“O Agente Secreto”: os horrores que a história tenta apagar

No novo filme de Kleber Mendonça Filho, nada é o que parece. Recife, aqui, ressoa como uma cidade inquieta, cheia de paranoia, desconfiança e brutalidade — tudo fruto de sua época e de como as coisas eram resolvidas.

Em “O Agente Secreto”, Armando, vivido por Wagner Moura, precisa assumir a identidade de Marcelo e se abrigar em Recife. Quando tudo parece bem, as consequências de seu passado voltam para assombrá-lo.

Logo no início do longa, uma simples cena do personagem de Wagner Moura abastecendo seu Fusca em um posto à beira da estrada já diz muito. A natureza selvagem da época, 1977, se faz presente com um corpo baleado na cabeça a poucos metros do posto; a polícia, muito ocupada com o Carnaval, não teve tempo de removê-lo. Eis que, enquanto Armando, mantendo a alcunha de Marcelo, abastece seu veículo, uma viatura para com dois policiais. Os policiais em questão ignoram o corpo e revistam o carro de Marcelo.

Essa cena de uns 10 minutos já nos prepara para o tom do longa dali em diante. O até então Marcelo é esse personagem misterioso que, pelos trejeitos e pela atuação de Wagner Moura, sabemos que esconde algo. E, pela entrega do ator, essa simples sequência é tensa, mesmo não resultando em nada de muito grave.

Tanto a direção quanto o roteiro são de Kleber Mendonça Filho. Como já vimos em seu longa anterior, “Bacurau”, ele tem um estilo mais lento de contar uma história — algo que remete ao cinema mais antigo da época do faroeste ou a cineastas mais saudosistas, como Martin Scorsese. Aqui é necessário dar tempo ao longa para apresentar contexto e personagens, até que se chegue, enfim, à trama central.

Se Scorsese filmava homens consumidos pela culpa e vielas febris, como em “Taxi Driver” ou “A Ilha do Medo”, e Kafka escrevia sobre labirintos burocráticos, como em “O Processo”, o roteiro de “O Agente Secreto” une os dois mundos: o inferno moral e o burocrático. Através do protagonista, e de outros personagens também escondidos e refugiados, temos a constante luta para não ser apagado da história. O olhar cansado de quem vive fugindo e preocupado com a busca por documentos, enquanto a paranoia cresce e a ansiedade se acumula, é filmado como uma angustiante caçada em busca de liberdade.

Embora não seja falada de forma explícita, a ditadura militar se faz presente — não apenas pela época em que o longa se passa, mas também pela forma como as coisas são. Aqui, não se pode falar muito alto, não se pode sair muito tarde da noite, tampouco andar por onde quiser. Os planos abertos retratam que o perigo está em cada esquina, com a constante sensação de ser observado.

Nesse ponto, a escala da produção é muito acima da média, sendo destaque a retratação de Recife nos anos 1970. Cada detalhe, cada muro, é importante para transmitir essa ideia do perigo à espreita e de que a cidade também é um personagem, sujeita a mudanças com o tempo.

Além do protagonista, somos apresentados a outros personagens, todos com sua própria história, mas com o mesmo fim. Cada um se esconde — seja por preconceito, diferenças ideológicas ou sociais, ou simplesmente por medo de ser confundido com alguém ou pisar no pé da pessoa errada.

No fim, por ser mais subjetivo do que literal, o filme talvez afaste algumas pessoas por não ser muito direto. Essa decisão não é para esconder, mas sim para focar nas consequências acima dos atos. A ditadura é usada como ferramenta de construção narrativa, estando lá sem ser falada, mas sentida.

Sendo assim, no fundo, “O Agente Secreto” é menos sobre espionagem e mais sobre os horrores de viver com medo, em um contexto onde todos se perseguem e querem sua morte. Uma história que mostra que o medo do esquecimento vai além de qualquer demônio ou fantasma — ideia refletida em seu final aparentemente inconclusivo, porém consistente. Quando o silêncio se instaura e a sensação amarga passa, a impressão que fica é apenas uma: o terror pode mudar de nome e gênero, mas está em todo lugar — e nunca termina.

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