Brincadeiras de Halloween que deram muito errado

Aqui no Brasil, nós não temos tanto a cultura do Halloween como os Estados Unidos e outros países anglófonos têm. Contudo, mesmo que não se tenham tantas práticas em terras tupiniquins, ainda assim o Dia das Bruxas está muito presente na cultura de forma indireta, uma vez que se consome muito conteúdo norte-americano há décadas. Dessa forma, de maneira muito sutil, ainda temos as influências da data por aqui em alguma medida.

E dentre essas práticas estão as famosas “travessuras”. Quase sempre, essas brincadeiras são relativamente inofensivas, apesar de causarem incômodo para muitas pessoas. Exemplo disso são casos de carros e casas sujas com ovos e uma mistura pastosa de papel higiênico e água. Outras consistem em aplicar sustos, bem ou mal elaborados, na própria família, em amigos ou até mesmo em desconhecidos.

Por mais que muitas dessas pegadinhas possam passar da linha do aceitável, a maioria termina apenas em aborrecimentos. E note bem que frisamos “a maioria”. Infelizmente, no meio de tantas travessuras ao longo de tantas décadas, é natural que, eventualmente, alguma tragédia acabe acontecendo. Em outros casos, sequer uma brincadeira ocorre de forma prévia e apenas o fim trágico acontece. Vamos esmiuçar algumas dessas histórias.

Metanol é para amadores

Em 2009, em Granville, Nova York, uma mulher de 49 anos decidiu fazer uma brincadeira de Halloween inspirada em algo que havia visto na televisão: ela adicionou colírio Visine (que contém a substância ativa tetrahydrozoline) ao ponche da festa para “deixar alguém zonzo” ou “mal” como susto. A ideia era inofensiva, apenas provocar desconforto leve, náuseas ou tontura, mas os efeitos foram graves. A mulher que bebeu o ponche adulterado rapidamente desabou, ficou extremamente mal, e mesmo sendo levada ao hospital, não resistiu. A tragédia resultou na morte dela. Além disso, outras pessoas na festa adoeceram por terem consumido a mesma bebida contaminada.

Após a investigação, a responsável foi acusada de assault causing bodily harm (agressão causando dano corporal). Embora o crime tenha partido de uma pegadinha, a lei reconheceu que inserir uma substância tóxica em bebida alheia, mesmo sem intenção de matar, pode resultar em consequência penal. Em muitos relatos, esse tipo de conduta é tratado como crime leve ou meio-assalto, dependendo da gravidade dos efeitos. No caso específico de Granville, ela foi processada por um delito menor, não por homicídio direto.

Enforcamento de mentirinha?

Jordan Morlan, um adolescente de 16 anos de Louisville, Kentucky, gostava muito do Halloween e de pregar sustos nos familiares. Em 2013, ele e sua irmã estavam colocando decorações de Halloween no quintal de casa, inclusive uma corda em nó de forca pendurada em uma árvore como enfeite assustador. A brincadeira pretendia ser apenas isso: um cenário de Halloween para assustar a irmã mais nova.

Em determinado momento, Jordan colocou a cabeça através do nó decorativo e ficou pendurado. A irmã, vendo que ele estava imóvel e com baba saindo da boca, percebeu que algo estava errado, mas a mãe inicialmente achou que era mais uma das brincadeiras habituais. Ao perceber que ele não se movia, correram para ajudá-lo, mas não conseguiram soltar o nó a tempo. Paramédicos o socorreram, mas ele entrou em coma pouco depois. Nas cerca de 12 horas seguintes, os órgãos de Jordan começaram a falhar e ele acabou falecendo.

As autoridades concluíram que a morte foi acidental. O nó decorativo que deveria funcionar apenas como enfeite acabou apertando o pescoço de Jordan de forma perigosa, causando asfixia, desorientação rápida (provavelmente por falta de oxigênio), e, por fim, falha de diversos órgãos.

Cabeça de mentirinha?

Este é um caso bem mais recente. Na noite de 2 de novembro de 2024, um idoso de 74 anos morreu após ser atropelado por um ônibus na região de Cowgate, em Edimburgo, capital da Escócia. O impacto foi tão forte que a vítima acabou decapitada.

A tragédia, que aconteceu dois dias após o Halloween, levou pedestres a confundirem o crânio do homem com uma decoração da data. Algumas pessoas chegaram a manusear a cabeça acreditando se tratar de uma peça cenográfica, até perceberem que se tratava de um cadáver real.

O caso ganhou repercussão internacional após vídeos do incidente circularem nas redes sociais. Em nota, a polícia escocesa lamentou o ocorrido e afirmou que as imagens causou sofrimento à família do falecido. Inclusive, a inspetora Trisha Clark pediu que o conteúdo não fosse compartilhado e solicitou que os cidadãos denunciem publicações que exibam as cenas.

Ovo aqui não

Em 31 de outubro de 2010, na localidade de Marangaroo, em Perth, Austrália Ocidental, um homem de 67 anos chamado Tom Fawcett tomou conhecimento de que jovens estavam jogando ovos em seu carro como uma pegadinha de Halloween. Irritado, ele decidiu persegui-los dirigindo seu veículo para confrontá-los. As informações apontam que o incidente começou quando os jovens atiravam ovos enquanto passavam de carro pela casa de Fawcett, sujando o automóvel que ele havia acabado de lavar.

