Conheça a verdadeira origem de alguns memes

A palavra “meme” foi cunhada pelo biólogo evolucionista Richard Dawkins em 1976, no livro “O Gene Egoísta“, para descrever uma unidade de transmissão cultural, ou seja, uma ideia, comportamento ou estilo que se propaga de pessoa para pessoa dentro de uma cultura, de forma análoga aos genes na biologia. Segundo Dawkins, memes podem incluir desde ditados populares, modas e slogans, até práticas sociais e crenças, sendo replicados através da comunicação e da imitação.

Com o advento da internet, o termo passou a ser associado principalmente a imagens, vídeos e textos compartilháveis que se tornam virais, assumindo um caráter humorístico, satírico ou crítico, e funcionando como um veículo moderno de expressão cultural. Além disso, mais recentemente a palavra “meme” também adotou um outro significado mais relativo a “zoeira” ou “piada”. Não é incomum ver os mais jovens falando coisas como “vou fazer isso só pelo meme”, quando na verdade não é nenhum meme, mas sim uma mera brincadeira.

Uma das características mais interessantes dos memes é o fato de que, na imensa maioria das vezes, a maior parte das pessoas não faz ideia do contexto original deles. Uma quantidade significativa do conteúdo viral das redes sociais, inclusive, vieram de imageboards, como o 4Chan. Aliás, esse tipo de fórum é tão poderoso que existem polêmicas sobre seu peso até mesmo em eventos como eleições (mas isso é conversa para outra hora). Mais recentemente, diversos memes surgem em locais como comunidades do Discord ou chats da Twitch. O fato é que quando eles chegam na nossa timeline, dificilmente sabemos de onde vieram. Vamos explorar a origem de alguns.

“Os cara tão na maldade para levar a Makita”

Esse é um dos memes mais estranhos e compartilhados de 2025, mas ao mesmo tempo é um dos mais intrigantes. Afinal de contas, é uma junção de elementos sem qualquer relação que acabou ficando bizarramente engraçado. Mas tudo tem uma explicação.

Este é fruto de uma combinação curiosa de referências e acontecimentos recentes. Originalmente, o meme do Homer chapado, com a pupila dilatada, dizendo “você é meu inimigo”, satirizava a paranoia típica de pessoas sob efeito de drogas, mais especificamente cocaína. Já a makita, que sempre circulou como piada no Brasil por representar uma espécie de “masculinidade” exagerada, ganhou força com o TikTok, onde playlists com o som da ferramenta viralizaram. A partir daí, qualquer situação envolvendo uma makita podia rapidamente se tornar material cômico na internet.

O ponto de virada aconteceu no início de agosto de 2025 quando um usuário do TikTok chamado “fodase469” relatou ter sofrido um acidente, ficado imobilizado e, ainda assim, ter tido sua makita roubada. Por algum motivo, esse vídeo pegou quase 10 milhões de visualizações, embora o usuário mesmo não seja nenhum criador de conteúdo. E embora o vídeo original não tivesse intenção cômica, a narrativa acabou se encaixando perfeitamente no universo do meme, especialmente quando os brasileiros juntaram a imagem do Homer noiado à história do roubo. O resultado foi a criação de um novo meme bizarro e hilário: Homer em estado de paranoia extrema, reagindo ao risco de ter sua preciosa makita levada. Uma mistura de cultura estrangeira, humor brasileiro e a obsessão da internet por referências inesperadas.

“Mr. Incredible Uncany”

O ponto de partida para o surgimento desse meme ocorreu no dia 15 de outubro de 2020 no Twitter do artista gráfico Nathan Shipley. Neste dia, ele publicou uma série de artes ultrarrealistas dos personagens da franquia “Os Incríveis”. O que mais chamou a atenção foi justamente a do Senhor Incrível, cujo resultado ficou bastante estranho e dando ao personagem uma expressão preocupada. Isso chamou a atenção de vários usuários que começaram a fazer montagens colocando sombras e uma coloração monocromática na arte, dando origem ao meme.

