Os ratos estão chegando

I

Creio que ninguém irá acreditar no que estou prestes a escrever, mas quanto a isso eu não posso fazer nada. O fato é que já perdi a noção de tempo e espaço e estou afundando em minha própria mente a cada segundo que passa. Então, antes que eu encontre meu fim, irei deixar registrado o que aconteceu, mesmo que vejam uma profunda má-fé em minhas palavras.

Nasci primogênito de um herdeiro de um império comercial construído gerações passadas – o que fazia de mim também herdeiro. Alguns boatos dizem que minha linhagem vem de judeus convertidos, mas creio que a usura de nosso sangue transcende o sacramento do batismo, uma vez que alguns irmãos de meu pai ainda negociavam valores a juros. E mesmo que meu pai não cometesse esse tipo de falta, não significava que houvesse pessoas livres de débito com o mesmo. Os detalhes dessas questões são complexos demais e nunca tive tanto interesse em conhecê-los, mas o fato era que todos que cruzavam nosso caminho possuíam, na mesma medida, asco e admiração.

Cresci em meio ao conforto que o privilégio de minha posição social proporcionava e, por isso, eu era inconsequente. Não tinha o menor compromisso com minhas responsabilidades e deveres, assim como pouco gosto pelo conhecimento – negligenciava até mesmo o que deveria saber para conservar a riqueza construída em gerações. Eu, meus irmãos e primos frequentemente íamos a bordéis e nos deleitávamos dos serviços das mais finas cortesãs, e esse hábito perdurou mesmo depois de que me foi entregue a mão de minha prima. Ela me amava, mas eu não partilhava do mesmo sentimento. Eu não a odiava, veja bem. Eu era quase indiferente quanto à sua existência na maioria das vezes, na verdade.

E foi em uma dessas noites de luxúria que tudo começou.

Já estava casado havia quase um ano, e minha esposa esperava um filho. Meu primogênito estava para nascer na próxima lua cheia – apesar de eu não saber disso – e, seguindo minha natureza libertina à risca, encontrava-me em uma taverna com três prostitutas ao mesmo tempo. No êxtase da orgia, um de meus irmãos adentrou o quarto e informou que o choro da criança já ecoava pelas paredes do casarão. Vesti-me apressadamente e deixei algum dinheiro sobre a cama antes de partir. Praguejei comigo mesmo durante todo o trajeto de volta para minha casa, mas não pense que as blasfêmias eram por perder o nascimento de meu suposto varão: a maior preocupação era saber como iria explicar minha ausência. Todos sabiam a verdade, inclusive minha esposa, mas não seria nem um pouco prudente ser sincero.

Eu e meu irmão cavalgávamos às pressas, iluminados pelas estrelas e pela lua. Mas ela estava diferente. Um calafrio percorreu minha espinha e um nó se fez em minha garganta quando me dei conta de que a lua estava vermelho-alaranjada, como se um gigantesco olho diabólico observasse o mundo. Interpretei isso como uma forma de mau presságio.

Em dado momento, pouco depois de observar a lua, ouvi meu irmão emitir um som intermediário entre gemido e grito. Isso fez meu cavalo dar uma guinada furiosa, e fui arremessado para frente como uma criança arremessa uma boneca de trapos. O mundo ao meu redor, que já estava escuro, ficou silencioso, e tenho algumas vagas lembranças de que acordava por alguns segundos, sentindo uma terrível náusea, mas logo depois voltava a adormecer.

II

Acordei lentamente e percebi que havia algo muito confortável ao meu redor, como se repousasse em um grande chumaço de algodão puro. Quando minha mente despertou por completo, observei o lugar em que estava. Era um cômodo pequeno, de formato retangular, com paredes, teto e chão de cor cinza-claro. Dei-me conta de que o lugar não tinha portas ou janelas e me levantei daquela coisa — que pude ver que era uma cama pequena — e comecei a bater e tocar na parede mais próxima de mim. Dei uma volta completa ao redor de meu próprio corpo, e algo chamou minha atenção.

