No dia 7 de fevereiro de 1979, um idoso morreu afogado no litoral paulista. Este teria sido um episódio trágico, apesar de normal, se não fosse por um pequeno detalhe: este homem era um dos responsáveis por um dos maiores crimes de guerra que se tem registro. Seus atos foram tão terríveis que recebeu a alcunha de “Anjo da Morte”. Porém, pior ainda, tão ruins quanto seus atos, foram suas intenções com viés eugenistas e pseudocientíficas.
Naturalmente que seus crimes não passariam despercebidos, tanto por ele próprio quanto pela Justiça. Como resultado, o criminoso precisaria passar o resto de seus dias fugindo e se escondendo. Apesar de ter levado uma vida relativamente confortável, sem nunca ter encarado as consequências de suas ações, ao menos ele nunca teve um pingo de paz e tranquilidade durante seus anos de fuga. Além disso, sua própria família recusou a reconhece-lo, preferindo colocar sua história de lado.
Sua morte, olhando em retrospecto, parece até mesmo um desfecho anticlimático e injusto. Contudo, a história de tal monstruosidade não deve nunca ser esquecida para sirva de lembrete. Existe um ditado que diz que “a história não se repete, mas ela rima”. Porém, não precisamos fazer com que este poema seja declamado de novo.
Vida pregressa
Josef Mengele nasceu em 16 de março de 1911, em Günzburg, na Baviera, como o filho mais velho de Karl e Walburga Mengele, proprietários de uma próspera fábrica de implementos agrícolas (empreendimento que existe ainda nos dias atuais). Cresceu em um ambiente conservador e católico, demonstrando grande interesse por música, arte e ciências desde cedo. Era inteligente, popular na escola e nutria ambições acadêmicas. Porém, mesmo vindo de uma família tradicional, decidiu não seguir o caminho do negócio familiar.
Após concluir o ensino médio em abril de 1930, mudou-se para Munique para estudar medicina e antropologia. Em 1935, obteve um doutorado em antropologia física pela Universidade de Munique e, em seguida, um segundo doutorado em medicina no Instituto de Biologia Hereditária e Higiene Racial em Frankfurt, sob a tutela do geneticista Otmar von Verschuer. Suas pesquisas, incluindo a análise da fissura labiopalatal e estrutura mandibular em diferentes grupos raciais, o introduziram ao mundo da eugenia nazista.
Inicialmente, Mengele não era tão simpatizante da ideologia nazista, mas durante os anos 1930, ele passou a abraçar a ideia. Ele chegou a integrar o grupo paramilitar Stahlhelm em 1931 e filiar-se à SA em 1933, ingressando oficialmente no Partido Nazista em 1937 e nas SS em 1938. Com a tutela de Verschuer, tornou-se assistente no Instituto de Frankfurt, participando de avaliações que contribuíram para as Leis de Nuremberg e o programa de esterilizações forçadas do regime.
Em 1939 casou-se com Irene Schönbein, com quem teve um filho em 1944, e atuou como médico residente em Leipzig. Com o início da Segunda Guerra Mundial, foi convocado para a Waffen-SS em 1940 e serviu na divisão Panzer “Wiking”, sendo condecorado com a Cruz de Ferro após ferimentos na frente oriental. Devido a essas lesões, foi dispensado e retornou à pesquisa em genética com Verschuer, até ser designado por Heinrich Himmler para atuar como médico em Auschwitz em maio de 1943. Esses primeiros anos foram fundamentais para Moldar Mengele como médico eugenista convicto, inserido no aparato científico e ideológico do Terceiro Reich, antes de se tornar o infame “Anjo da Morte” em Auschwitz.
Gêmeos e pseudociência
Josef Mengele, embora frequentemente lembrado como o “médico-chefe” de Auschwitz, nunca ocupou oficialmente esse cargo. Essa função que pertencia a Eduard Wirths. No entanto, sua atuação ganhou proporções quase míticas entre os prisioneiros, muitos dos quais afirmavam que era ele quem pessoalmente comandava as seleções para as câmaras de gás e supervisionava os experimentos mais cruéis do campo.
