“Ghost Hound”: o anime que caminha devagar e não chega a lugar nenhum

Existem animes que, logo no primeiro episódio, já mostram a que vieram e causam uma primeira impressão marcante. Já outros demoram algum tempo até pegarem embalo e a história começar a ficar interessante. Não é à toa que existe a regra dos três episódios dentro da comunidade otaku. Isto é: antes de abandonar qualquer obra, assista pelo menos até o terceiro capítulo.

Enquanto isso, há alguns títulos que possuem um desenvolvimento lento, mas cujo final é recompensador – para o bem e para o mal. Mas também existem aqueles que parecem uma completa perda de tempo. E existe “Ghost Hound”, que fica em um meio-termo entre esses dois. Este é um anime que caminha a passos de tartaruga para, no final, não chegar a lugar algum. Ou, pelo menos, é essa a impressão que ele passa assim que o último episódio encerra.

E aqui é necessário esclarecer algo: quando, finalmente, toda a trama de “Ghost Hound” é revelada, constata-se que ela não é ruim. Muito pelo contrário, diga-se de passagem. Este é um anime com uma das propostas mais originais que já vi, misturando elementos de ficção científica e sobrenatural de uma forma única. No entanto, por mais que esbanjasse potencial, a forma escolhida para contar essa história foi, no mínimo, lamentável e irritante. Tanto pelo desenvolvimento inchado e arrastado quanto pela completa falta de aprofundamento de núcleos importantes. E não foi por falta de tempo de tela.

Contexto

Ghost Hound (Shinreigari: Ghost Hound) é uma série de anime produzida pelo estúdio Production I.G, com base em uma ideia de Masamune Shirow, lançada originalmente entre 2007 e 2008, com 22 episódios. A história se passa na tranquila cidade montanhosa de Suiten, na ilha de Kyūshū, Japão, onde o sobrenatural começa a invadir o mundo real. Fenômenos estranhos — sonhos vívidos, experiências fora do corpo, espíritos e visões — tornam-se cada vez mais frequentes, e três jovens, cada um marcado por traumas em sua infância, decidem explorar uma dimensão paralela chamada “Unseen World” para confrontar seus medos, recuperar memórias perdidas e compreender as origens desses eventos.

Entre os personagens centrais está Tarō Komori, de 14 anos, que sobreviveu a um sequestro ocorrido quando era criança junto com sua irmã Mizuka — mas somente ele foi resgatado. Desde então, Tarō sofre de narcolepsia, pesadelos recorrentes e projeções espirituais, tentando recuperar memórias e entender o que de fato aconteceu com sua irmã. Outros são Makoto Ōgami, um garoto transferido de Tóquio que inicialmente aparece como arrogante, mas acaba se tornando fundamental para desenterrar os mistérios da cidade; e Masayuki Nakajima, que também divide traumas próprios, especialmente ligado à família e ao passado ligado à barragem abandonada e hospital velho. Além disso, Miyako Komagusu, filha de um sacerdote local, tem a capacidade de ver fantasmas e acaba envolvida mais diretamente com os fenômenos sobrenaturais da região.

Boa ideia, execução péssima

Eu ainda era um adolescente quando tomei conhecimento da existência de “Ghost Hound”. Naquele tempo, tentei assistir, mas não passei do quarto ou quinto episódio, pois não me senti engajado o suficiente para continuar. Essa mesma situação voltou a ocorrer ao menos três vezes depois. Lembro bem que a minha última tentativa foi durante a pandemia, quando o anime ainda estava disponível na Netflix. Ao garimpar alguns títulos para conferir, me deparei com esse e decidi, por teimosia, assistir até o fim.

A experiência não foi uma tortura, pois já vi coisa pior. Só que consegui entender o porquê do meu eu mais jovem não ter aguentado assistir a “Ghost Hound”. O anime caminha em um ritmo desnecessariamente lento. E, como se isso não fosse o suficiente, são colocados diversos entroncamentos no roteiro que não são genuínos, mas artificiais.

É apenas nos últimos três ou quatro episódios que o espectador vai entender qual é o objetivo da história. Só que, ainda assim, a sensação que dá é: “tudo isso para ter um desfecho desses?”. A narrativa não permitia um final pomposo, mas acabou se tornando lamentavelmente mais insossa do que “sóbria”. É diferente de “Shiki”, por exemplo, em que todo o longo desenvolvimento do roteiro é recompensador na reta final.