Nunca havia visto nada igual antes. Havia uma placa estreita com uma espécie de vidro e outras duas caixas logo abaixo, uma grande e a outra pequena. E, perto daquela estrutura, outras duas coisas intrigantes estavam dispostas. Uma delas era outra placa, mas essa possuía o alfabeto latino, números e outros símbolos que eu desconhecia. A outra coisa era um tipo de meia-esfera, ou algo assim, que era dividida ao meio a partir da metade.

Comecei a rir da fertilidade que minha mente possuía e cogitei que, talvez, devesse estudar e seguir os grandes poetas assim que acordasse. Uma epopeia digna de Virgílio e Homero poderia ser escrita por mim um dia. Com um sorriso bobo, deitei-me na esperança de acordar e me ver no casarão de minha família, com minha esposa ao lado e com meus irmãos.

Mas isso não aconteceu.

Quando despertei, ainda estava naquele lugar. Minha reação, ao me dar conta daquilo, foi gritar por socorro. Era como se, de uma única vez, eu tivesse me dado conta de que não era um sonho. O que diabos estava acontecendo? Havia objetos ali que eu nunca havia visto na vida; e por que eu fui parar naquele lugar? E como, em nome de Deus, eu fui parar ali?

Após os minutos em que perdi a noção do mundo ao meu redor, notei que havia algo novo disposto em cima daquele móvel. Era um livro de grandes dimensões e razoavelmente volumoso, como a Bíblia. Pensei que talvez ali estivesse escrito o que estava acontecendo, mas algo ainda mais peculiar havia naquele tomo, pois apenas as duas primeiras páginas estavam escritas.

O restante era composto apenas por folhas em branco, com exceção da numeração, que ia de um a setecentos e trinta.

Na primeira página havia uma ilustração extremamente realista e perfeita daquele aparato que estava sobre aquela estante — o artista que havia feito aquilo devia ter as mãos beijadas pelo próprio Criador. Logo abaixo da gravura, havia um nome: “Computador”.

Então o nome daquela coisa era computador?

Ainda assim, não tinha a mínima noção para que servia.

As instruções de como acionar aquele aparelho eram breves e simples. Eu o fiz com uma mistura de medo e curiosidade. Quando menos esperava, aquele painel emitiu uma luminosidade colorida que quase me cegou. Aquela coisa estava emitindo luz, como se fosse fogo ou o próprio sol!

O que diabos era aquilo?

Após me recompor por um momento, o livro estranho informou que eu poderia controlar uma pequena seta com aquela meia-esfera que se chamava “mouse” — deduzi, pela fonética, que deveria ser uma palavra germânica ou escandinava, sendo bem diferente do vulgar. Levei a mão, um pouco hesitante, àquela coisa e a movi, mas nada aconteceu. Depois de alguns segundos, eu entendi e me assustei com o que estava fazendo. Aquela pequena seta branca dentro daquele painel, que se chamava “monitor”, estava se mexendo à medida que eu movia a esfera partida.

Por mais que fosse um homem inconsequente e fanfarrão, eu era inteligente e tinha curiosidade pelas coisas, e sempre tentava achar lógica para entender tudo. Mas nada naquela situação ou naquele aparelho fazia sentido. Como uma coisa daquelas poderia emitir luz sem fogo ou algo do tipo? E como eu conseguia controlar aquela pequena seta, sendo que não havia nada ligado àquela esfera partida ao meio, sequer um mínimo sistema de alavanca? Uma dor de cabeça terrível começou a me invadir conforme tentava achar lógica por detrás de tudo aquilo.

Deitei-me e tentei dormir mais um pouco, mas meus pensamentos temerosos não me permitiam pregar os olhos. Como se não bastasse estar preso em um lugar sem nenhuma saída, com aquela coisa estranha, estava com fome.