A partir de 1943, Mengele desenvolveu uma obsessão por estudos com gêmeos, acreditando que poderia demonstrar a superioridade racial ariana através de aperfeiçoamentos genéticos. Embora os números exatos nunca tenham sido registrados, historiadores estimam que ao menos 200 pares de gêmeos foram submetidos a procedimentos que incluíam injeções de substâncias letais, amputações e operações sem anestesia, resultando na morte ou incapacitação de praticamente todos os envolvidos.
Surpreendentemente, Mengele chegava a demonstrar afeto e simpatia pelas crianças gêmeas antes de conduzir seus experimentos, criando um contraste macabro entre carinho e tortura. Essas cenas são descritas em relatos de sobreviventes como momentos em que era preciso “pausar a leitura e tomar um ar” diante da dissonância entre o cuidado aparente e a barbárie subsequente.
Mengele era treinado em genética e antropologia e usou Auschwitz como laboratório para seus experimentos, focando não só em gêmeos, mas também em pessoas com heterocromia, anões e portadores de anomalias físicas. Ele operava dentro do campo cigano, onde selecionava os indivíduos para procedimentos cruéis e sistemáticos. Essas pessoas recebiam tratamento diferenciado, como roupas próprias, alimentação melhor e ausência de trabalho forçado, mas tudo com o propósito de mantê-las vivas tempo suficiente para experimentação.
O processamento diário dos gêmeos incluía medições antropométricas exaustivas, coleta de sangue, testes sensoriais e transfusões entre irmãos para analisar reações a diferentes tipos sanguíneos. O experimento incluía injeções em olhos com produtos químicos ou adrenalina na tentativa de alterar a cor da íris, mas isso frequentemente resultava em infecções graves ou cegueira. Muitas vezes, se um gêmeo morria, o outro era executado imediatamente para permitir autópsias comparativas, que envolviam dissecções detalhadas realizadas por médicos prisioneiros. Ele chegou a costurar gêmeos pelas costas para simular gêmeos siameses, causando gangrena fatal em poucos dias.
O nazista também empregava métodos cruéis para lidar com epidemias dentro do campo de concentração. Quando um alojamento inteiro contraiu doenças como tifo e malária, a solução encontrada por ele foi simplesmente mandar todos para a câmara de gás e “resolver” o problema. Além disso, outro ponto de destaque é o fato de que Mengele tinha um humor volátil, pois poderia estar suscetível a ataques de fúria, mas rapidamente costumava se recompor. Existem relatos de que Mengele também mandou para a câmara de gás mãe e filho logo após que a criança nasceu. Além das experiências com gêmeos, Mengele também realizou procedimentos em pessoas com doenças como noma, infectando crianças ciganas com tifóide para estudar sua evolução, interrompendo o tratamento assim que detectava melhora, apenas para matá-las posteriormente.
Tais experimentos, embora travestidos de pesquisa médica, tinham motivações ideológicas e careciam de fundamento científico ético. A ideologia nazista permeava essas práticas: Mengele acreditava que poderia descobrir marcadores físicos e bioquímicos que distinguissem raças, apoiando a chamada “pureza racial”. Ele coletava amostras de sangue, dentes, ossos e olhos para enviar a laboratórios na Alemanha, sob a justificativa de aperfeiçoamento genético ariano.
Uma sorte quase sobrenatural
Após a chegada dos Aliados, Mengele foi preso brevemente em 1945, mas liberado após apenas dois meses devido a falhas de procedimento, caos burocrático no pós-guerra e à ausência de tatuagens de identificação da SS em seu corpo — prática comum entre outros oficiais nazistas. Essa combinação de negligência e confusão permitiu que ele escapasse antes que pudesse ser reconhecido e julgado.
Mengele teve muita sorte após ser solto. Com a ajuda de um amigo, ele conseguiu os documentos de Fritz Ulmann e acabou “perdendo” seus documentos reais após escondê-la dentro de uma bicicleta que lhe fora emprestada por um agricultor durante sua fuga. Ele seguiu em uma jornada e pretendia permanecer na Alemanha naquele primeiro momento, principalmente através da ajuda de amigos que forneceram abrigo. Até que um deles sugeriu que ele precisaria se esconder e que nunca receberia “um julgamento justo”.
