Ao longo dos últimos dois séculos, tivemos uma pletora de exemplos de histórias de detetive e mistério. Algumas são lendárias, entrando para o cânone da literatura mundial. Já outras são tão ruins e genéricas que foram esquecidas pelo tempo. E, após tanto tempo, existe o risco de se criarem clichês que se tornam vícios entre os autores. Muitos inovaram com conceitos originais, como G. K. Chesterton, que teve a ousadia de criar um padre detetive, ou então Jo Nesbø e Stieg Larsson, que trouxeram os países escandinavos como um pano de fundo inusitado para histórias de mistério.
Com tudo isso, é possível pensar que existam poucas opções de rotas a serem exploradas dentro da literatura policial. Porém, com a difusão cada vez maior dos escritores japoneses no Ocidente, conseguimos notar quantas possibilidades ainda existem no gênero. O misterioso autor e youtuber Uketsu vem demonstrando isso com maestria nos últimos anos. De todas as possibilidades, provavelmente ninguém pensaria que um arquiteto usaria seu conhecimento técnico da área para solucionar mistérios a partir da análise de plantas baixas. Mas é justamente esse o caso dos dois livros da série “Casas Estranhas”.
Assim como em “Imagens Estranhas”, que já tem análise aqui no Cova Aberta, em “Casas Estranhas” Uketsu não utiliza apenas a prosa para contar suas histórias, mas também usa e abusa das imagens, criando assim uma experiência multimídia. Porém, ao contrário de seu outro trabalho, que se utiliza de desenhos infantis ou ilustrações, o fio condutor das duas obras são projetos de casas. Esse elemento é curioso e criativo, pois, além de termos que imaginar tudo o que está acontecendo conforme as descrições do texto, também somos convidados a imaginar como tais construções seriam na prática. E também é impressionante pensar que algo tão comum pode esconder segredos sombrios.
Uma nova franquia ou identidade literária?
Quando comprei os dois volumes de “Casas Estranhas”, acreditava que se tratavam de uma única história. Porém, cada livro tem sua própria trama e não há qualquer problema em começar a ler o segundo antes do primeiro, por exemplo. A dupla de personagens principais é a mesma em ambos, bem como a proposta de cada história se valer de plantas baixas de casas.
Contudo, a principal diferença entre os dois livros está na forma como cada um conduz suas histórias. No primeiro volume, a narrativa é curta e dá para ler tudo em uma única tarde livre. Ela também é linear, e o raciocínio dos protagonistas é mais simples de compreender. Já no segundo, a quantidade de páginas praticamente dobra e há muito mais texto do que no primeiro. Além disso, por sua vez, a narrativa deste não é linear, mas não chega a ser um completo quebra-cabeças narrativo como “Imagens Estranhas”. Em outras palavras, dá para entender, com o passar dos capítulos, que existe uma trama maior por detrás, mas é bem difícil deduzir o que está acontecendo.
Outro ponto digno de nota em ambos os livros é o fato de tudo se desenrolar quase como uma peça de teatro. Não existem travessões para indicar linhas de diálogo, mas sim o nome dos personagens. Naturalmente, existem momentos de descrição, e estes não são sinalizados, mas não há qualquer prejuízo na compreensão. E como a prosa se dá principalmente por diálogos, que são apoiados pelas imagens, isso faz com que a leitura seja bastante fluida – mesmo no segundo volume.
Com todos esses pontos em comum (além de outros), fica a dúvida se Uketsu está criando uma espécie de universo literário de mistério e terror, como uma franquia a ser explorada, ou se se trata da formação de uma identidade literária. Apesar de que, no fundo, ambas as alternativas não se anulem, apenas os próximos anos vão responder a essas questões. Isso faz com que ele não se distancie tanto assim do comportamento clássico dos escritores do gênero, mas, com certeza, o misterioso autor está fazendo isso do seu próprio jeito.

Emoções frias ou inexistentes
É mais fácil analisar “Casas Estranhas 1 e 2” dizendo logo de cara o que ele não faz bem: construir personagens humanos. No que o autor capricha na trama, ele peca, infelizmente, na confecção da personalidade da dupla de protagonistas. E vale notar que Uketsu tem, sim, uma grande habilidade em construir bons personagens, pois demonstrou isso em “Imagens Estranhas”.
Mas, em sua duologia, não há nenhum que se destaque de verdade. O “autor” que narra a história (que pode ser interpretado como uma inserção do próprio Uketsu no universo do livro) não demonstra qualquer tipo de personalidade, como se sua psique fosse uma folha em branco. O mesmo vale para Kuhiraha, o arquiteto detetive que desvenda todos os segredos a partir da análise das plantas baixas das casas. Mesmo que ambos sejam personagens geniais, não existe um desenvolvimento deles como seres humanos. Parece, às vezes, que Uketsu precisava deles apenas para fazer a trama avançar, deixando todo o resto de lado.
Até temos alguns pequenos momentos com personagens um pouco melhor desenvolvidos, sendo estes os secundários e envolvidos direta ou indiretamente nas tramas. Isso não é problemático, pois esses pequenos instantes são bem feitos – demonstrando a capacidade do autor. O grande problema aqui é que a dupla que conduz a história não tem qualquer química, e isso pode acabar prejudicando um pouco o engajamento quando se coloca isso em perspectiva. Existem diversos exemplos de duplas marcantes na literatura policial, mas, se pinçarmos a japonesa em particular, podemos citar o livro “Assassinatos do Zodíaco de Tóquio”. Inclusive, neste livro, a própria trama de mistério é iniciada por causa da preocupação de um dos amigos com o outro, revelando uma amizade complexa e intrigante.