III

Acordei e, mesmo assim, a fome ainda persistia em me atormentar. Mas algo curioso estava disposto em um pequeno prato no meio do local. Era uma espécie de pão arredondado com carne e queijo dentro. Uma bebida escura, em um copo branco e de textura atípica, acompanhava tudo. A primeira mordida naquela coisa me deixou em êxtase, e parecia que meus sentidos estavam sendo explodidos. Talvez fosse por estar faminto, mas aquela refeição parecia a melhor comida que já havia provado dentre todos os meus privilégios. O líquido escuro também era como um presente de Deus: cítrico como cerveja, mas, ao mesmo tempo, doce e gelado.

Deixei-me cair na cama e comecei a rir comigo mesmo. Por mais que eu comesse muito bem, nunca havia feito uma refeição tão deliciosa.

De qual província ou região seria tal iguaria? Certamente iria visitá-la um dia.

Mas então veio-me uma coisa à mente: se apareceu comida ali, alguém estava me vigiando e sabia de minha presença. E esse alguém entrou de alguma forma, mas como? Eu estava começando a ficar mais furioso do que amedrontado, mas daí então olhei para aquela coisa…
“Computador.”

A fúria me foi arrancada da alma e trouxe de volta o medo. Algo naquele objeto me repelia, porém sentia que precisava explorá-lo de alguma forma. Eu não tinha a menor ideia de como, e aquela porcaria de livro só tinha duas páginas. Mas e se eu não tivesse deixado escapar alguma coisa?

O que vi me deixou confuso.

Além das duas páginas, havia outras duas folhas seguintes. Eu estava certo de que não havia nada naquelas folhas. Novas informações sobre aquela máquina estavam disponíveis para minha consulta, e falavam sobre uma coisa chamada “internet”. Não fazia a menor ideia do que era aquilo, mas segui as instruções novamente. Demorei algum tempo para ligar aquela coisa outra vez e mais ainda para me acostumar àquela esfera. Era difícil controlar a seta com aquela coisa, e eu não entendia quase nenhuma informação que me fora fornecida nas próximas páginas, mas elas me diziam para olhar no canto inferior direito da tela do monitor.

A primeira coisa que fiz foi clicar com o mouse ali; então meu coração parou por um momento. Eu não havia percebido que havia duas novas caixas esquisitas do lado da tela, e elas emitiram um som tão alto que me fez gritar de pavor. Era algo como um “BLAM!” alto e rápido. Caí no chão com o corpo tremendo. Não sei quanto tempo permaneci assim, mas, depois que estava mais calmo, levantei-me. Fiquei encarando os objetos por algum tempo antes de criar coragem e olhar novamente para o canto inferior direito.

Havia uma série de números e barras: 12/03/2358. Eu não entendi muito bem o que aquilo significava, mas não me deixou tranquilo. Olhei para a tela e tentei analisar o que via. No livro dizia que aquelas pequenas imagens eram “atalhos”. Havia palavras abaixo delas, mas muitas eram palavras que eu não sabia ler: “FireFox”, “Lixeira”, “Meu Computador”, dentre outros. Perguntei-me como haveria uma lixeira naquela coisa, mas não pude pensar muito, pois estava ficando com dor de cabeça novamente.

Parei por um instante e perguntei a Deus do céu o que estava acontecendo. Será que era o castigo do Todo-Poderoso por meus pecados? Parte de mim sabia que eu estava bastante lúcido, mas aquelas coisas eram demais para a minha cabeça. Ela doía tanto que acabei caindo na cama.

Meus sonhos foram completamente ilógicos e abstratos, dentro de um emaranhado de sensações, mas consegui reconhecer uma coisa: a lua vermelho-alaranjada, a última coisa que eu havia visto antes de mergulhar naquele inferno.

Quando despertei, senti como se minha cabeça tivesse sido expandida. Minha primeira reação foi ir ao computador. Eu acreditava que aquela coisa talvez pudesse me dizer por que eu estava ali e como poderia sair. Embora fosse algo muito complexo, estava determinado a tentar. Dessa vez, liguei-o rapidamente, pois já sabia todos os passos e já estava me acostumando aos movimentos daquela seta. Outro fato que me deixou intrigado e reforçou ainda mais minha teoria de que alguém entrava ali era aquele livro, pois, quando o abri, havia mais duas páginas com novas informações.

