupo era inútil e seus agentes recrutados no Brasil eram igualmente inúteis, apontando inclusive que Amado era “um tagarela com má-influência sobre o embaixador tchecoslovaco”.

Porém, tudo iria começar a mudar até a inteligência perceber a existência do jornal “O Semanário”, que tinha uma veia bastante nacionalista e sua linha editorial era voltada a “quebrar o monopólio norte-americano”. Assim, foi ordenado que tal periódico fosse assinado e que fosse prestada maior atenção em suas publicações. Em setembro de 1961, o jornal teve suas operações suspensas devido ao fato de terem problemas financeiros. A rezidentura cogitou a possibilidade de financiar o jornal e chegaram a se informar do valor necessário (entorno de 800 dólares mensais na época), mas o governo recusou, alegando arriscado patrocinar jornais.

Contudo, os autores relatam a existência de uma operação chamada “STROJ” que começou na mesma época que se pode interpretar que se trata de alguma iniciativa envolvendo o jornal, mas não existem muitas evidências mais sólidas. Eles destacam que os tchecos enviaram, em fevereiro de 1962, uma carta ao governo soviético pedindo esclarecimentos, uma vez que se descobriu sobre o financiamento de jornais em alguns países, mas que tal atitude não foi permitida no Brasil. Porém, posteriormente, foi descoberto que a embaixada soviética teria sim injetado dinheiro no dito jornal.

Assim, os autores afirmam que os serviços de inteligência do bloco soviético tinham essa característica, uma vez que a KGB frequentemente reagia de forma indiferente ou reticente com as inteligências dos países-satélites, apesar de conseguir se concluir com precisão que no caso da Tchecoslováquia isso se aproximava de uma subordinação para com a KGB. O fato, destacado pelos autores, é que “O Semanário” era alvo de interesse e que possivelmente foi apoiado financeiramente tanto pelos tchecos quanto pelos soviéticos. E mais: não apenas o jornal, como jornalistas e um agente em particular cujo codinome era “Lar” (um capitão da reserva recrutado no dia 9 de outubro de 1961).

O jornal iria voltar a circular em maio de 1962. Porém, algo ligou alerta na inteligência: a direção do jornal passaria em parte para Carlos Albuquerque, que era um comerciante e empresário que tinha uma postura nacionalista, mas não era de esquerda. Além disso, o fato de ser cofundador de uma empresa de produtos petrolíferos, com ligação com os Estados Unidos, significava um capital americano sendo introduzido. Outro ponto em particular é que Costa, um dos editores do jornal, apesar de defender a URSS e Cuba, convivia em conflito com comunistas brasileiros. Dessa forma, o único jornal que poderia ser utilizado pela inteligência soviética estava em uma posição complicada. Porém, devido à destruição dos arquivos, não se tem muitos detalhes envolvendo o financiamento de “O Semanário”, apesar de que em novembro de 1962 ter surgido uma nota afirmando que “STROJ seria publicado até segunda ordem, com textos de apoio à Cuba”.

Mas é válido notar que o fato de “O Semanário” ter sido um braço da propaganda soviética não chega a causar espanto, uma vez que tal informação foi trazida à tona em 1971 por Lawrence Brit, um ex-espião tchecoslovaco que fugiu para os Estados Unidos. Ele destacou que “até 1964, o serviço de inteligência tinha um jornal no Brasil, mas que após o golpe, a circulação foi interrompida”.

O que um espião precisa para viver no Brasil

Agora, um ponto interessante (e talvez até mesmo deprimente) de se analisar é com relação ao guia prático elaborado para que futuros espiões pudessem estudar antes de serem enviados em missões no Brasil. O guia resumia aspectos históricos, econômicos e sociais do Brasil, principalmente da dita “classe média” que seria o principal foco de interesse das operações, uma vez que era dali que saía a maioria dos funcionários públicos e políticos, dentre outros alvos de interesse. O arquivo aponta que o povo brasileiro é “preguiçoso e leviano”, além de gostar de ostentar títulos acadêmicos e científicos, quando sua contribuição é menor até que a deles próprios (da Tchecoslováquia) com formação primária. Ainda destacam que o povo é ignorante e com conhecimento superficial sobre as coisas.

