Há um consenso, em especial no Ocidente, de que as histórias de terror japonesas costumam ser mais macabras e pesadas do que qualquer outra. E, de fato, vemos exemplos bastante extremos dos aspectos narrativos mais doentios que se pode criar até mesmo em histórias que não são de terror. Contudo, é seguro apontar que essa impressão é apenas mais uma das inúmeras diferenças culturais que causam alguma estranheza quando observamos o Japão e os demais países do Leste Asiático.
Apesar disso, caso um leitor esteja procurando livros japoneses com histórias sombrias, ele estará muito bem servido apenas buscando os principais títulos. E, dentre estes, é impossível não destacar Goth, escrito por Otsuichi. Porém, aqui vale dizer que este não é um livro fácil de digerir e muito menos de explicar. As sinopses encontradas na internet não ajudam muito. No final das contas, a melhor forma de entender o que essa obra tem a oferecer é lendo-a.
Mas aqui ficam dois avisos. O primeiro é que, apesar do nome, esse livro não tem nada a ver com a subcultura dos góticos, e o próprio autor, em notas posteriores, admite que deveria ter escolhido um título mais adequado. E o segundo é que o livro não é um romance, mas sim algo mais próximo de uma “narrativa-moldura”. Ou seja: são diferentes contos, com histórias distintas, mas que possuem algo em comum como pano de fundo. Portanto, saiba que cada capítulo é uma história diferente contendo, em alguma medida, dois personagens bastante peculiares. E vale dizer que nenhuma dessas narrativas curtas é fácil de engolir – o que já se espera do terror japonês.
Uma dupla peculiar
Caso fosse necessário resumir a história de Goth de forma mais direta do que as sinopses disponíveis por aí, seria a seguinte: um casal de adolescentes problemáticos busca — ou é encontrado por — diversas situações macabras envolvendo crimes e assassinatos. Eles não são namorados, mas é quase impossível não os enxergar como possuindo algum tipo de romance não convencional. A menina se chama Yoru Morino (ou pelo menos assim acreditamos na maior parte do livro), enquanto o rapaz não tem o nome revelado durante grande parte da obra. E isso é importante para o penúltimo conto.
Apesar de ser um livro com diferentes contos, é praticamente impossível ler cada um deles de forma isolada, uma vez que todos se conectam de alguma forma e formam uma pequena mitologia própria. Porém, também é preciso ressaltar que a sustentação da obra é, justamente, a relação peculiar entre Morino e seu amigo de classe. E, por mais intragáveis e excêntricos que ambos sejam, ainda assim eles parecem ser as pessoas mais “normais” dentro de tudo o que acompanhamos.
Yoru Morino é descrita como sendo tão bela quanto uma boneca, ressaltando-se várias vezes que ela possui uma pinta abaixo do olho esquerdo. Porém, suas habilidades sociais são praticamente nulas, não conseguindo se conectar com ninguém além de seu colega de classe. Ela tem um fascínio pela morte e por casos bizarros, o que, aliado à sua aparência pálida e longos cabelos negros, quase a associa a uma yūrei — fantasmas do folclore japonês. Além disso, um fato curioso sobre a personagem é que ela tem bastante azar — ou sorte — por sempre acabar sendo envolvida em situações perigosas, mas sair ilesa de todas elas. Até mesmo sua tentativa de suicídio, nunca mostrada e apenas citada, acabou falhando. Ela também possui um passado triste, e descobrimos que, na verdade, não é quem diz ser.
O personagem sem nome, que é o narrador-protagonista de muitos dos contos, é tão sombrio quanto sua amiga, mas consegue “fingir” melhor para as pessoas que é alguém convencional. Em outras palavras, ele se apresenta como bem mais sociável do que Morino. Porém, seus gostos são tão bizarros quanto — e até mais, em algumas circunstâncias. Ele também não pode ser considerado uma pessoa “boa”, apesar de nunca ter feito nada contra ninguém, já que presencia e desvenda diversos crimes e mistérios apenas por satisfação pessoal e nunca denuncia nada às autoridades. Seu objetivo é saciar sua curiosidade pelo mórbido. E também vale destacar que ele é um detetive que colocaria Sherlock Holmes no chinelo, pois consegue resolver todos os casos apresentados com uma facilidade que beira o absurdo.
