Existem diferentes formas de contar uma história de terror. Seja no audiovisual, na literatura, nos quadrinhos ou até mesmo no teatro. Cada mídia tem suas possibilidades e limitações. O talento (ou a falta dele) de cada autor está em compreender todos esses elementos e criar uma narrativa assustadora. E, não raro, muitos dos melhores escolhem fazer o terror surgir não apenas da própria trama, mas também da forma como ela é contada. Aliás, esta é tão importante quanto a própria história em si.
Tendo dito tudo isso, eis que, em meados de 2010, um mangaká japonês chamado Masaaki Nakayama começou a publicar um mangá de terror chamado “PTSD Rádio: Frequências do Terror”. Os capítulos foram sendo disponibilizados, um a um, em cada edição de uma revista chamada “Nemesis”. Aqui no Brasil, apenas agora, em 2025, temos acesso ao material completo, em três volumes, publicado pela editora Pipoca e Nanquim.
Apesar de os três volumes terem mais de mil páginas somadas, é fácil ler tudo em uma única tarde de sábado chuvosa. Apesar disso, digerir toda a história é bem mais difícil. Não só pela arte e pela proposta, como também pelo quebra-cabeça narrativo que ela é. E, como se tudo isso não fosse suficiente, o próprio autor faz uma inserção pessoal na obra para contar que foi atormentado pelo próprio trabalho com fenômenos aparentemente sobrenaturais. Isso tudo só aumenta ainda mais a mística ao redor do mangá, que é bizarro por si só.
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A história é confusa, mas não se preocupe
Caso suas expectativas sejam de ler uma história que vá entregar respostas, eu diria para procurar outro mangá. Esta é uma narrativa em que você vai entender apenas o “contorno” de toda a trama, mas nunca irá realmente compreendê-la em sua totalidade. E este é o charme de “PTSD Rádio: Frequências do Terror”.
Agora, se fosse preciso “explicar” em linhas gerais a história, seria o seguinte: a cidade onde se passa a trama foi construída em um antigo local onde se cultuava uma entidade chamada Ogushi-sama, representada por uma pequena estátua. Por mais que se pense que esta seja um tipo de divindade maligna, na verdade ela é mais neutra do que inclinada para qualquer lado. Aliás, é mostrado que ela também auxiliava aqueles que lhe ofereciam oferendas e a tratavam com respeito. Contudo, conforme isso foi se perdendo ao longo dos séculos, também foi despertada a ira da entidade.
Ogushi-sama, pelo que tudo indica, também é um ser muito associado aos cabelos — por isso eles estão presentes na maioria dos capítulos. No Japão, o cabelo está fortemente ligado ao sobrenatural e aos fantasmas, uma vez que as mulheres só os soltavam durante os ritos funerários. Portanto, aqui o autor faz uso de elementos folclóricos para construir o terror, mas utilizando outras explicações para justificar esse recurso. Inclusive, é mostrado que os mais velhos tinham o costume de raspar a cabeça em determinadas idades, como uma forma de se proteger da deidade. Muitas das criaturas apresentadas são seres vinculados ao cabelo em maior ou menor medida.
Apesar disso tudo, não é apenas a ira de Ogushi-sama que causa os eventos na cidade. Outro fator relacionado a isso são os rituais antigos realizados por pessoas que pediam o mal de outros. Assim, diversos sacerdotes criaram caixas com selos para aprisionar os males causados por esse tipo de prática, mas que acabaram sendo liberados ao serem abertas.
Vale notar uma coisa aqui: tudo o que foi dito até agora é apenas uma interpretação, dentre várias possíveis, que se pode tirar da trama. Você mesmo pode ter tido outro entendimento. Isso porque, em nenhum momento, é entregue qualquer explicação direta do que aconteceu, e tudo que nos resta é recolher as pistas e tentar montar o quebra-cabeça. Nunca vamos ter todas as peças em mãos, fazendo com que diversos pontos da história fiquem sem explicação. E isso é muito importante para que o terror funcione aqui, pois, caso a trama fosse completamente esclarecida, certamente se tornaria mais frágil. A razão disso é simples: o risco de ela se tornar um clichê genérico seria muito grande dessa forma. Então é melhor ficarmos só com os pedacinhos mesmo.
Se existe algo a criticar, seria mais a passividade de alguns personagens diante de diversos episódios bizarros que acontecem ao longo dos capítulos. Isso pode ser explicado pelo fato de os japoneses serem pessoas mais reservadas e que não costumam quebrar tabus, e até que seria uma boa explicação. Mas apenas até certo ponto. Chega uma hora em que se torna inverossímil que ninguém comente sobre a maldição da cidade e sobre como seus moradores são afetados por isso.
Outro ponto bastante incômodo é que diversos capítulos se tornam repetitivos em suas temáticas, terminando apenas com uma criatura “observando” os personagens sem fazer nada. É assustador, de fato, mas depois de uns dez desfechos iguais acaba parecendo até preguiça do autor em desenvolver melhor alguns núcleos narrativos.