As péssimas opiniões vão ainda mais longe. Eles destacam o fato de se ter problemas no fornecimento de água e recomendam que qualquer quantidade seja fervida antes do consumo. Além disso, destacam as péssimas condições de higiene, recomendando lavar as mãos constantemente. Também é recomendado cautela ao viajar de táxi, uma vez que os motoristas não gostavam de fazer corridas longas sem uma gorjeta. Também destacam os problemas envolvendo alagamentos no Rio de Janeiro da época em épocas de tempestades tropicais. Foram listados restaurantes e pontos de encontro apropriados para se fazer contato com agentes e figurantes.

Já em Brasília, outro ponto de concentração dos serviços, os agentes destacam alguns pontos. O fato de ser uma cidade recém inaugurada e com poucos habitantes acaba a deixando com poucas opções de lazer, sendo a principal os carteados e assistir à TV. Eles destacam que, em pouco tempo, é possível “ser conhecido por todos”, o que pode dificultar alguma camuflagem. Além disso, apesar de criticarem os serviços urbanos de transporte, o serviço aéreo e rodoviário de grandes distâncias é elogiado, apesar de que “não se recomenda o transporte ferroviário”.

Agora, o vestuário é algo que os espiões elogiam bastante, pois “o brasileiro médio se veste com bom gosto, mesmo a baixo custo”. É falado também que se opta sempre por cores escuras, uma vez que “disfarçam melhor o suor”. Eles destacam que não se deve estranhar regiões onde as pessoas vestem roupas de banho, principalmente no Litoral, mas chamam atenção que paletós devem ser utilizados sempre em contextos de maior classe.

A culinária era destacada como “tipicamente baiana”, mas por algum motivo eles recomendam distância de comidas mais típicas do estado, pois “podem causar enfermidade”, por mais que não sejam destacadas as razões para isso. Os cigarros são descritos como de baixa qualidade, mas os charutos são elogiados. Também foram listados os jornais brasileiros da época, sendo que a maioria é descrita como “reacionária” ou “conservadora”.

É comentado também sobre o fato de que os funcionários públicos “não costumam lidar bem com o poder que têm” e que frequentemente tendem a tirar proveito próprio disso. Também se fala muito a respeito do fato de que se ter “um amigo que possa resolver isso” é a melhor maneira de resolver vários dos problemas”. O guia também destacava que o sonho do brasileiro médio era ser funcionário estatal, o que acabava produzindo uma quantidade grande de advogados, uma vez que este é considerado o caminho mais fácil para se conseguir tal objetivo.

Tal guia para espiões destaca também um pequeno “manual” para descobrir e se livrar de perseguidores no Rio de Janeiro. Porém, tais métodos foram contestados pelos superiores, que pediram um maior refino em tal itinerário. Também foram apontadas a existência de “caixas mortas” em diferentes locais do Rio de Janeiro, uma ferramenta muito utilizada por espiões durante a Guerra Fria em todo o mundo. Não se sabe se a inteligência brasileira descobriu tais locais.

Figurantes

No livro, vários capítulos ou partes de capítulos são dedicados a falar a respeito dos “figurantes”. De modo geral, estas seriam pessoas que foram “trabalhadas” como se diz no linguajar da espionagem. Em outras palavras, eram indivíduos que eram cooptados para trabalhar para a rezidentura, na maioria das vezes visando apenas vantagens financeiras.

Mas aqui vale um parêntese: esta prática não é exclusiva do antigo bloco soviético, uma vez que tais metodologias são utilizadas pelos serviços de inteligência do mundo inteiro. Assim, não existe “nada demais” em saber que muitas pessoas influentes e de relevância estavam a serviço estrangeiro. Os autores não expõem claramente nenhum nome, dando apenas iniciais ou coisas assim, mas através de informações contidas no livro é possível identificar alguns destes personagens. Aqui, fizemos uma busca sobre alguns.

