É muito comum, hoje em dia, termos filmes de terror que misturam outros gêneros. A prática vem se popularizando cada vez mais, pois funciona — e eis que acredito ter atingido seu ápice com “Faça ela voltar”. Na trama, dois irmãos, Piper e Andy, após a morte repentina de seu pai, são obrigados a ficar em um lar temporário com Laura. Aos poucos, coisas bizarras acontecem, e Laura mostra suas verdadeiras intenções.
O longa é dirigido pela dupla de irmãos Danny e Michael Philippou, que em 2022 nos entregaram “Fale Comigo”. Muita coisa que eles fizeram anteriormente se repete neste longa.
Falo sobre a mescla de gêneros e dos temas apresentados, sendo presente aqui o drama, assim como trauma e outras questões psicológicas. Porém, alguns pontos importantes expõem a evolução técnica da dupla e como “Faça ela voltar” é uma clara evolução em comparação com o longa anterior. Temos aqui temas como luto e trauma, mas, ao invés de serem apresentados na trama e usados apenas como paralelos ao terror, aqui eles se mesclam com a narrativa e são usados como ferramenta de avanço.
Um grande exemplo de como isso é feito é o fato de o pai da dupla protagonista ser encontrado morto no chuveiro. Isso desperta um gatilho em Andy, que passa a ter crises de ansiedade por causa das duchas — algo que evolui, mais tarde, para a chuva. A chuva, aliás, se revela um elemento da trama a ser explorado mais adiante, mas que se conecta fortemente ao trauma do personagem.

Mesmo sabendo disso agora, após assistir ao longa, é possível notar bem antes como o trauma é utilizado como elemento do terror. A antagonista do longa, Laura, vivida por Sally Hawkins, é uma mestre manipuladora. Sabendo das fraquezas dos irmãos, ela não tem pena de tocar em seus pontos fracos, jogando na cara de Andy, sempre que possível, que ele não foi capaz de fazer nada perante a morte de seu pai — e ainda forçando sintomas extremos de luto para que o garoto pareça agressivo e perigoso. Laura também tira proveito de Piper. A garota é cega, e Laura mente e faz coisas de forma silenciosa para manipular a percepção da menina e manter a aparência de boa moça.
Tudo isso, somado à atuação de Hawkins na personagem, forma uma perfeita loba em pele de cordeiro. Apesar de ser óbvio que há algo errado no momento em que os irmãos entram na casa, a dedicação da personagem nos vence pelo cansaço — e a atuação ajuda no convencimento. Tudo em relação a ela é intrigante: desde sua forma de tortura, que casa com a proposta de transformar trauma em terror, até seu objetivo e estado mental, que parece estar se deteriorando. Diante desse cenário, o roteiro se utiliza ainda de um quarto personagem para expor as intenções de Laura: Oliver.
Interpretado pelo jovem Jonah Wren Phillips, Oliver é o grande destaque do longa. Sem exageros, é a interpretação mais complexa do filme, transitando entre dois clichês que, se separados, soariam genéricos — mas que, em conjunto, se tornam desconcertantes. Phillips interpreta tanto a típica criança malvada e esquisita quanto a típica criança possuída. Esses dois traços oscilam no personagem, exigindo que o roteiro não tenha pena dele — e a execução é tão boa quanto a ideia. Através de Oliver, temos o primeiro contato com o sobrenatural, que, quando posto em contraste com o terror psicológico que até então imperava, se torna mais chocante que o normal.

Por meio dele também, o longa mostra suas garras e expõe a aflição do gore, em uma cena terrivelmente agonizante envolvendo uma faca. E também revela a perfeição do trabalho de maquiagem, já que o personagem passa por transformações. O trabalho de prótese é tão bom que, de maneira sutil e em combinação com jogadas de sombra e ângulos de câmera, causa a impressão de estarmos vendo algo demoníaco — mesmo sem que isso seja explicitamente mostrado.
Ao falar de todos os temas do longa, como luto, trauma e até elementos ritualísticos, pode parecer que não há espaço para muito terror de forma literal, mas é justamente o oposto. “Faça ela voltar” é perfeito em combinar tons e esses elementos em sua trama. A parte do terror caminha junto com o drama e com temas mais sensíveis. Sem precisar de um desgaste intelectual, o longa possui até mesmo pequenos jump scares, provando que sabe fazer muito com pouco.
Vale ressaltar que uma de suas maiores forças vem da diferença mercadológica: o longa, assim como os irmãos Philippou, é australiano. Tal afirmação pode não parecer relevante, mas é importante sabermos que as raízes dos realizadores vêm de um cenário de cinema independente, onde questões mercadológicas que visam o lucro rápido não são prioridade, como acontece em Hollywood. Sendo assim, clichês que seriam comuns não estão presentes, como o de um personagem sábio que explicaria toda a mitologia sobrenatural do longa. Ao invés disso, temos pistas visuais de como tudo ocorre e, nos momentos mais expositivos, Laura assiste a fitas VHS como tutoriais.
Uma outra obrigatoriedade da qual os irmãos não estão presos é a do terceiro ato heroico e grandioso. O final sombrio de “Fale Comigo” já nos dá pistas do que veremos aqui, mas existe muito mais por trás de um desfecho triste ou agridoce. Tudo o que ocorre no roteiro é informação. Cada linha de diálogo e cada ação de personagem comunica algo sobre alguém ou sobre a história. Sendo assim, um final triste — onde as coisas dão errado para os protagonistas — serviria para mostrar, de forma não expositiva, o que ocorre caso o plano do vilão funcione.
Em contrapartida, um final onde as coisas dão certo serviria para mostrar as consequências dos atos do vilão e entregar um final satisfatório ao público. “Faça ela voltar” caminha entre esses dois eixos. Como a base do longa parece ser sempre a mistura de ideias e conceitos, seu final é meio triste e meio feliz.
Já somos expostos ao objetivo de Laura há pelo menos metade da rodagem. Então não existe necessidade de um final “ruim” para sabermos o que vai acontecer. Porém, um final sem consequências ruins diminuiria o peso da vilã. Por isso, o desfecho aqui é meio amargo, nos levando a pensar se foi realmente o melhor final para os personagens.
Há quem diga que “Faça ela voltar” está incompleto. Sim, o longa não se aprofunda em muita coisa, somente no necessário para sua mitologia interna, mas eu penso que mais informação tornaria a trama inflada e arrastada. O roteiro trabalha tão bem seus conceitos que parte do mistério é seu maior atrativo. Além disso, os temas são devidamente explorados e fechados em um círculo perfeito.
Talvez os elementos sobrenaturais e os temas de trauma e luto não sejam necessariamente originais. Mas é a execução que os torna especiais e únicos, fazendo deste um longa que assusta ao mesmo tempo que emociona.
