À primeira vista, “Puella Magi Madoka Magica” (2011) parece apenas mais um anime de garotas mágicas. Cores vivas, protagonistas adolescentes, mascotes simpáticos e a promessa de poderes concedidos por um pacto. Para quem cresceu vendo “Sailor Moon” ou “Sakura Cardcaptors” tudo pode soar familiar. Mas por trás de tudo isso, “Madoka Magica” esconde uma das narrativas mais cruéis e perturbadoras dos animes.
Antes de mais nada é preciso contextualizar que estamos falando aqui do gênero de anime conhecido como, mahou shoujo. O termo significa, literalmente, garotas mágicas, e segue uma fórmula simples. Histórias focadas em magia, onde um grupo de meninas enfrentam monstros enquanto estreitam seus laços de amizade. O gênero nasceu nos anos 1960, e se consolidou nos animes nos anos 1990. Como se fosse uma versão feminina dos super sentais, como “Jaspion”, “Changeman” e “Ultraman”, a estética colorida e as mensagens de otimismo carregaram o gênero por décadas.
O anime começa com a protagonista, Madoka Kaname, tendo um sonho premonitório, na qual vê uma garota com poderes lutando contra um monstro. Enquanto isso uma criatura branca de olhos vermelhos tenta convencer Madoka à fazer um acordo para ajudar a menina. Madoka acorda e vemos aquilo que servirá de contraste para subverter o gênero mahou shoujo, a estética. Assim como a obra começa com um sonho, todo o resto ainda parece estar em um sonho, as cores são fortes e brilhantes, o visual é lúdico e, por muitas vezes parece ter saído de um conto de fadas, as cores e o tom otimista se fazem presentes o tempo todo, além de que, apenas certos elementos, parecem ser futuristas.
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Tudo isso é quebrado quando nos é apresentado para as vilãs da obra, as bruxas. Quando uma garota mágica enfrenta uma bruxa, ela entra em uma barreira, para impedir que atinja pessoas inocentes, esse domínio da bruxa é feito em um traçado diferente do resto anime, sendo montado com colagens, o que dá um mar bizarro e muito mais assustadoras para as criaturas.
Logo no primeiro episódio, nos é apresentado varios conceitos da obra. A criatura branca do sonho de Madoka é Kyubey, o tal mascote da trama que da poderes para as meninas, a outra personagem do sonho é Homura Akemi, que aqui aparece como uma aluna nova mas depois é revelado que ela já tem poderes. A fonte dos poderes é chamado de soul gem, e elas enfrentam as bruxas para purificar suas soul gems e ficarem mais fortes. Bruxas essas que, segundo Kyubey, são a fonte de mal e angústias nos seres humanos.
Tudo isso, apesar de parecer informação demais, é apresentado de forma dinâmica nos primeiros episódios. Quem introduz isso para Madoka, e sua amiga Sayaka, é Mami, uma estudante do ensino médio e garota mágica veterana, ela ensina não apenas os conceitos básicos para as personagens, mas apresenta também o sentido na luta que trava. E é com ela, no terceiro episódio, que o anime mostra sua verdadeira faceta.
Após dois episódios introdutórios, com algumas cenas de ação bem animadas, as coisas mudam no terceiro. Quando surge uma bruxa e Mami consegue convencer Madoka a se tornar uma garota mágica, e as duas assim futuramente se tornarem uma equipe, Mami é devorada de maneira rápida e violenta. A cena não tem nenhuma violência gráfica exagerada, mas o impacto da cena em uma obra, até então, fofa torna tudo mais chocante. Após isso o sentido dos conceitos são invertidos, o que parece ser uma dádiva, poderes concedidos para enfrentar o mal, se revela ser uma prisão, perigosa e cruel.

Para dar poderes para as meninas, Kyubey precisa realizar um desejo delas antes. É como se ele desse o que elas quisessem, em troca de sua liberdade. Mas após o terceiro episódio, o anime não fica apenas mais violento, mas seus ideais são invertidos. Ao transformar os poderes em uma prisão, a obra subverte o primeiro clichê de mahou shoujo: não existe otimismo ou lado bom em ser uma garota mágica. Você precisa literalmente desistir de sua vida, e isso vai mexendo com o psicológico das personagens cada vez mais.