Um dos figurantes mais emblemáticos no início dos anos 1960 tinha o codinome de Leto, que fornecia informações bastante suculentas. Porém, o caráter de Leto é dúbio, uma vez que ele parecia, muitas vezes, estar trabalhando contra o serviço de inteligência tchecoslovaco e não dizer “tudo que sabia”. Se sabe que Leto era uma figura pública, uma vez que o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, publicou críticas públicas contra o figurante em um jornal no dia 31 de agosto de 1962, o acusando de ter relações próximas com partidos comunistas. Fomos atrás de tentar saber quem era Leto e em tal edição do Jornal do Brasil, o governador menciona Cândido de Oliveira Neto, o Ministro de Justiça interino na época, que havia pedido que não fosse circulado o livro “Mein Kampf”, sendo que o governador afirmou que “existiam livros patrocinados pelo governo que também são totalitários, mas com o sinal invertido”. Porém, aqui vale ressaltar que é necessário olhar com reservas tal apontamento de nome. O fato é que a declaração do governador assustou o serviço de inteligência, uma vez que se sabia dos riscos de ter relações próximas com comunistas declarados e se tentou checar a informação diretamente com o “camarada Prestes”, mas isso nunca chegou a ser apurado. Este figurante acabou seguiu sendo um objeto de interesse, pois poderia ser um “canal direto” ao presidente Goulart”.

Um dos principais pontos de virada na história é com relação a um deputado progressista do PTB, que chegou a ser atacado no Parlamento por Carlos Lacerda. Tal deputado era descrito como nacionalista e progressista, “mas não comunista”. Ele teve o codinome de Kato e Lauro posteriormente que, devido a informações contidas no livro, podemos deduzir com precisão se tratar do veterano Almino Afonso. O fato é que se percebeu que valia a pena “trabalhar” “Lauro” e, assim, um agente acabou se aproximando dele, dos quais se encontravam com alguma regularidade, dos quais eram informadas questões da vida política no Brasil e até mesmo conversas que tinha com Jango.

Porém, tudo mudaria no dia 27 de maio de 1962, pois no encontro daquele dia, Lauro acabou dando com a língua nos dentes e revelou que o destino de San Tiago Dantas, ministro das Relações Exteriores, estava “por um fio” e existia o temor de um “golpe da direita”. O agente tcheco afirmou que se isso acontecesse, Lauro perderia seu campo de ação e que essa afirmação pareceu ofender o deputado. Foi aí que o parlamentar revelou que “alguns amigos seus possuíam um grupo que poderia iniciar uma guerrilha caso necessário” e que esse grupo possuía contatos com a Liga Camponesa. Lauro ainda teria dito que se a direita agisse naquele ano, estariam despreparados e que se fosse no ano seguinte, teriam como reagir. Mas aparentemente ele se assustou de ter falado demais e pediu sigilo, que naturalmente não aconteceu e foi repassado para Praga e, posteriormente, para Moscou. Isso acabou despertando interesse dos soviéticos, mas posteriormente, devido à troca de agentes, foi se perdendo o contato com Lauro.  

Os casos de Leto e Lauro demonstram que, após algum tempo, o serviço de inteligência já havida se tornado mais sofisticado no Brasil. Porém, os autores destacam que o Golpe de 1964 foi bastante eficiente em barrar o avanço dos serviços no Brasil.