Outro ponto importante para a ocultação da identidade e paradeiro de Mengele é o fato de que sua esposa, Irene, manteve a narrativa que “ele estava desaparecido na zona russa e, provavelmente, morto”. Mesmo quando ela descobriu que isso não era verdade, sustentou tal versão. Isso, possivelmente, fez com que as autoridades fizessem vista grossa e acreditassem nesta história. Ainda na Alemanha, Mengele passou alguns anos escondido enquanto trabalhava como peão em uma fazenda da família Fischer. Seus patrões sabiam que ele tinha um passado a esconder, mas nunca perguntavam nada e passaram a gostar dele. Além disso, eles não eram membros da SS.
Chega a ser surreal a sorte que Mengele teve após a guerra. Em 1948, quando o cerco estava fechando para ele principalmente por conta da reestruturação da empresa de sua família, ele decidiu fugir para a Argentina. Ele bolou diversos esquemas com a ajuda de um amigo, se passando por um italiano, mas o plano quase deu errado, uma vez que o funcionário corrupto que facilitaria o visto estava de férias. Mengele chegou a tentar subornar outro funcionário, mas não deu certo e ele acabou sendo preso por três semanas. Por fim, ele acabou sendo libertado quando o dito funcionário retornou e acabou aliviando para ele. No fim, Mengele embarcou em um navio.
Já na Argentina, apesar de algumas dificuldades, Mengele achou apoio local e, até meados de 1956, viveu uma vida relativamente confortável. Até meados de 1956, quando ele foi obrigado a emigrar para o Paraguai. Em seguida, sua última parada até o fim da vida seria o Brasil.
Uma caçada infrutífera
Um dos motivos que fez com que Mengele não fosse mantido preso após o fim da guerra é o fato de que levou um bom tempo para que seu nome fosse apontado. Foi apenas após o “Julgamento dos Médicos” dos Julgamentos de Nuremberg que Mengele começou a ficar “conhecido” por um grande número de pessoas, uma vez que ele foi mencionado como um dos principais perpetradores de monstruosidades em Auschwitz.
Uma investigação feita em meados de 1958 apontava que ele estava na Argentina, sendo que tais conclusões foram tiradas a partir dos papéis de divórcio com sua primeira esposa, Irene. Também se suspeitava que sua família sabia de algo também, pois o fato é que Mengele decidiu migrar para o Paraguai logo após o cerco começar a fechar já na Argentina. Assim, é seguro assumir que a família Mengele mandava algum tipo de ajuda. Outro fato que dificultou muito a captura foi o fato de que, durante anos, circulou na imprensa uma foto que era atribuída a Mengele, mas na verdade era outro homem. Isso dificultou sua identificação por quase 20 anos.
O Mossad empregou diversas e caras operações para tentar capturar Mengele, mas nenhuma delas teve sucesso, apesar de que eles foram bem-sucedidos em capturar outros nazistas foragidos. Um dos principais motivos do fracasso foi o fato de ser muito difícil determinar aonde ele estava de fato, uma vez que durante muito tempo se acreditava que ele estava no Paraguai, mas sua passagem por lá foi breve. O fato é que a maioria ficou cética com a possibilidade de ele ter vindo para o Brasil. Vale lembrar que, naquele tempo, a circulação de informações e rastreio era bem diferente do que temos hoje em dia.
Em 1956, durante o processo de captura de Eichmann, um homem chegou a ser preso em Buenos Aires e logo em seguida circulou a notícia de que Mengele havia sido capturado, mas em pouco tempo o engano foi admitido publicamente pela polícia. Até mesmo no Brasil, já nos anos 1960, foram feitas algumas caçadas contra o nazista e um homem chegou a ser preso também. Porém, o engano foi revelado pouco depois.
Já no Brasil, o grande salvador de Mengele foi Wolfgang Gerhard, que era um dos nazistas mais fanáticos que se tem notícia. Se sabe que ele chegava a enfeitar a árvore de natal com uma suástica e sua esposa, nascida no Brasil, chegou a presentear sua senhoria com barras de sabão feitas de cadáveres de Auschwitz. O fato é que Gerhard articulou para que Mengele ficasse em uma fazenda em Nova Europa, no interior de São Paulo.
Os donos do local aos poucos perceberam que seu novo empregado, que se dizia ser um lavrador, era muito mais culto e instruído do que dizia ser – chegando até mesmo a operar um bezerro em dado momento. Posteriormente, Mengele chegou a admitir para o casal sobre sua verdadeira identidade. Isso os assustou, uma vez que ele era um dos homens mais procurados do mundo, mas não chegaram a entrega-lo nem mesmo quando seus caminhos divergiram anos depois.