Essa dupla e seus interesses peculiares são a espinha dorsal do livro. Porém, apesar de serem personagens pelos quais, aos poucos, vamos criando certa afeição, também é possível torcer o nariz para eles ao mesmo tempo. Para começar, ambos podem ser classificados naquele estereótipo de adolescentes “góticos e sombrios”. Aliás, poderiam facilmente integrar a Família Addams na série da Wandinha. O fato é que seus comportamentos podem ser interpretados como uma caricatura forçada desse tipo de pessoa, mas os fatos macabros que os cercam colocam esse entendimento em xeque. Também podemos enxergar tal relação como uma releitura — e até mesmo uma subversão — do gênero clássico de narrativa policial, que tradicionalmente apresenta uma dupla de protagonistas. Contudo, por mais que alguns contos tenham um tom mais investigativo, resumir Goth inteiro a esse tipo de releitura seria equivocado, uma vez que diversas narrativas são claramente mais voltadas para o terror. É quase como se a obra fosse uma “homenagem japonesa” à obra de Edgar Allan Poe.
Narrativa experimental
Quem tem alguma experiência com literatura, seja consumindo, produzindo ou trabalhando com ela, consegue reconhecer quando um livro foi escrito por alguém mais novato ou veterano. Goth, como o próprio autor admite nas notas, foi escrito quando ele ainda era jovem. E isso se nota conforme vamos lendo.
A impressão que fica é que Otsuichi estava em uma fase bastante experimental de sua carreira ao escrever a obra. Isso se observa pelas diversas mudanças de tom na narrativa. Em alguns contos, o ponto de vista é dividido tanto entre o protagonista sem nome quanto por uma cadela. Em outros, tudo é contado sob a perspectiva de um dos criminosos ou desse mesmo protagonista. Somente os pensamentos de Morino permanecem um mistério. Mas não é porque este é um livro escrito por um jovem em fase de descoberta que não tenha qualidade. É evidente que essa experimentação do autor trouxe diversos acertos muito positivos — e que até mesmo muitos veteranos não conseguem alcançar, talvez por não terem essa ousadia juvenil.
A começar pelo próprio fato de não termos uma história narrada por Morino, o que acaba dando um ar de mistério em torno da personagem, reforçando o quanto ela é fechada. O fato de não sabermos o nome de seu amigo também traz diversos momentos marcantes, mas este talvez seja o ponto mais importante do livro. É quase como se Otsuichi estivesse nos apontando que nós, leitores, somos aquele protagonista — sempre querendo ver e saber de fatos macabros, mas sem nunca nos envolvermos diretamente. Pode até mesmo ser interpretado como uma paródia do próprio gênero e de seus apreciadores, como se dissesse: “não pense em criticar as atitudes deste rapaz, pois você faz o mesmo”. Só que não é apenas por isso que o livro não apresenta o nome do personagem, pois essa incógnita é importante para o desfecho de um dos últimos contos — apesar de, até aquele momento, o final ser relativamente previsível. Fico me perguntando como isso poderia ser adaptado em uma mídia audiovisual, uma vez que tal recurso parece funcionar melhor na literatura.
Porém, não foram apenas bons acertos que esse experimento narrativo trouxe. A falta de motivação dos personagens ao tomarem atitudes grotescas, com a justificativa de que “apenas deu vontade”, acaba tornando a leitura menos aprofundada. Por mais que seja isso que o autor queira dizer, essa repetição de fórmula se torna cansativa e os atos macabros perdem impacto. Além disso, depois de um tempo, quando entendemos o padrão do autor, paramos de temer por Morino e pelo protagonista sem nome, já que nenhum dos dois realmente corre riscos reais. Outro ponto é que muitos desenvolvimentos dos primeiros contos acabam sendo deixados de lado e não são explorados nos posteriores.