Os autores apontam também o nome do jornalista é Hermano D.N.A., que viveu entre 1927 e 2010, mas nós apuramos que muito possivelmente se trate de Hermano de Deus Nobre Alves, uma vez que as informações destacadas pelos autores batem com a biografia encontrada na internet. Hermano começou no jornalismo em 1949, ano em que participou da fundação da Tribuna da Imprensa ao lado de Carlos Lacerda. Trabalhou ainda no Jornal do Brasil e no Correio da Manhã. Foi-lhe concedido asilo no consulado Mexicano, do Mexico partiu diretamente para a Argélia, único país que lhe ofereceu asilo político. na França. Na Inglaterra, trabalhou para a British Broadcasting Corporation (BBC) de Londres e chegou a lecionar numa universidade. Em 1979, recebeu o benefício da Lei da anistia, mas não regressou ao Brasil. Só voltaria em 1984, quando se estabeleceu em Brasília, trabalhando em jornais e prestando assessoria. Em 2005, por meio da Comissão da Anistia, recebeu indenização do Governo brasileiro no valor de R$ 2.160.794,62, além do benefício mensal permanente no valor de R$ 14.777,50.

Os autores destacam também que o jornalista francês Édouard Bailby era um agente voluntário, apesar de o serviço secreto tcheco não estar à vontade com tal trabalho. Tal jornalista publicava no “Última Hora” e no “O Semanário” e teria procurado a embaixada tcheca voluntariamente. Ele teria sido enviado para um encontro em Punta del Este. Apesar de ser progressista, seu caráter mais arrojado e festivo era incômodo. Além disso, ele despertava suspeitas por visitar a embaixada francesa com frequência. Outro ponto é que, uma investigação profunda feita sobre ele, revelou que o tal jornalista francês era um “oportunista político cuja inteligência era média-fraca, com compreensão fraca sobre diversos assuntos”. No entrando, Bailby teria feito um bom trabalho em Punta del Este, apesar de que não fosse recomendada a continuidade no trabalho com ele.

Um dos capítulos é dedicado apenas ao figurante cujo codinome era “Lobo”. A grosso modo, este foi um agente recrutado que acabou estragando grande parte dos serviços de inteligência tcheca no Brasil. E o irônico é os responsáveis pela espionagem teceram diversos relatórios falando a respeito do caráter difícil de Lobo, o apontando quase como uma “bomba relógio”, mas mesmo assim não suspenderam os contatos. Lobo era apontado como preguiçoso, descomprometido e que não gostava de trabalhar, tanto para eles quanto em seu emprego normal. Porém, em dado momento em 1964, Prestes havia alertado a inteligência tcheca que Lobo estaria trabalhando também com a inteligência americana, um fato que não foi tão levado a sério. Contudo, posteriormente se pôde concluir que a alegação era verdadeira e Lobo era um agente duplo, o que acabou comprometendo parte das operações em uma delação.

Luta armada no Brasil

Os autores destacam que, em 23 de outubro de 1961, um documento de origem soviética destacava o interesse em tentar repetir a experiência cubana no Brasil – vale lembrar que a Revolução Cubana não teve nada a ver com a URSS, mas eles se aproveitaram do cenário pra “conduzir Fidel Castro ao bom caminho”. O documento, transcrito grande parte na íntegra, revelam alguns dos objetivos e passo a passo pretendidos pelo governo soviético, como a volta de Jânio Quadros ao poder, mobilização de parte das forças armadas, movimentos ruralistas principalmente no Nordeste e uma forte propaganda antiamericana. Hoje em dia, analisando tal plano, é possível ver que existiam algumas falhas e até ambições muito grandes, mas isso é mero viés retrospectivo. Porém, os agentes tchecos foram colocados de prontidão em tal iniciativa.

O exército, principalmente no Rio Grande do Sul, teria um papel de destaque, mas diversos contratempos e falhas de interpretação nas intenções acabou minando tal apoio. A Tchecoslováquia iria, inclusive, fornecer armas, mas devido a vários percalços, tal medida não chegou a ir adiante. Contudo, um destaque interessante é para “As Ligas Camponesas”, que eram de interesse dos soviéticos. Algumas das lideranças, inclusive, chegaram a pedir o auxílio enviando armas de fogo para preparar os camponeses para luta armada caso necessário. No entanto, é esclarecido que a Tchecoslováquia, apesar de enviar muitas armas para diversas guerrilhas e grupos na África e Ásia, nunca chegou a enviar efetivamente tais equipamentos para o Brasil. Apesar disso, existia a intenção de Brizola e Goulart de terem armas para se defender “de um avanço da direita”.