Outro ponto que pode ser controverso, ou não, são as conveniências que o roteiro cria para si mesmo para que a história possa funcionar. Em outras palavras, alguns fatos de ambas as histórias acontecem da forma que o autor queria que acontecessem, para que a trama pudesse avançar. Olhando de fora, esses fatos não seriam “impossíveis” de acontecer, mas certamente seriam bastante “improváveis”. Desse modo, esse fator ser incômodo ou não fica a critério da tolerância de cada leitor.
Casas podem ser muito estranhas (mesmo)
Caso pense que estes pontos negativos da duologia ofusquem seus méritos, digo que é justamente o oposto. A trama de “Casas Estranhas 1 e 2”, com sua forma diferente de ser contada e suas propostas inovadoras, consegue ser tão envolvente e instigante que as fragilidades acabam se tornando meros detalhes a serem tolerados.
Um dos pontos mais interessantes em ambos os livros é o fato de que nenhum dos dois mistérios é resolvido por completo. E não quer dizer que foi preguiça ou descuido do autor. Ao contrário: é proposital para tornar tudo ainda mais verossímil. A bem da verdade, grande parte dos mistérios que existem no mundo real não é resolvida. Eventualmente, até mesmo os culpados de um crime são identificados e presos, mas vários elementos do caso ficam sem explicação. Dessa forma, o fato de não termos todas as respostas deixa o enredo bastante realista, apesar de poder frustrar ou intrigar o leitor.
Outro ponto que corrobora os desfechos incompletos é justamente a forma como os protagonistas têm de investigar os mistérios: as plantas baixas das casas. Por mais que ambos cheguem a conclusões impressionantes com tão pouca informação, precisamos ser honestos em admitir que seus recursos são limitados — e seus resultados, também. Eles ainda deram a “sorte” de conseguir outras informações paralelas, como relatos de testemunhas e envolvidos nos eventos descritos em ambos os livros.
Inclusive, este ponto é interessante de ser observado, pois Uketsu compreende de forma bastante profunda a maneira como os mistérios da internet são analisados e resolvidos por internautas — “Imagens Estranhas” reforça esse ponto. Os ratos da web não têm muitas informações sobre determinados casos, a não ser o que pode ser encontrado em fontes abertas. Mas, mesmo assim, o esforço coletivo de diversas pessoas raciocinando juntas acaba entregando resultados impressionantes. Tudo o que é necessário é uma boa capacidade de pesquisa e busca, um raciocínio lógico afiado e um tanto de imaginação. O “autor” e o arquiteto Kurihara têm tudo isso de sobra, o que poderia fazer com que as tramas dos dois livros fossem resolvidas por um bando de desconhecidos obcecados de um fórum online.
Outro fator que corrobora o fato de que Uketsu é um bom observador da cultura da internet é a menção à Floresta dos Suicidas em Aokigahara — que desperta a curiosidade mórbida de muitas pessoas. Seu conhecimento também vai além ao reconhecer que muitas coisas precisam de pesquisa pessoal e física a lugares remotos, uma vez que a ideia de que “tudo está na internet” é típica de moradores de grandes centros urbanos. No interior, informações são mais difíceis de serem obtidas dessa forma.
Foi muito criativo, e devemos reconhecer isso, o fato de que duas histórias tão sombrias pudessem ser contadas a partir de algumas plantas baixas de casas que foram construídas com um pano de fundo bizarro. O mais perturbador é pensar que, para a maioria das pessoas, tais detalhes passariam despercebidos.
Kurihara, com sua experiência em arquitetura, sabe exatamente o que as pessoas querem e precisam no próprio lar, além de detalhes do funcionamento de construtoras. Então, apoiado nisso, o leitor começa a compreender, por exemplo, o quão estranho é o fato de um quarto de criança ficar no centro do segundo andar de uma casa, sem acesso a janelas. Ou então, ele é capaz de fazer o oposto: com base em informações de um diário de uma criança, consegue deduzir de forma precisa como era determinada casa que ela visitava. Com certeza, “Casas Estranhas 1 e 2” devem ter despertado o interesse de muitas pessoas na área de arquitetura por causa disso tudo.
Existe um fato curioso quando se começa a ler o segundo livro: a tendência de o leitor já ir com olhos atentos para a análise das plantas baixas apresentadas. No primeiro livro, caso se trate de um leitor leigo na área de arquitetura e engenharia civil (como a maioria esmagadora deve ser), logo de cara não entendemos o que há de errado com o primeiro desenho apresentado. Mas, ao longo dos próximos, vamos ficando mais atentos e também exercitamos a imaginação para ver como a casa seria. Já no início do segundo livro, com a mente mais “afiada” para essas questões, o olhar do leitor muda, e, antes mesmo de lermos os capítulos, conseguimos enxergar os problemas de cada planta baixa e por que aquelas casas são estranhas.
E por mais que as tramas de ambas as obras estejam envolvidas com temas como assassinatos, morte, abuso, prostituição, paranoia e loucura, o fato é que ambas têm o mesmo tema central: o fanatismo religioso de crenças espirituais. Por mais que o segundo livro trate disso como uma forma de lucro dos culpados de toda a trama, ainda assim os responsáveis foram hábeis em construir uma narrativa convincente para ludibriar fiéis, usando seus desesperos contra eles mesmos. Já no primeiro, a motivação de tudo é mais sombria e até mesmo macabra, principalmente por remontar a uma tradição familiar antiga.
Certamente, Uketsu é um autor que está chamando atenção não somente no Japão como também fora dele. Este não é um feito muito comum para escritores japoneses, ao contrário de mangakas. Resta saber se ele irá continuar mantendo a boa produção literária ou se irá se apegar às próprias fórmulas já estabelecidas e se autocopiar em futuros livros.