Diferentemente do meme original, a versão “perturbada” se popularizou por vídeos em que imagens do Senhor Incrível se alternam com outras figuras assustadoras, como caveiras e o “Troll Face”, reagindo a situações, lugares e objetos apresentados ao longo do vídeo, enquanto a trilha sonora evolui de forma cada vez mais macabra, criando um efeito de tensão crescente. O primeiro vídeo conhecido do meme, intitulado “Mr Incredble Becoming Uncanny”, foi publicado em 27 de setembro de 2021 pelo usuário espanhol “músicos Cínicos 鯉” no YouTube. Nele, o rosto do personagem alterna entre expressões felizes e bizarras, acompanhadas por variações da música “Life’s Incredible Again”, da trilha sonora de Os Incríveis.

A partir dessa publicação, os vídeos se espalharam rapidamente pelo TikTok e YouTube, chegando ao Facebook em dezembro de 2021, especialmente após uma montagem do usuário “@fishystik1a” viralizar na página “Pains of Hell Wellness Clinic”. No Brasil, o meme ganhou notoriedade com o canal “memes do sr incrível (❍ᴥ❍ʋ)”, que também explora variações como o “Senhor Incrível Transcendendo”, mostrando o herói ficando cada vez mais alegre em reação a diferentes situações.

100 homens contra um gorila

Esse daqui é tão inusitado quanto o meme do Homer noiado, mas a explicação é mais simples. O meme “100 homens contra um gorila” surgiu como uma questão hipotética que pergunta quem venceria uma batalha entre cem homens machos desarmados e um gorila. Registrada pela primeira vez em 2020 no subreddit r/whowouldwin, a ideia rapidamente se espalhou pela internet, inspirando memes satíricos e discussões acaloradas. Em 2022, a pergunta se tornou viral no TikTok, e em 2025 voltou a repercutir em redes sociais como Facebook e YouTube, ganhando atenção de celebridades, políticos e organizações de notícias. A viralização gerou desde comentários do senador de Montana, Tim Sheehy, até postagens humorísticas da Casa Branca e de personalidades como Jake Paul, que brincou sobre querer enfrentar o gorila, e MrBeast, que convidou 100 voluntários masculinos para o desafio hipotético.

Especialistas e conservacionistas, no entanto, procuraram trazer uma perspectiva mais realista para o debate. Tara Stoinski, presidente do Dian Fossey Gorilla Fund, explicou que os gorilas, apesar de sua força e mandíbulas potentes, usam essas características mais para defesa do que para ataque, e que um grupo coordenado de humanos poderia prolongar uma batalha, desgastando o animal. Michelle Rodrigues, primatologista, reforçou que gorilas normalmente evitam confrontos e escolheriam fugir a lutar contra 100 homens, enquanto Cat Hobaiter destacou que, se os humanos fossem forçados a atacar um por um, não teriam chance. Já Ron Magill, do Zoológico de Miami, ponderou que, mesmo com riscos graves de concussões, mordidas e pescoços quebrados, a cooperação poderia dar vantagem aos humanos.

O debate, que mistura humor, curiosidade e especulação científica, também gerou discussões sobre ética e conservação. A PETA criticou a brincadeira de MrBeast, sugerindo que animais não deveriam ser usados como entretenimento, enquanto Robert Irwin e o Dian Fossey Gorilla Fund esperavam que o meme despertasse interesse pela preservação dos gorilas.

“Cala Boca, Galvão”

Essa daqui foi uma das trollagens mais lendárias feitas por Cid Maurício, do extinto blog “Não Salvo”. O meme surgiu durante a Copa do Mundo de 2010 como uma forma de os brasileiros expressarem sua frustração com a narração de Galvão Bueno. Inicialmente, a hashtag no Twitter permitia que os internautas reclamassem das falas do narrador e de seus comentários considerados exagerados ou inoportunos.

A criatividade da trollagem foi elevada por Cid que transformou o meme em uma pegadinha internacional. Ele e sua equipe criaram um vídeo em inglês, narrado por um locutor profissional, explicando que “Cala Boca, Galvão” significava na verdade “Salve o pássaro Galvão”, um animal fictício ameaçado de extinção. A história inventava que esses pássaros eram depenados para confecção de fantasias de carnaval, e que a hashtag #calabocagalvão ajudaria a protegê-los. Estrangeiros caíram na brincadeira, espalhando a hashtag pelo mundo e ampliando a viralização do meme.