Experimentei clicar naquela coisa chamada “FireFox”, e a imagem da tela mudou. Eu me assustava com a maneira como aquela tela emitia luz e, pior, trocava de cor e imagem quase que instantaneamente, mas, aos poucos, estava me habituando àquela estranheza.
“Google”, escrito em letras coloridas, com um campo retangular estreito abaixo. No livro dizia que aquela coisa servia para fazer pesquisas e buscar informações.

Com dificuldade, escrevi então: “Onde eu estou?” e a imagem mudou novamente. Ousei clicar em algumas daquelas palavras, e a imagem na tela mudou outra vez. Nenhum lugar dizia onde eu estava, e praguejei comigo mesmo. Então, naquele mesmo instante, considerei que talvez aquele tal de “Google” não desse respostas tão pessoais assim e seria inútil escrever qualquer coisa do gênero.

Procurei então por “computadores” e “internet”, para talvez entender melhor o que eram aquelas coisas. Os primeiros resultados me mostraram conceitos como o de ser uma máquina com capacidade de tratamento de variados tipos de dados e que “internet” era como se fossem vários computadores ligados uns aos outros, servindo como uma grande rede de compartilhamento de informações. A analogia que fiz em minha mente para conseguir entender melhor foi que os computadores seriam como as prateleiras, corredores e salas de uma grande biblioteca, e que os livros seriam a internet.

A próxima informação a respeito de computadores me deixou intrigado por um momento. Aquela tela estava dizendo que computadores surgiram em meados dos anos 1930. Foi aí que, ainda com dificuldade, procurei saber melhor sobre datas. Então me deparei com as diferenças entre os calendários Juliano e Gregoriano.

Com um calafrio na espinha, olhei novamente para o canto inferior direito da tela e fiquei fitando a série de números e barras: 12/03/2358. Dei-me conta de que aquele último número era o ano que aquela máquina estava datando segundo o Calendário Gregoriano — que seria sugerido por um papa dali a pelo menos duzentos anos!

Ergui-me da cadeira e comecei a andar de um lado para o outro, com pensamentos fervilhando em minha cabeça.

Bati em todas as paredes a socos e pontapés. Gritei e implorei para acordar. Ou morrer. Isso não podia ser verdade. Era apenas alguma brincadeira de mau gosto que alguém estava fazendo comigo. Não podia ser outra coisa senão isso.

Em uma atitude desesperada, arregacei as mangas de minha roupa e olhei para a dobra de meus braços. Com um movimento preciso, mordi com uma força proporcional à dor causada. Sangue escorria de minha boca e pingava no chão cinzento. Com outro movimento preciso, mordi novamente, mas no outro braço. Sentia o líquido escarlate se esvair aos poucos de minhas veias e achei que assim talvez conseguisse morrer e acabar com esse pesadelo, mas a realidade veio logo depois que acordei.

IV

Não sei quanto tempo dormi. Quando acordei, meus braços doíam, mas de uma forma menos intensa. As feridas foram isoladas com ataduras macias, e eu me sentia um pouco mais calmo — até mesmo entorpecido. Ainda estava apavorado, revoltado e com pensamentos desordenados na mente, mas um pouco mais… contido? Talvez fosse essa a palavra. Havia outra refeição, que eu comi sem muita vontade, embora fosse tão deliciosa quanto a anterior.

Aos poucos, comecei a entrar em um estado de apatia e simplesmente parei de fazer qualquer coisa. Tinha medo de ligar aquele computador e receio de tentar ler aquele livro.

Passei por algum tempo — provavelmente dias — apenas deitado naquela cama e andando de um lado para o outro no cômodo, tal como um prisioneiro. Os pensamentos continuaram de maneira que não faziam sentido nem mesmo para mim, e meu tédio era grande, mas eu não sabia mais o que era de mim. Eventualmente aparecia mais comida para satisfazer a necessidade humana mais básica; contudo, não conseguia sentir nenhum prazer no simples ato de mastigar.