Veja bem: torno a repetir que a história de “Ghost Hound” não é ruim. Pelo contrário, ela é até mesmo interessante e curiosa. Contudo, os realizadores decidiram contá-la de uma forma mais hermética do que o necessário. Em outras palavras, além de a história ter sido alongada, o roteiro criou camadas de complexidade que nada agregam à obra como um todo – na verdade, até ofuscam alguns méritos. Ouso dizer, inclusive, que, se tudo tivesse sido condensado em um anime com duração mais convencional, de 12 episódios, seria muito melhor e talvez estivesse entre os mais lembrados até hoje.

Para começo de conversa, não existe qualquer justificativa sensata para que o trio principal se unisse logo no início da história. Eles apenas foram colocados juntos por conveniência do roteiro, que exigia que seus caminhos se cruzassem. Após isso, quando os três desenvolvem a habilidade de realizar projeção astral, parece até que tudo iria ganhar corpo, mas a verdade é que a trama só se torna ainda mais arrastada e quase sem rumo.

Mas note aqui que eu disse “quase”, pois os realizadores tinham uma noção de qual era o final pretendido e o tema a ser abordado. O problema é que, até chegar lá, o trajeto não foi bem definido. Ou, pelo menos, é essa a impressão que fica. E, caso tenha sido uma deliberação artística, a única conclusão possível é que ela foi péssima.

Para exemplificar o que quero dizer, irei usar outro anime como parâmetro: “Shingeki no Kyojin”. Durante boa parte da história, acreditamos que a trama seria sobre a luta da humanidade contra monstros gigantes, opressão e liberdade. Porém, no final, percebemos que essa é uma obra sobre ciclos de ódio entre povos e ressentimentos do passado. É uma mensagem importante e que faz o espectador refletir por um longo tempo – mesmo que não goste. Porém, todo o terreno se formou para conduzir àquela conclusão de uma forma bem construída, sem que se possa dizer que o autor fez um retcon ou algo parecido.

Em “Ghost Hound”, a situação é ligeiramente semelhante, mas falha no resultado final. Mais do que uma história de fantasmas e projeção astral, é uma obra que fala sobre a relação entre o primitivo e o avanço exagerado da ciência. De um lado, temos um culto irracional e deturpado, colocando uma criança como sua líder máxima. Do outro, existem cientistas que estão indo longe demais a ponto de criar vida artificial, mas que ainda assim se revela como “vida” a ponto de possuir uma existência no mundo espiritual. São dois extremos do ser humano que se mostram prejudiciais ao mesmo tempo e que, no final, acabam ambos “enterrados” de alguma forma.

Não tem como dizer que essa proposta não seja interessante. É até mesmo fascinante. O problema é que nada construído ao longo de 22 episódios faz com que essa conclusão seja convincente, nem mesmo quando se olha em retrospectiva. Parece até que a direção se perdeu ao longo do tempo e, faltando apenas três episódios para o fim, percebeu que precisava resolver tudo o quanto antes. E foi isso mesmo que aconteceu: um final apressado, cheio de conveniências de roteiro (mais uma vez) e um pequeno fanservice nos minutos finais para dar a ideia de um final feliz para o protagonista e seus companheiros. Mas fica só na ideia.

E por falar em direção perdida, outro ponto que chega a ser asqueroso em “Ghost Hound” é a sonoplastia. O anime, em muitos momentos (muitos mesmo), insiste em sons irritantes e desconfortáveis por longos segundos, como zunidos ou ruídos quase impossíveis de identificar. Caso o espectador assista de fones de ouvido, é impossível permanecer com eles por muito tempo sem precisar tirá-los até passar. Se o objetivo era causar uma crise de labirintite em alguém, acredito que conseguiram.

Por fim, “Ghost Hound” é um daqueles exemplos de obras com boas ideias, mas execução malfeita. Isso é lamentável, uma vez que certamente poderia estar no cânone dos animes mais memoráveis dentro do gênero de mistério e sobrenatural. Porém, infelizmente, acaba se tornando vítima das próprias escolhas.

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