Contudo, os próprios autores destacam que tal ideia de luta armada no Brasil teve suas operações canceladas muito provavelmente ainda no primeiro semestre de 1962, uma vez que um relatório do dia 17 de abril apontava que a ideia havia sido suspensa já. Não é claro o porquê de a operação ter sido suspensa, mas se especula que foi devido ao fato de que Moscou percebeu que tal plano era “ambicioso demais” para dizer o mínimo, ou se partia do próprio serviço secreto da Tchecoslováquia. Assim, foi ordenado que o serviço de inteligência tcheco continuasse tendo contato com as Ligas Camponesas, mas com reservas e parcimônia, evitando encontros desnecessários. Porém, se especula também que a KGB diretamente tecia interesse pelas Ligas, uma vez grupos revolucionários agrícolas costumam ser bem-vindos em levantes revolucionários. Então, por parte dos documentos tchecos, não se sabe deste maior envolvimento no grupo brasileiro. Além disso, os autores destacam que os Húngaros também tinham interesse nas Ligas brasileiras, além de que planos semelhantes foram traçados para outros países da América Latina.

A questão cubana também era importante no contexto brasileiro da época. De acordo com os relatórios, apesar de existir alguns poucos artigos defendendo Cuba, de forma geral, os brasileiros não gostavam muito da ditadura e opressão de Fidel Castro. Isso por si só serviu para afastar as pessoas da época de “romantizar” o regime socialista. Porém, é importante frisar que o que mais afastava o brasileiro médio do regime cubano eram as execuções e a violência, que chegavam aqui através de jornais da época. O fato é que se chegou a estabelecer que a inteligência tcheca deveria tentar reverter esse ânimo, mas a tarefa seria difícil, uma vez que dispunha de apenas alguns jornalistas de esquerda e um único jornal com maior controle, que no caso era “O Semanário”.

Durante a Crise dos Mísseis em 1962, foi criado um plano de ação no Brasil que se aproximava de uma ideia de propaganda. A ideia era criar um comitê de orientação nacionalista não-comunista. Contudo, é seguro afirmar que o serviço secreto tcheco estava planejando criar um movimento popular que não fosse distante do nacionalismo, mas que também se descolasse de Cuba e do PCB. Porém, no fundo, se sabe que não era bem isso, uma vez que haviam sim conexões, uma vez que de fato se queria “melhorar a imagem da ilha da liberdade”.

Um episódio em novembro daquele ano pôs muita coisa a perder: um acidente aéreo no Peru, que matou 97 pessoas, das quais haviam brasileiros e cubanos. Nos documentos resgatados dos destroços e publicados pela imprensa, foi revelado que haviam ligações entre as Ligas Camponesas e o regime de Cuba, que inclusive teriam dado treinamento para a formação de um grupo guerrilheiro. A princípio, o governo brasileiro não reagiu, mas isso acendeu um sinal de alerta no serviço tcheco. No fim, não deu nada.

Quando finalmente é abordado o tema de 31 de março de 1964, recebemos um baita banho de água fria. O serviço de inteligência tcheco foi pego completamente de surpresa com os acontecimentos, o que revoltou as autoridades de Praga. Em uma análise, foram levantados diversos pontos que justificam tal falta de visão, sendo que uma das principais é o fato de que todos acreditavam que Jango “iria dar um jeito” na situação, uma vez que seu histórico demonstrava tal habilidade.

Outro ponto muito importante é que as autoridades de inteligência estavam dando muito valor para as opiniões do PCB, o que acabou deixando a realidade concreta dos fatos distorcida, uma vez que tal viés era puramente ideológico. É destacado também que o governo dos militares era, de fato, truculento, mas em comparação com os métodos dos regimes do Leste Europeu, chegavam “até ser cômicos”. No entanto, tal regime acabou prejudicando o trabalho de inteligência até que fatalmente se encerrou em meados de 1971.

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