V

Depois de muito tempo, resolvi apanhar aquele livro após aquele longo período sem coragem para fazer qualquer coisa. Havia várias novas páginas com mais informações a respeito do computador.

Um fato curioso é que, logo no início, havia uma mensagem que dizia para eu me acalmar e que todas as respostas viriam no momento ideal. Praguejei antes de continuar. Também sugeria que eu me encorajasse a continuar explorando aquela máquina, pois, por mais que ela parecesse confusa, ilógica e assustadora, aquela era a ferramenta mais poderosa que a humanidade possuía.

Olhei para o monitor e senti vontade de virar o rosto.
Depois, encarei aquela coisa novamente.

Sempre fugi dos meus problemas e das minhas responsabilidades, e agora… agora eu era obrigado, pela primeira vez, a encarar um problema muito sério. Estava preso ao meu problema, e eu não podia fugir, por mais que tentasse. Não havia nenhuma porta ou janela a que pudesse recorrer. As únicas pessoas — pois eu sabia que alguém me observava — queriam que eu explorasse a ferramenta mais poderosa que o homem criou.

Com uma inspirada profunda, liguei aquela máquina em segundos e comecei a explorar. Assim que me sentei, rasguei as ataduras de meus braços, dando à vista grandes cicatrizes secas em formato de dentes.

Uma estranha determinação começou a brotar em meu peito, mas, ainda assim, decidi ter cuidado com esse entusiasmo repentino.

VI

Depois de alguns dias, comecei a entender um pouco melhor do que um computador era capaz. Ele podia editar textos e imagens antes mesmo de serem “impressos”, dentre outras inúmeras finalidades, como a capacidade de fazer cálculos matemáticos extremamente complexos. Era possível armazenar uma quantidade inimaginável de dados em um espaço incrivelmente pequeno. Além disso, com a internet, o acesso a qualquer tipo de informação era incrivelmente prático e instantâneo, dando uma boa parte das respostas que se tinha às suas perguntas ou dúvidas.

Por meio de algumas pesquisas, descobri que, no tempo atual em que eu me encontrava, as coisas eram incrivelmente diferentes. Construções colossais onde viviam pessoas, que se chamavam “edifícios”, lotavam grandes cidades. Outro fato que me apavorou foi a existência de máquinas gigantes capazes de voar levando duzentas pessoas ou mais, e que viajavam a uma velocidade que era quase difícil de imaginar.

Outras semelhantes viajavam até outros planetas e até a… lua.

Outro fato que não me assustou, mas me deixou bastante curioso, foi a criação de carruagens sem a necessidade de um cavalo para se locomover, que se chamavam “automóveis”. Eram criações impressionantes e muito bonitas, mas, de certo modo, um pouco exóticas para meus padrões. E o que realmente me deixou fascinado foi saber que o mundo, na verdade, era redondo, que as estações do ano se devem à inclinação da Terra e não à proximidade com o Sol. O astro-rei era o centro do nosso sistema planetário e não o nosso mundo, e que havia um continente imenso do outro lado do oceano chamado “América”. Além disso, soube que um poeta contemporâneo meu, chamado Dante Alighieri, iria influenciar a cultura do mundo inteiro de forma revolucionária.

Diversos movimentos filosóficos e sociais acarretariam acontecimentos históricos assustadores. Era difícil imaginar que reis teriam suas cabeças cortadas, que a maior parte da população do mundo aprenderia a ler e que assuntos que antes eram tidos como tão certos seriam colocados em xeque. Diversas doenças ocorreriam ao redor do mundo inteiro em períodos relativamente regulares, como se fosse uma forma de Deus limpar o excedente de pessoas. E também haveria diversas guerras sangrentas e desastrosas, com armas que eu jamais sonharia em conceber.

De fato, um computador era uma ferramenta extremamente poderosa, e mais assustadora ainda era a ideia de que eles eram muito comuns. Mas o que mais me surpreendia era como a humanidade havia evoluído de uma maneira que eu nunca imaginaria. Era pavoroso em diversos aspectos, mas em outros era até mesmo emocionante saber a respeito das maravilhas criadas por mentes criativas. Não seria mais necessário que a castidade fosse praticada, mas diversos atos seriam considerados imorais ou criminosos — não conseguia engolir que mulheres e o povo tomassem decisões políticas e econômicas.