Ainda nos anos 1960, a imprensa latino-americana explorou ao máximo a história de Mengele e as empreitadas para tentar captura-lo, inclusive no Brasil. Porém, é difícil dizer se esse sensacionalismo ajudou o nazista a fugir, uma vez que se sabe que na fazenda em Nova Europa, os periódicos chegavam raramente. Contudo, se sabe que ele costumava acompanhar as notícias de perto na Argentina e no Paraguai. Se criou até mesmo um mito de que Mengele teria uma habilidade quase sobrenatural para se esconder dos captores, que ele teria muito dinheiro, capangas, cães e armas para se defender. Contudo, como se sabe, nada disso era verdade.
Um dos maiores atos de “derrota” na caçada por Mengele foi uma admissão pública feita em 1970 pela Alemanha Ocidental de que “não se sabia onde Mengele estava”. Por mais que ele já estivesse no Brasil há anos, a versão “oficial” apontava que ele seguia no Paraguai. A situação chegou a causar um pequeno desconforto diplomático entre ambos países, mas a situação não passou disso.
O afogamento em São Paulo
Perto do fim da vida, Mengele se tornou um homem auto piedoso, a ponto de irritar até seus amigos mais próximos se irritarem com suas lamúrias. Por mais que vivesse uma vida relativamente estável, ainda passava por problemas financeiros eventuais, que quase sempre eram amenizados por empréstimos desses mesmos amigos. Um encontro com seu filho foi marcado ainda na década de 1970 e naquele tempo ele havia se mudado para um apartamento em São Paulo.
Josef Mengele faleceu em 7 de fevereiro de 1979, afogado no mar da Enseada de Bertioga, no litoral de São Paulo, enquanto nadava. Segundo o que se sabe, ele foi vítima de um derrame em meio às águas. Inicialmente, suas autoridades locais registraram sua morte sob o nome falso de Wolfgang Gerhard (o mesmo de seu salvador no Brasil, que havia ido embora para a Áustria anos antes e Mengele se apropriou de seus documentos). A morte permaneceu desconhecida por muitos anos; somente em 31 de maio de 1985, a polícia alemã encontrou evidências, entre elas cartas codificadas e um endereço solicitado por Bossert, uma amiga próxima, que culminaram na exumação dos restos mortais em 6 de junho de 1985 em um cemitério na região de Embu das Artes (SP). Uma equipe internacional de peritos forenses brasileira, alemã e americana examinou os ossos e, com base em registros odontológicos, concluiu com elevada probabilidade que se tratava realmente de Mengele.
Apesar da grande convicção dos peritos, ainda pairavam dúvidas, sobretudo entre autoridades israelenses, até que, em 1992, exames genéticos compararam o DNA extraído do osso da coxa exumado com o sangue do filho de Mengele, confirmando o casamento perfeito entre as amostras e eliminando qualquer incerteza quanto à identificação. A revelação oficial da morte de Josef Mengele repercutiu globalmente como o desfecho definitivo da busca por um dos criminosos de guerra mais procurados do mundo. A imprensa informou que, embora tivesse escapado por décadas, a justiça científica finalmente selara seu destino. O caso encerrou o mistério em torno de sua fuga e sublinha como a persistência de investigadores e avanços forenses conseguiram resolver um capítulo sombrio da história moderna.
Embora existam teorias conspiratórias afirmando que o Mossad assassinou Josef Mengele, não há nenhuma evidência confiável que sustente essa hipótese. Pelo contrário, registros indicam que a agência israelense tentou capturá-lo, mas jamais deflagrou uma operação de assassinato contra o “Anjo da Morte” de Auschwitz. Em relatos oficiais, como os de Rafi Eitan, ex-comandante do Mossad e líder da operação que capturou Adolf Eichmann, Mengele foi de fato localizado na Argentina durante os preparativos da missão Eichmann em 1960, com endereço e fotografias confirmadas. Porém, a operação não foi levada adiante por receio de comprometer a missão principal. Após a execução de Eichmann, os agentes retornaram, mas já não localizaram Mengele, que havia deixado Buenos Aires por precaução. Então, em resumo, a versão de que o Mossad teria assassinado Mengele é uma especulação não embasada em fatos concretos.