Durante a perseguição aos jovens, Fawcett acabou sofrendo um ataque cardíaco enquanto dirigia. Ele perdeu o controle do veículo e colidiu contra uma casa em Greenwood. Testemunhas relataram que ele ficou em coma induzido logo após o acidente. A polícia de Perth iniciou investigação sobre a brincadeira que desencadeou os eventos, bem como os danos causados à casa e as circunstâncias do acidente.

No hospital, os médicos relataram preocupação quanto à possibilidade de dano cerebral, já que o senhor ficou em coma por cerca de 72 horas. Ele já havia sofrido um primeiro ataque cardíaco anteriormente, e este episódio piorou seu estado de saúde. Embora estivesse em condição estável nos cuidados intensivos, o caso evidenciou como uma pegadinha aparentemente inofensiva pode desdobrar-se em consequências físicas muito graves — especialmente em pessoas com histórico de fragilidade cardíaca.

Ovos aqui não vol. 2

Ovos, sempre os ovos… Karl Jackson tinha cerca de 21 anos quando foi vítima de um crime trágico na noite de Halloween de 1998, no Bronx, em Nova York. Ele estava acompanhando sua namorada para buscar o filho desta em uma festa de Dia das Bruxas quando seu carro foi alvo de uma pegadinha clássica: um grupo de adolescentes começou a jogar ovos no para-brisa do veículo. A ideia era uma travessura, mas não violenta. Segundo os relatos, isso irritou Jackson, que saiu do carro para confrontar os jovens.

Ao retornar ao carro, entretanto, a situação escalou. Um dos adolescentes, identificado em matérias como Curtis Sterling, estaria armado. Ele teria sacado uma arma e disparado em direção a Jackson, atingindo-o na cabeça. A bala foi fatal e Jackson morreu no local, instantaneamente. O incidente chocou a comunidade, justamente por mostrar como uma pegadinha comum e aparentemente inofensiva pode se tornar mortal quando envolve armas. Depois desse caso, algumas localidades em Nova York teriam revisto normas e leis relacionadas a travessuras noturnas (como “egg-throwing”) — em parte para coibir vandalismo, em parte para tentar evitar que situações parecidas se repitam.

O assassino do Halloween

Na noite de Halloween de 1973, em Fond du Lac, Wisconsin, a criança de nove anos Lisa Ann French saiu para fazer “trick-or-treating” vestida como um “hobo” (mendigo). Ela parou na casa de seu vizinho, Gerald Miles Turner Jr., de 25 anos, que a convidou para entrar. Dentro da residência, Turner a atraiu para o quarto, onde a agrediu sexualmente e a matou por asfixia. Após o crime, ele escondeu o corpo e as roupas de Lisa em sacos plásticos e descartou-os em um campo na cidade vizinha de Taycheedah. A descoberta do corpo ocorreu dois dias depois, em 3 de novembro de 1973.

Turner foi preso em agosto de 1974 e, em fevereiro de 1975, foi condenado por homicídio em segundo grau, agressão sexual e outros crimes relacionados. Ele recebeu uma sentença de 38 anos e seis meses de prisão. Após cumprir parte da pena, Turner foi libertado condicionalmente em 1992, mas violou as condições de liberdade em 2003, sendo reincarcerado por posse de material pornográfico. Em 2018, ele solicitou sua liberação, mas uma decisão judicial determinou que ele permanecesse em uma instalação de saúde mental supervisionada devido ao risco contínuo que representava.

O caso teve um impacto significativo na comunidade de Fond du Lac e em Wisconsin como um todo. Em resposta ao crime, a legislação estadual foi alterada para permitir a detenção de criminosos sexuais considerados perigosos após o cumprimento da pena, conhecida como “Turner’s Law”. Além disso, houve mudanças nas políticas locais de “trick-or-treating”, com a implementação de horários mais restritos para a atividade, visando aumentar a segurança das crianças.

Trollado na TV

Aqui um caso mais leve, mas que poderia ter escalonado para algo mais sério. O repórter Mailson Franklin, do programa Fique Alerta, da TV Pajuçara (Maceió, Alagoas), ficou famoso em 2015 por já ter sido vítima de várias pegadinhas no período do Halloween, mas uma das mais marcantes foi a encenação de um suposto triplo homicídio. A produção do programa preparou tudo: Mailson recebeu uma pauta dizendo que haveria “três corpos desovados” no bairro do Pontal da Barra, e foi até lá para fazer a cobertura jornalística, acreditando ser uma ocorrência grave de crime. A encenação era feita por atores, com cenário simulado, tudo para fazê-lo levar susto de verdade.

Quando o repórter chegou e começou a gravar, fazendo as entrevistas e percorrendo o local, ele se deparou com a cena preparada: corpos “dispensados”, clima de tragédia, pessoas andando em volta como se fosse investigação. Foi nesse momento que o susto foi geral: Mailson percebeu que aquilo não estava “batendo” e se deu conta de que estava sendo enganado, mas só depois de entrevistar testemunhas, observar detalhes e, claro, levar um susto.

Apesar do choque, tudo seguiu de forma relativamente leve: não houve ferimentos ou consequências físicas graves, e Mailson aceitou a brincadeira com bom humor. A pegadinha foi ao ar no dia 30 de outubro do programa e gerou repercussão, muitos comentários nas redes sobre a reação dele, e usou justamente o contraste entre expectativa de tragédia e realidade de brincadeira.

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