Mas então vieram duas novas páginas naquele meu livro-guia.

Acordei certo dia e fui ver quais seriam as novidades, mas eram bastante diretas e simples: “Procure saber mais sobre a peste”. Dei de ombros e fui saber mais a respeito. Até onde tomei conhecimento, a Idade Média era a época que os estudiosos chamavam de o tempo em que eu, em teoria, vivo — ou vivia. Fiquei com bastante receio de saber o que era aquilo. O próprio nome soava muito sombrio e eu estava com um mau pressentimento.

Quando terminei de ler os diversos textos e assistir aos vídeos, desliguei o computador e segui para a cama.

Eu já havia notado, nos últimos dias antes de vir parar nesse lugar, que ratos pretos haviam cruzado o meu caminho diversas vezes. Na hora, não me importei, mas agora o que havia em meu âmago era desespero. Era quase impossível imaginar setenta e cinco milhões de pessoas, ainda mais esse mesmo número de mortos empilhados em locais públicos e sendo despejados como excrementos.

Essa quantidade de pessoas que iria morrer, todas com pústulas horrendas e agonizando até que a morte as levasse. Suas famílias ocultariam a situação ao máximo, e nem mesmo os nobres seriam capazes de fugir. O mundo já era um lugar fétido por natureza, mas imaginar o fedor da ausência de higiene misturado ao odor de putrefação de pessoas vivas…

Seria aquilo um castigo do Todo-Poderoso? A ânsia de vômito veio ao meu encontro, mas não consegui expelir nada. Minhas noites seguintes foram povoadas por pesadelos de imagens horrendas e de pessoas agonizando aos poucos antes de morrer.

Eu estava naquele lugar havia sabe lá Deus quanto tempo — e então me ocorreu que eu poderia olhar o calendário do próprio computador. Eu havia visto as coisas boas e ruins do futuro, aprendido a usar a ferramenta mais poderosa que a humanidade criou e também degustado a comida mais deliciosa.

Mas, após tudo isso, por que eu estava naquele lugar? E por que a mim? E com que propósito me revelar as coisas mais horrendas que a minha época passaria? Eu só queria sair ou morrer.

VII

Certo dia notei que faltavam apenas quatro páginas para o livro se concluir e me indagava o que ocorreria quando isso acontecesse. Nas duas penúltimas folhas estava escrito que as minhas respostas estavam próximas e que eu só precisava ter mais um pouco de paciência. Respirei fundo e aceitei. Se, de fato, faltasse pouco para eu ter alguma resposta, então eu poderia aguentar mais um pouco; afinal, eu já tinha aguentado até ali.

Mas, quando eu acordei na outra manhã…

Meu cabelo e minha barba estavam mais curtos, e eu estava na minha antiga cama, no meu quarto da mansão de minha família. Ergui as mangas e as cicatrizes da mordida que eu fiz em mim mesmo tempos atrás haviam sumido.

Eu havia voltado? Achava que sim. Ri com uma intensidade louca e assustadora. Meu irmão estava ao meu lado e deu um salto quando despertei.

Ele perguntou se eu estava bem, e respondi que sim, mas não sabia o que estava acontecendo. O mesmo se silenciou por um instante; então comecei a questioná-lo sobre o porquê de estar tão quieto, sendo que eu havia desaparecido por dias. Seu cenho se franziu quando argumentei isso, e logo depois veio sua negação. Ele também me questionou a razão de eu estar falando tão esquisito. Argumentei que não estava falando esquisito e, quando disse isso, ele se afastou alguns passos de mim.

Meu sangue ferveu e continuei dizendo que eu havia caído do cavalo na noite de lua cheia, quando o meu filho iria nascer. Essa afirmação me foi negada novamente, com receio na voz, e eu me levantei da cama.

