Existem medos que são comuns a maioria das pessoas. Já outros não são tão recorrentes, mas não chegam a ser raros. Agora, têm alguns que são tão exóticos e peculiares que podem soar bizarros ou até mesmo engraçados para quem observa de fora. Não raro é fácil de rastrear a origem dessas aversões, quase sempre sendo resultado de um episódio traumático do passado. Porém, também é frequente que alguns deles não tenham qualquer tipo de explicação plausível.
O roteirista e a ilustradora do mangá “Fobia” compreenderam muito bem a natureza dos medos humanos e traduziram isso em uma coletânea de três volumes. Ao longo de 15 histórias curtas, somos apresentados à protagonistas que são obrigados a lidar – ou não – com suas fobias mais peculiares. Alguns chegam a tomar atitudes extremas por causa de suas aversões, mas outras histórias chegam a ser divertidas de tão absurdas. E também existem os medos que acabam gerando histórias dramáticas que não são assustadoras ou engraçadas, mas sim tristes.

Contexto
“Fobia” é um mangá japonês de terror psicológico publicado originalmente no Japão em 2017, com roteiro de Katsunori Hara e arte de Yukiko Gotou. A obra se destaca por uma abordagem minimalista e perturbadora do medo, apresentando histórias curtas ou situações fragmentadas que exploram fobias cotidianas, paranoias e ansiedades profundas, muitas vezes sem explicações diretas ou resoluções claras. Em vez de apostar em violência explícita, “Fobia” constrói seu horror a partir do desconforto psicológico, do estranho inserido no banal e da sensação constante de ameaça, fazendo com que o leitor complete mentalmente os vazios narrativos e experimente o medo de forma íntima e subjetiva.
Alguns medos são engraçados
Para entender a proposta de “Fobia”, pense nas histórias de Junji Ito, mas com personagens mais carismáticos e enredos que não se sabe se é tudo fruto da mente deles, ou se tudo está acontecendo mesmo. Apesar de existirem momentos que se tornam horrores bem reais, e até indigestos, não significa que o caminho que levou até o clímax tenha sido algo sobrenatural de fato – é aberto para interpretações, mas tendo a pensar que é tudo fruto da imaginação dos personagens.
Os autores foram bastante criativos em explorar medos poucos convencionais na maioria dos casos. É claro que existem algumas histórias com medos mais corriqueiros, como de altura, lugares fechados e da morte, mas a maioria são coisas até curiosas. Exemplo disso é o capítulo de abertura do primeiro volume que a protagonista tem medo de frestas – de portas, janelas e até da saída de vento do ar-condicionado.
Uma coisa que é possível ver, que foi muito bem compreendido tanto pelo roteirista como ela ilustradora, é que muitos medos podem soar até mesmo engraçados para outras pessoas. Nas notas finais, o autor do texto explica que essa tinha sido sua primeira tentativa de escrever terror, uma vez que veio das histórias de comédia. E é nítido aqui o quanto algumas histórias têm um teor cômico. Inclusive, até algumas partes bem pesadas podem soar engraçadas caso alguém tenha um humor mais ácido.
Mas isso não significa que ele não compreendeu bem como as fobias funcionam. Muito pelo contrário. Eu mesmo, por exemplo, possuo uma fobia que é bastante bizarra para a maioria das pessoas e algumas até já riram disso. O fato é que existem alguns medos muito peculiares que soam cômicos e isso é natural. Por isso, não pense que o horror de “Fobia” é fraco. Talvez não dê “medo”, mas isso não quer dizer que não seja um bom estudo artístico de como o medo funciona.
Também é interessante notar a atenção de explicar, ou não, a origem dos medos dos personagens. Em alguns casos, a explicação é bastante lógica, com algum tipo de episódio traumático do passado que ficou impregnado em suas personalidades. Agora, em outros, simplesmente não tem nenhum motivo em particular e eles só existem. E isso é bem condizente com a própria forma como as pessoas têm suas fobias, o que mostra uma compreensão bem refinada de como o medo funciona.

O medo às vezes é triste
É preciso dizer uma coisa aqui: alguns dos capítulos não dão medo, muito menos são engraçados, mas sim arrasadoramente tristes. Não seria errado dizer que tais histórias se aproximam de um drama com elementos de terror, pois é possível que o leitor fique bastante tocado após a última página.
Inclusive, estas são as partes que mais saem do tom geral de “Fobia”. Isso não quer dizer que são histórias ruins – na verdade, são excelentes. O problema aqui é que, apesar de ser uma coletânea, existe uma cadência consistente entre o assustador e o engraçado, tal como já dito que os medos funcionam. Aí, do nada, surge uma história de drama que te deixa triste acaba sendo uma mudança de tom que soa desconexa com a obra como um todo.
Aliás, isso sequer chega a ser algo a ser criticado. Porém, existia o risco de corte de imersão por causa dessa mudança de perspectiva abrupta. A vista grossa e tolerância do leitor se faz obrigatória pelo fato de serem capítulos bons, como todos os outros.
Hentai necessário ou apenas gratuito?
Com exceção de histórias eróticas ou filmes pornográficos, cenas de sexo são polêmicas em todas as obras de ficção, não importa quão secularizada seja uma sociedade. Contudo, são partes que costumam ser aceitáveis caso tenha alguma função narrativa. E também é necessário saber dosar bem o tom na hora de desenvolver essas cenas para que não escorregue em um fanservice.
E aqui talvez seja o maior ponto mais fraco de “Fobia”. Os autores insistiram em colocar uma cena de hentai em quase todos os capítulos. Em alguns, essas cenas têm funções narrativas bem evidentes. Mas na maioria dos contos, as partes de sexo explícito são completamente desnecessárias e servem apenas para agradar uma parte do público mais pervertida.
É relativamente fácil de saber se existe uma cena gratuita dessas em um filme, livro, série ou mangá. Analise a obra como um todo e se pergunte: “se tirasse essa parte, a história seguiria igual?” Se a resposta for sim, então é um fanservice. Agora, do contrário, então ela cumpre uma função narrativa, seja ela qual for. Em “Fobia”, existem as duas situações, mas na maioria dos capítulos, as histórias seguiriam da mesma forma caso fossem removidas. Provavelmente isso foi alvo de críticas durante as publicações originais, uma vez que elas foram sendo removidas ou suavizadas conforme os volumes avançam.
