“Tremembé”: os Vingadores do true crime brasileiro

O interesse por produções de true crime no Brasil cresceu muito nos últimos anos. Com isso, tivemos algumas produções de qualidade duvidosa no Prime Video, como “A Menina que Matou os Pais” e “Maníaco do Parque”. Porém, para surpresa de muitos, uma de maior qualidade também viria desse streaming: “Tremembé”. Baseada no livro “Tremembé – O Presídio dos Famosos”, escrito por Ulisses Campbell — que também assina o roteiro da série —, a proposta é explorar o dia a dia dos presos mais conhecidos do presídio, como Suzane von Richthofen, Elize Matsunaga, entre outros.

A série começa focada em Suzane, no dia em que é transferida para Tremembé. Lá, ela se adapta ao sistema de hierarquia do local. Aqui, ela é interpretada por Marina Ruy Barbosa, que não só está assustadoramente parecida, como também atua com um ar metódico e frio — uma interpretação que nasce da pesquisa dos resultados de testes psicológicos da Suzane da vida real.

Esses testes psicológicos se fazem presentes na série de forma didática. O mais importante é o teste de Rorschach. O método de psicanálise aparece na obra tanto de forma explicativa quanto prática, mostrando suas consequências. A série o coloca como elemento decisivo no destino dos personagens, ao mesmo tempo em que comunica ao público sua importância, funcionamento e resultados.

Não à toa, Campbell o utilizou para pautar seus personagens e guiar os atores. O jeito metódico de Suzane, as explosões emocionais de Alexandre Nardoni e de Elize Matsunaga — tudo é fruto do teste na vida real, o que expõe sua importância dentro e fora da tela.

Ainda falando do roteiro, a série sabe equilibrar tons como poucas conseguem, alternando entre momentos sérios e tensos e outros leves, com toques de humor. Algo ousado de se fazer, mas que evidencia a qualidade da escrita. “Tremembé” está no limiar entre respeitar as vítimas e os crimes cometidos, e ironizar ou satirizar a rotina de um local recheado de hipocrisia.

Discussões sobre falsa moralidade ou sobre qual crime é pior — quem deveria ter matado, roubado ou não — são feitas pelos personagens, mas nunca levadas a sério pela cena. Dito isso, não espere ver uma crítica ao sistema prisional brasileiro ou alguma denúncia de descaso dentro do presídio: o foco é a caricatura e como a vida dentro da prisão pouco importa para quem está do lado de fora.

O elemento de contraste mais notável é a diferença entre a ala feminina e a masculina. Acredito que, de forma proposital, para evitar estereótipos e clichês, a ala feminina é retratada como mais violenta e organizada politicamente, com líderes e vice-líderes, regras e certa impunidade em alguns atos. Já a ala masculina é bem diferente. Apesar de também ter sua dose de violência, não é tão conflitante quanto a feminina. Os homens parecem mais focados em destituir o sistema de dentro para fora, com fraudes, contrabandos e uma estrutura de autodefesa para tentar se libertar.

As relações sexuais também fogem dos clichês. Enquanto na ala feminina são usadas como estratégia de poder para cair nas graças das “chefonas”, na ala masculina — onde o mais clichê seria mostrar estupros e violência —, a série escolhe um tom mais romântico e respeitoso.

Tecnicamente, a qualidade se destaca em relação às demais produções. A retratação da cadeia é palpável, com a sensação de que se pode andar por salas e corredores, tornando a geografia do lugar crível e um elemento de trama à parte. Mas quando falamos da narrativa, a coisa é um pouco mais complicada. Temos, sim, personagens carismáticos e interessantes. Apesar do domínio de variação de tons do roteiro carregar tudo nas costas, não há uma trama propriamente dita. O que temos está mais para um compilado de situações que ocorrem no mesmo período de dias e terminam na famosa “saidinha” de fim de ano.

“Tremembé” me deixou dividido. Nos dois primeiros episódios — até o terceiro — eu estava gostando de tudo, mas ao perceber que não há um fio condutor convincente, tudo acaba perdendo o sentido. No fim, é uma produção bem-feita, que se sustenta pelo carisma e pelas atuações. Muitas vezes, ela cai em um terreno informativo, parecendo apenas listar acontecimentos.

Ainda assim, o roteiro de Ulisses Campbell vale a jornada pelos cinco episódios. Entre as tensões dos crimes bárbaros e a caricata retratação dos absurdos vividos na cadeia, de uma forma ou de outra, “Tremembé” vai te causar alguma emoção — mesmo que seja raiva.

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