Contei tudo o que havia acontecido, falei do quarto cinzento, do livro, do computador, de tudo. Ele se afastou ainda mais de mim, com a expressão de medo. O padre que tomava conta da igreja mais próxima abriu a porta de meu quarto, com um rosto tão espantado quanto o de meu familiar.

— Acho que ver o filho daquele jeito foi demais para ele… — concluiu o sacerdote, com um tom de desdém na voz, e meu irmão assentiu.

— Sim, eu acho que meu irmão ficou louco.

Enfureci-me e saí do quarto a passos pesados. Estava exclamando e exigindo ver o meu filho naquele mesmo momento. Os dois homens me acompanharam pelos corredores enquanto tentavam me segurar, e isso aumentou minha raiva. Quando abri a porta do quarto em que a minha esposa supostamente deu à luz, procurei pela criança. Ela repousava sob um berço de carvalho, e ambos os homens se puseram diante de mim, mas os empurrei para o lado. Quando me aproximei, eu vi aquilo.

Não estava entendendo o pequeno monstro que havia naquele berço. Uma criança tão defeituosa que eu não acreditei que fosse um ser humano, ainda mais que fosse meu filho. Eu não consigo nem pôr em palavras a cena horrenda que eu via naqueles lençóis brancos. Parecia um tipo de animal completamente fora de sua configuração concebida pela natureza. Mas, incrivelmente, ainda estava viva.

O padre tocou em meu ombro e argumentou que era compreensível que eu tivesse ficado louco depois de ver que o primogênito nasceu completamente “estragado”, mas que Deus sabia o que fazia. Eu ri com esse último comentário, enquanto me afastava para o canto do quarto. Disse tantas blasfêmias que até mesmo o mais secular dos pagãos teria ficado desconfortável.

Todos ali estavam chocados. Meu irmão desabou de joelhos no chão, e o padre ficou sem fala. Meu pai adentrava o quarto quando eu terminava minhas maldições. Eu ri de uma maneira assustadoramente satisfatória e histérica. O pobre padre começou a rezar, e meu pai estava ordenando alguma coisa aos capatazes. Segui rindo durante todo o trajeto em que haviam me arrastado, e eu nem mesmo notei para onde seria levado. Talvez para um calabouço ou para algum lugar qualquer.

Da janela de minha cela, podia ver dois grandes ratos pretos passando correndo. Pequenas pulgas saíam de seus movimentos, e eu sabia que a peste estava chegando. O padre apareceu várias vezes para pedir minha confissão, mas eu neguei com todas as minhas forças.

Nas últimas noites, tenho notado pústulas nas mãos de meu carcereiro e soube que a peste havia começado em alguns portos. Com certeza eu não iria viver para ver a doença dizimar as pessoas, e me sinto um pouco grato por isso. Não irei durar muito, então dei um jeito de deixar por escrito tudo o que aconteceu. Sei que nada disso será arquivado. Nessas horas, gostaria de ter um computador.

Eu não tenho certeza, mas talvez isso seja culpa da lua… Aquela maldita lua que eu avistei quando tudo começou.

Espero que essas escritas sobrevivam tempo o bastante para alguém ler e, quem sabe, tentar fazer alguma coisa a respeito, mas sei que morrerei em breve, seja pela peste ou porque irei me matar; então escrevo essa história como uma forma de deixar minha consciência mais leve antes de partir. Só tome cuidado com as feridas abertas, com os ratos pretos, mas principalmente com aquela maldita lua.

Não lembro quando foi que escrevi esse conto, mas foi entre 2015 e 2016. Eu só queria testar um tipo de narrativa mais especulativa. Do nada, me perguntei como uma pessoa da era medieval reagiria diante de alguma tecnologia contemporânea. Porém, depois fiz algumas pesquisas e descobri que um dos maiores problemas seriam os germes. Isto é: nós carregamos muitas doenças que no passado não se existia imunidade ou vacinas e tratamentos. Então pensei nessa possibilidade de ser algo mais “quarentenado”. Eu gostei da ideia e desenvolvi. A parte mais difícil foi escolher um nome para essa história.

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