Galvão Bueno, inicialmente incomodado com a repercussão, acabou participando da piada e até incentivou simbolicamente a campanha fictícia. O sucesso de “Cala Boca, Galvão” é lembrado como uma das maiores trollagens da internet, mostrando o poder das redes sociais e a capacidade dos brasileiros de transformar uma crítica bem-humorada em fenômeno global. Apesar de o blog Não Salvo ter sido encerrado em 2020, o legado da brincadeira permanece como um marco na história dos memes nacionais e internacionais. E essa nem foi a melhor pegadinha feita pelo blog, pois tem também a Coreia do Norte na Copa do Mundo de 2014 (que até hoje tem gente acreditando nisso).

A garota desastre

Este é um clássico. O meme “Garota Desastre” (do inglês Disaster Girl), também conhecido como Menina do Desastre ou Garota do Destrate, é uma das imagens mais icônicas da internet. A fotografia mostra uma menina olhando para a câmera com um leve sorriso, enquanto uma casa pega fogo ao fundo, criando uma cena que combina inocência e caos de forma memorável. A foto foi tirada em 2005 na cidade de Mebane, na Carolina do Norte, nos Estados Unidos, e a menina na imagem se chama Zoë Roth, que tinha apenas quatro anos na época. Zoë explicou que seu pai, Dave Roth, fã de fotografia, a levou até o local do incêndio, que na verdade era um “incêndio controlado” usado para treinamento de bombeiros, e pediu para que sorrisse, gerando aquela expressão que se tornaria lendária.

A fotografia só ganhou notoriedade alguns anos depois, em 2008, ao vencer um concurso na categoria “emoções na fotografia” da revista JPG Magazine. Desde então, a imagem se espalhou amplamente, tornando-se um dos memes mais reconhecíveis da internet, muitas vezes usada para representar situações de caos ou eventos desastrosos de maneira irônica. A combinação do sorriso enigmático de Zoë com o incêndio ao fundo tornou a foto perfeita para a cultura de memes, unindo humor e expressão visual de forma quase atemporal.

Em fevereiro de 2021, já adulta, Zoë decidiu transformar a foto em um NFT (token não fungível), permitindo que ela e sua família tivessem controle sobre a distribuição e os direitos autorais da imagem. Inicialmente estimada em 100 ether, a foto foi vendida por 180 ether, equivalente a 473 mil dólares na época, e depois por 500 mil dólares, cerca de 2,7 milhões de reais. O valor arrecadado ajudou Zoë a quitar dívidas estudantis, distribuir parte entre sua família e doar para instituições de caridade, consolidando o meme não apenas como um fenômeno cultural, mas também como uma fonte significativa de recursos e reconhecimento para sua criadora.

Os dançarinos do caixão

Aqui entra um dos memes mais compartilhados em 2020, no auge da pandemia de Covid-19. O grupo conhecido como Dancing Pallbearers (ou Dancing Coffin, Coffin Dancers) é formado pelos carregadores de caixão da Nana Otafrija Pallbearing and Waiting Service, sediada em Prampram, no sul de Gana, liderada por Benjamin Aidoo. Eles começaram suas atividades em funerais por volta de 2003, mas a ideia de incorporar coreografias no carregamento de caixões foi algo que Benjamin desenvolveu depois, para trazer alegria e estilo às cerimônias fúnebres, dando uma celebração ao falecido em vez de apenas luto.

Vídeos antigos do grupo foram remixados com a música EDM “Astronomia” de Tony Igy, transformando-se em punchlines para falhas, acidentes e eventos com finais trágicos ou inesperados. Curiosamente, no original, essa não era a música tocada nestes funerais, mas sim uma espécie de marchinha típica da região. O fato é que essas combinações surgiam em redes como TikTok, YouTube e Facebook, onde um vídeo de alguém sofrendo um tropeço ou situação de risco era cortado para exibir os dançarinos de caixão com a música, implicando humor negro que associa o “resultado ruim” à morte.

Além disso, o meme acabou sendo usado também como ferramenta de conscientização em vários países. Em Gana, os dançarinos chegaram a participar de campanhas pedindo para as pessoas ficarem em casa, com slogans como “Stay home or dance with us” (“Fique em casa ou dance conosco”), sugerindo que desobedecer às medidas sanitárias poderia levar a consequências tão graves quanto a “dançar com eles” — uma forma simbólica de dizer “ou viva ou acabe morto”.

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