Onde entra o rádio nesta história?
Foi exatamente isso que me perguntei ao terminar de ler o primeiro volume. Contudo, depois de folhear um pouco mais, ficou claro qual é a intenção de Nakayama ao falar de um “rádio”, mesmo sem nunca citar nada referente a isso em nenhum capítulo. Para entender, muitos leitores mais novos vão ter que se colocar no lugar de uma pessoa de décadas atrás, quando os rádios eram mais populares.
Imagine que você está diante de um aparelho desses e começa a girar o botão de sintonia, parando por alguns momentos em cada estação. Provavelmente você irá ouvir, seja música ou um programa qualquer, algo do meio para o fim ou então apenas um pedaço antes de ir para a próxima estação. Por incrível que pareça, esse era um passatempo bastante comum, principalmente entre crianças, o que as fazia descobrir um mundo de conteúdo. Porém, ao mesmo tempo, o rádio costumava ser um tipo de mídia mais regional, sendo parte de um certo “bairrismo” da população – existem exceções, é claro, mas de modo geral é assim que funciona.
A ideia de Nakayama aqui é fazer com que o leitor tenha essa sensação de estar “zapeando” as estações de rádio, pegando “um pedaço” da história a cada vez, composta por diversas pequenas narrativas curtas que se interligam. Outro ponto em comum é a regionalidade que “PTSD Rádio: Frequências do Terror” traz, uma vez que tudo acontece em uma única cidade. É uma ideia criativa e ousada, já que cada capítulo tem como nome o número de uma estação em megahertz. Contudo, ela parece funcionar melhor quando todos os capítulos estão reunidos em um mesmo volume, e fico imaginando como deve ter sido na publicação original em revista.

O karma do mangaka de terror
Stephen King costuma ser, ao menos para a imensa maioria das pessoas, a referência máxima quando se trata de livros de terror. Dessa forma, um dos karmas de todos os escritores do gênero é ser colocado em comparação, em maior ou menor grau. Já quando se fala em mangás de terror, quase todo mundo lembra de Junji Ito, sendo ele até maior do que a própria obra, ao contrário dos outros mangakas. Assim, é impossível não se lembrar dele quando lemos qualquer outro do mesmo gênero.
E precisamos ser honestos: Masaaki Nakayama tem influências pesadas de Junji Ito, mas também possui diversos méritos que ele próprio não dispõe. A começar pelo fato de conseguir produzir um mangá de mais de 1 mil páginas sobre uma mesma história e manter a constância. Além disso, mesmo com pouco desenvolvimento, seus personagens são muito mais bem trabalhados, a ponto de nos apegarmos a eles com mais facilidade. Seu estilo de traço não aposta no horror grotesco, mas sim em figuras mais sóbrias, ainda assim muito sinistras.
Contudo, seria muito leviano achar que ele “seguiu os passos” de Ito, até mesmo porque ambos os autores têm idades muito próximas. Seria mais adequado pensar neles como colegas de classe que tiveram os mesmos professores e trocaram algumas figurinhas no recreio.
Agora, outra referência escondida, mas bastante satisfatória para quem captar, é a franquia “Silent Hill”. Isso fica subentendido ao longo dos capítulos, por se tratar de uma cidade amaldiçoada com seres esquisitos. No entanto, essa quase “homenagem” acaba sendo escancarada no segundo volume, quando toda a história de um capítulo gira em torno do “apartamento 302”. Para quem não lembra, este é um dos “personagens” do quarto jogo da série. E quando Nakayama precisa voltar a esse local, ele ainda faz questão de colocar a figura de um ser atravessando uma parede. Particularmente, acho interessante quando um autor demonstra esse tipo de reverência às suas obras de formação.

Amaldiçoado pela própria obra?
Aqui temos uma polêmica. Pouco antes da metade do terceiro volume, a história é subitamente interrompida para o autor inserir dois capítulos de experiências pessoais que estava enfrentando justamente ao produzir o mangá.
É possível constatar certa “oscilação” nos capítulos que antecederam essa intervenção, como se estivessem mais desorganizados e feitos apenas para “cumprir tabela”. Neste ponto, confesso que achei que o autor tinha se perdido nas próprias ideias, mas a verdade foi um pouco mais chocante: ele estava enfrentando problemas de saúde que quase tiraram sua vida. Segundo o próprio Nakayama, ele teve uma doença autoimune que atacava seu próprio sangue. Outros fatos bizarros começaram a acontecer em sua vida e na vida de todos ao seu redor. E tudo, supostamente, teria começado após se mudar para o estúdio que continha um pequeno altar xintoísta quebrado, muito misterioso, mas que ele deixou quieto em um canto.
Admito que fiquei ligeiramente receoso ao ler o relato pessoal do autor, narrado em forma de mangá, principalmente por alguns elementos que nos dão a entender que havia ficção misturada com realidade naquilo tudo. Em outras palavras, é difícil saber o que foi realidade e o que foi invenção. Sendo mais conservador, o que dá para imaginar é que ele teve problemas profissionais e de saúde que afetaram seu trabalho. Mas a parte mais “sobrenatural”, apesar de sinistra, é difícil de levar a sério. Apesar disso, tudo isso aumenta a aura de mistério e bizarrice em torno deste mangá, o que provavelmente foi uma mera jogada de marketing de seu editor.