Sayaka, apesar de relutar muito, decide gastar seu desejo para curar um garoto de quem gosta. O desejo, até então altruísta, aos poucos se mostra egoísta, pois Sayaka esperava que ele correspondesse seus sentimentos com isso. Paralelo a esse arco da Sayaka, começa uma sequência de subversão desses conceitos que foram apresentados. Os desejos acabam saindo pela culatra, os poderes são uma prisão e as soul gems são literalmente a alma da pessoa, ou seja, ao se tornar uma garota mágica você deixa de ser um ser humano.
Isso da um peso maior em tudo e faz com que Sayaka entre em depressão. Sem coração de se aproximar do menino que gosta, sabendo que não é mais uma pessoa, ela entra em um vazio indescritível, sentindo que desperdiçou seu desejo e abandonou sua vida para nada. E então outra coisa acontece, sua soul gem fica negra e ela se torna uma bruxa.
Sim, todas as garotas mágicas, estão destinadas a se tornarem às bruxas que caçam, assim como todas as bruxas já foram garotas magicas. Tais informações só eram conhecidas por Homura, algo que é explicado em seu arco de personagem. Homura seria o clichê de antagonista, assim como Vegeta de “Dragon Ball” ou Sasuke de “Naruto”, ela é um lobo solitário. Poderosa, fria e calculista, até essas características mais clichês ganham outro sentido na obra. O desejo de Homura foi de salvar suas amigas, o que fez com que ganhasse poderes de ver as mortes de todas múltiplas vezes. Tal trauma a fez se afastar de todos e assumir essa personalidade fria.
E no meio de tudo isso temos Madoka. A protagonista da obra, até certo ponto, segue a cartilha dos clichês, mas o principal e mais importante é o de ser a escolhida e estar destinada a ser a mais poderosa de todas. Porém, dentre todas as subversões a que se refere à Madoka é, de longe, a mais ousada. Passamos todo o anime, até o último episódio, sem que ela ganhe poderes. Sabendo de tudo, até parece a decisão mais sensata, porém até mesmo isso ganha um peso considerável. Por relutar a se tornar uma garota mágica, Madoka fica o tempo todo como uma espectadora impotente, tentando trazer lucidez a todos com seu discurso, mas sem pode fazer nada ativamente. Alem disso, é alvo das manipulações de Kyubey, que a todo momento tenta convencê-la de fazer um acordo. Tal decisão é o clímax final da obra, e ao invés de ser um momento de esperança, se torna o cenário mais tenso da obra, pois se Madoka é a mais forte garota magica de todas, inevitavelmente se tornará a bruxa mais poderosa de todas.

Subversão
“Madoka Magica” é um anime objetivo e eficiente em tudo que faz. Seja na apresentação de seus conceitos e na desconstrução dos mesmo logo após. A forma como pouco a pouco cada um deles vai se subvertendo funciona como pequenos plot twists ao longo da trama, que te mantém interessado e preso na obra até o fim. Cada personagem tem uma função clara na narrativa.
Mami serve como uma guia para o universo da obra, aos mesmo tempo que sua morte é a virada de chave no tom da trama. Sayaka serve para dar os contornos do terror psicológico da obra, até sua derrocada final, terror psicológico que se aprofunda com o passado de Homura. Madoka é a âncora do grupo, e apesar de não entrar em ação, é quem amarra todos os arcos e movimenta a trama, seja pelas suas palavras ou atos.
Apesar de suas inspirações, “Madoka Magica” se aproxima bem mais de outros animes de desconstrução de genero, como “Neon Genisis Evangelion” ou “School Days” do que de outros mahou shoujo. A negação do “chamado à aventura” de Madoka, é uma clara desconstrução da clássica jornada do herói.
A recepção de Madoka Mágica mostrou que a mistura improvável entre estética fofa e horror psicológico não só funciona, como marca. O anime abriu caminho para outras obras que exploram a mesma tensão entre aparência e essência, lembrando que o terror pode se esconder até mesmo nos gêneros mais inofensivos.
Assistir a “Madoka Mágica” é, de certa forma, aceitar o mesmo contrato que as garotas firmam. A cada episódio, o espectador percebe que a promessa de leveza não passa de ilusão, e que a escuridão está logo abaixo da superfície. Talvez esse seja o maior feito da obra: provar que o horror cultural não precisa de sangue ou monstros explícitos para ser devastador. Às vezes, basta uma fofura disfarçada.
